Três perguntas do PN para Bruno Crispim
PublishNews, Monica Ramalho, 28/08/2026
Escritor niteroiense acredita que a atual valorização dos autores brasileiros pode ser menos a causa de uma transformação no mercado editorial do que o resultado de mudanças econômicas mais amplas no país

O escritor niteroiense Bruno Crispim vem acompanhando de um lugar privilegiado o espaço cada vez maior conquistado por autores brasileiros no mercado editorial. Além de publicar os próprios livros, ele é professor e auxilia a formação de novos escritores, movimento que atribui a uma combinação de fatores que passa pela profissionalização dos autores, pelas plataformas de autopublicação, pelas redes sociais e chega até à macroeconomia. “Quando o global está caro, o local é a solução”, resume ao PublishNews.

É nesse cenário que Bruno lança Da morte sua (Faria e Silva), finalista do Prêmio Kindle de Literatura e o seu trabalho mais intimista, no qual aproxima duas experiências aparentemente opostas, o luto e a paternidade, para falar do medo que nasce justamente do afeto. Depois de transitar pelo romance policial, fantasia e suspense, o escritor parte desta vez de uma experiência pessoal para construir uma história que, segundo ele, levou anos até encontrar sua forma definitiva.

Nesta edição das Três Perguntas do PN, o escritor fala sobre o processo de escrita de Da morte sua, o que permanece na sua literatura apesar das mudanças de gênero e por que acredita que a atual valorização dos autores brasileiros pode ser menos a causa de uma transformação no mercado editorial do que o resultado de mudanças econômicas mais amplas no país. Leia a prosa:

PUBLISHNEWS — ⁠Em Da morte sua, você reúne luto e paternidade em um mesmo momento da vida. O que fez você perceber que essa era a história que precisava contar?

BRUNO CRISPIM — Essa história levou anos para virar o que é. No começo não era sobre paternidade, era apenas sobre o luto. Ela nasceu de uma provocação que a minha esposa me fez. Ela disse que eu só teria sucesso quando escrevesse sobre a morte dela. Que eu teria que entregar o coração e a alma ao texto, me deixar atravessar pelo luto a ponto de convencer o leitor de que a dor era real.

Escrevi essa história por anos assim, indo e voltando. Ela me abalava demais e eu não conseguia terminar, mas também não desistia dela. Foi só depois de ser pai, e de olhar para os pais à minha volta, que o livro encontrou seu segundo pilar. A paternidade não entrou como contraponto do luto. Entrou como a outra face do mesmo medo. Amar alguém tanto a ponto de temer perdê-la.

E houve um momento exato em que soube que tinha que terminar o livro. Estávamos voltando do hospital, depois de perder uma gravidez. Não foi uma decisão literária. Foi quase um reflexo. Eu precisava escrever sobre esse luto para suportar.

PN — Você já escreveu romance policial, fantasia, suspense e agora um livro mais intimista. O que permanece igual na sua escrita, apesar das mudanças de gênero?

BRUNO — Quando tudo muda, quando tudo é volátil, é vital pensar no que permanece. Meus livros são muito diferentes em estilo e em enredo, e conversam com leitores distintos, mas cada um carrega uma faceta da minha alma. Sou uma criatura de medos, introspectiva, de interesses ecléticos e que acomoda bem o contraditório. Cada história nasce daí: atravessa um medo que me define, seja ceder à loucura, ceder à violência ou viver a morte de alguém próximo, e parte de uma investigação da psiquê por um ponto de vista que me interessa e que costuma ser contrastante com o meu. No fundo, todo livro que escrevo é uma investigação de quem eu sou.

O que permanece intocado é o zelo com as minhas histórias, a dedicação no reescrever indefinidamente, até que o livro fique bom. Junto vem a pretensão de não me repetir, de que cada livro exija de mim algo que o anterior não exigiu, um pedaço diferente da minha essência. Talvez seja por isso que, neste momento, escrevo coisas tão distintas ao mesmo tempo: uma coletânea de poemas, um livro infantil (fruto de um ultimato da minha filha de cinco anos de idade) e também retomo um romance que reescrevo há mais de dez anos.

Boa sorte para quem quiser me definir em uma caixinha.

PN — ⁠Além de escritor, você acompanha a formação de novos autores e os bastidores da publicação de livros. O que mudou para que tantos autores brasileiros estejam encontrando espaço para publicar hoje?

BRUNO — A pergunta tem várias nuances, e acho que devemos ir além de uma análise micro que vai apontar coisas concretas e importantes como o amadurecimento dos escritores brasileiros, que passaram a buscar profissionalização. Também é relevante pontuar o papel das plataformas de autopublicação como o KDP, da Amazon, que é vital para os autores independentes, e a ascensão das redes sociais, que permitiram ao escritor chegar direto no leitor. Outro fator é tecnologia de impressão digital, que barateou a tiragem pequena a ponto de tornar viável a impressão de dezenas de livros. Tudo isso é real. Mas quando o comportamento de um grupo inteiro muda, quase sempre há uma força macro por trás que a análise micro não alcança.

A geração anterior à minha, por exemplo, foi pouco publicada, e não por falta de talento. Ela pegou um dólar baixo e um mercado ansioso por comprar direitos lá fora. Trazer um autor estrangeiro já consagrado era mais seguro e mais barato do que apostar num brasileiro desconhecido. Hoje o cenário vem se invertendo. O dólar está alto, com tendência de alta prolongada, e não há no horizonte nada parecido com a paridade do início do Plano Real para alterar esta trajetória. Publicar um livro estrangeiro, sobretudo estadunidense, fica cada vez mais caro, e o espaço para o autor brasileiro se abre como consequência.

Quando o global está caro, o local é a solução. E a mesma lógica que vale para o chocolate, para o vinho, para tantos outros mercados. Neste momento, geopolítica e macroeconomia empurram o mercado na direção de fortalecer o que é nosso. Isso não diminui o mérito dos editores que estão olhando para dentro com atenção e enxergando uma cena viva, pulsante, gente publicando com qualidade e com projeto. Mas talvez a valorização da literatura brasileira seja menos a causa desse momento e mais o seu resultado. E, sendo resultado, tende a durar enquanto as condições durarem, o que me parece uma boa notícia.


Bruno Crispim é escritor, professor e mestre em Escrita Criativa pela PUC-RS. Niteroiense, é autor de Kaito: reze por uma boa morte (Alta Novel, 2025), eleito Livro do Ano pelo Prêmio Book Brasil; de Ascensão (Urutau, 2024), indicado ao Prêmio Jabuti 2025; e do romance policial O segundo caçador (EdUfes, 2016), vencedor do Prêmio UFES de Literatura.

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