
O editor Daniel Pinsky vive um momento curioso à frente de suas duas editoras, ambas em clima de celebração. A Labrador completa 10 anos em 2026, enquanto a Contexto, fundada por seu pai — o historiador e professor Jaime Pinsky, 86 anos —, já se prepara para chegar aos 40 em 2027. Separadas por três décadas e por modelos bastante diferentes de publicação, as duas casas também ajudam a contar as transformações pelas quais passou o mercado editorial brasileiro nesse período.
De um lado está a Contexto, criada para aproximar o conhecimento especializado do grande público e que fez da curadoria uma de suas marcas. Do outro, a Labrador, que nasceu em um mercado já possível para se publicar de forma independente e apostou em um modelo no qual o autor investe no próprio livro sem abrir mão de produção editorial e distribuição. Ao PublishNews, Pinsky fala sobre o que mudou e o que permanece no ofício de editar, por que a Labrador não é um “plano B” e os desafios de manter as duas casas com tudo em cima. Leia a entrevista:
PUBLISHNEWS — A Contexto completa 40 anos em 2027, sustentando uma missão que nasceu antes mesmo da internet: aproximar o conhecimento especializado do grande público. O que permanece igual? E o que precisou mudar para que a editora continuasse relevante?
DANIEL PINSKY — Nosso slogan, “Promovendo a circulação do saber”, reflete realmente essa missão. O que permaneceu igual, sem dúvida, é que a Contexto é uma editora de editor. Existem editoras voltadas ao marketing, outras para vendas governamentais e assim por diante.
Meu pai fundou a Contexto depois de uma brilhante carreira como professor universitário e após ter fundado a Editora da Unicamp e coordenado coleções em editoras como Global e Atual. Ele conhecia os muros universitários, sabia da importância e conhecia bem o mercado editorial. Usou esses conhecimentos únicos e fundou a Contexto. Então, a curadoria, o olhar afiado, a erudição para escolher livros bons comercialmente e importantes para o país continuam os mesmos.
A divulgação mudou muito com o advento das redes sociais, e-mail marketing e comunicação instantânea via WhatsApp, com vantagens e desvantagens. Para detalhar essas mudanças, precisaria de muito mais espaço aqui. Na distribuição, com a chegada da internet e das livrarias virtuais, o livro passou a chegar com mais facilidade a rincões do Brasil. O efeito colateral foi a diminuição do número de livrarias físicas, que felizmente está voltando a crescer.
PN — Já a Labrador completa dez anos justamente num momento em que cada vez mais pessoas desejam publicar um livro. O que mudou no perfil desses autores desde 2016, Pinsky? E como a autopublicação deixou de ser vista como um “plano B” para se tornar uma escolha consciente de muitos escritores?
PINSKY — Não mudou. Não acho que mais pessoas desejam publicar um livro, acredito que o mercado passou a oferecer muito mais opções para se publicar um livro. Plataformas para autopublicação pura proliferaram, dando alternativa para quem quer algo mais simples e colocar o livro no mundo. A Labrador também quebrou alguns paradigmas com um processo de produção tão bom quanto o das melhores editoras e uma distribuição caprichada.
O perfil de nossos autores é amplo: de crianças com livros infantis a nonagenários publicando biografias, de executivos e empresários sistematizando seus conhecimentos, publicando o melhor cartão de visitas que se pode ter, a pessoas de todas as idades e gêneros publicando ficção. Ou poesia. Ou seja, não existe um recorte de idade, classe social ou gênero.
Quem queria publicar na Labrador e quem quer publicar na Labrador têm em comum o interesse em uma produção de qualidade, boa distribuição e um atendimento humano. Os autores, para nós, são artistas e seus originais são suas mais bonitas manifestações. Eles têm que ser tratados como únicos e com respeito e admiração.
Interesse em ter parte do controle no processo de produção, com a escolha da capa em parceria com a editora, por exemplo, demora e dificuldade de comunicação com as editoras comerciais, maiores direitos autorais e custo menor quando o autor quer ficar com boa parte dos exemplares da tiragem são alguns dos motivos que fazem com que a Labrador não seja “plano B”. Nosso selo já é um atestado do cuidado e investimento que o autor fez em uma produção de qualidade.
PN — Você cresceu dentro de uma casa editorial fundada pelo seu pai, Jaime Pinsky, e acabou criando uma empresa voltada para um modelo completamente diferente de publicação. O que herdou dessa tradição editorial? E quais mudanças enxerga como indispensáveis para que essas duas editoras continuem com tudo em cima nos próximos anos?
PINSKY — A qualidade de produção e o profundo respeito ao autor são as principais heranças.
Sobre os desafios, são muitos, mas diferentes. Destaco o principal de cada uma delas. A Contexto tem o desafio de se manter relevante com livros como fonte de informação mais profunda e qualificada, entendendo as mudanças no uso do tempo do seu público, quer seja de interesse geral, quer seja universitário.
Na Labrador, o maior desafio é manter a alta qualidade em todos os níveis com um crescimento acelerado. Como nosso objetivo não é ser a maior, e sim sermos a melhor, essa preocupação permeia sempre nosso trabalho.






