
O autor brasileiro Pedro Rhuas publicará, em parceria com o escritor, roteirista e produtor iraniano Abdi Nazemian, o romance SwapLife. A trama é uma comédia romântica do gênero young adult ambientada no Brasil e nos Estados Unidos e acompanha dois garotos que se conhecem por meio do SwapLife, aplicativo de troca de vidas que dá nome ao livro. Enquanto mergulham em suas vidas temporárias entre Los Angeles e Rio de Janeiro, os jovens Pasha e Natan se apaixonam. SwapLife será publicado nos EUA pelo selo Balzer + Bray, da Macmillan Children's Books, na primavera de 2027. Esta será a primeira obra do brasileiro publicada no mercado estadunidense. No Brasil, a Seguinte, atual casa editorial de Rhuas no Brasil, detém os direitos de publicação.
Rhuas iniciou a carreira de forma independente na Amazon com o lançamento de Enquanto eu não te encontro, durante a pandemia, em 2020. O livro foi o vencedor do concurso literário Clipop, organizado pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras. O título chegou às livrarias em 2021. Dois anos depois, publicou O mar me levou a você, lançado em 2023, foi a obra mais vendida do grupo Companhia das Letras na Bienal do Rio daquele ano.
O livro explora a ideia de trocar de vida com alguém, funciona como metáfora para a própria literatura e é capaz de colocar o leitor no lugar de outra pessoa e fazê-lo enxergar o mundo por outra perspectiva. "Assim como eu, um mochileiro que percorreu trinta nações e passou temporadas em lugares como Marrocos, Portugal, Espanha, República Dominicana, Peru... A ideia de um aplicativo que usa o conceito de "trocas de vidas" para revolucionar a maneira como as pessoas viajam é uma forma muito divertida de exercitar a alteridade na literatura Young Adult", comenta o autor, ao PublishNews.
Pedro também é um dos nomes confirmados para a Bienal do Livro de São Paulo 2026. Além de sessões de autógrafo e encontro com fãs, o autor participa da programação oficial do evento.
Confira a entrevista completa com Pedro Rhuas:
PUBLISHNEWS — Você gosta de escrever livros a quatro mãos?
PEDRO RHUAS — Cresci em meio às artes de rua. Espaços em que o fazer artístico nunca foi isolado, mas prática coletiva, de roda, ciranda, de mão com mão. Meus pais, artistas, respiravam a colaboração. Parte de mim ansiava por isso quando a literatura se tornou minha estrada de vida. Eu queria vivenciar algo para além da solidão aparentemente inescapável do escritor. SwapLife, meu romance coescrito com Abdi Nazemian, foi minha primeira obra a quatro mãos, seguida de Se não for como nos livros, parceria com Nino Cavalcante lançada em 2026. Dividir um universo de escrita, uma história compartilhada, proporcionou algumas das minhas melhores experiências como autor. É um processo desafiador e muito recompensador quando bem acompanhado.
PN — Poderia falar sobre como foi o processo de escrita de SwapLife com Abdi?
PEDRO — Abdi e eu começamos a escrever nossa comédia romântica global em 2024, logo após um encontro na Bienal do Livro Bahia. Uma vez definidos os personagens, temas e tramas, iniciamos a primeira versão de SwapLife (ainda sem esse título na época). Durante cinco meses, exploramos os mundos de Natan e Pasha até chegarmos a um manuscrito parcial que nos deixou confiantes para dar o próximo passo: encontrar uma editora nos Estados Unidos com o apoio dos nossos agentes, Alfredo Félix, da Felix.Ag, e John Cusick, da Folio Literary Management.
Encontrar o editor certo era essencial. E, após um leilão no país, essa figura veio na forma da competente Alessandra Balzer, editora da Balzer + Bray, selo da Macmillan. Alessandra abraçou SwapLife com muita empolgação e uma visão extraordinária para o projeto. O match perfeito, como brincamos, nos deu o norte necessário. Daquela versão inicial muito se transformou. Ao retomar a escrita com os incríveis apontamentos de Alessandra em 2025, preparamos um outline robusto. Com o outline aprovado, Abdi e eu nos dividimos em turnos no que chamávamos de "documento principal". Depois que um escrevia, o outro editava, e assim seguimos, entre idas e vindas no processo de criação, constantes ligações e debates, até enfim finalizarmos o livro no segundo semestre de 2026.
PN — O que mais te anima no enredo de SwapLife?
PEDRO — SwapLife é um livro escrito em tempos de guerras e conflitos mundiais, no qual o "outro", o "estrangeiro", é comumente retratado com hostilidade. Quando Abdi e eu começamos a escrever nosso romance a quatro mãos, sabíamos que seria uma jornada de trocas culturais. Abdi, imigrante iraniano nos Estados Unidos, viveu em vários países e tem curiosidade aguçada pelo mundo. Assim como eu, um mochileiro que percorreu trinta nações e passou temporadas em lugares como Marrocos, Portugal, Espanha, República Dominicana, Peru... A ideia de um aplicativo que usa o conceito de "trocas de vidas" para revolucionar a maneira como as pessoas viajam é uma forma muito divertida de exercitar a alteridade na literatura Young Adult. Nesse caso, de modo quase literal. A premissa é simples: se apaixonar por alguém enquanto se conhece a vida dessa pessoa por dentro. A partir daí, as possibilidades são infinitas, e escolher a perspectiva de Natan e Pasha para contar essa história é o que mais me anima. O divertido e inesperado romance entre eles é uma subversão ao próprio contexto histórico em que vivemos, especialmente nos Estados Unidos, onde livros como o nosso têm sido banidos por grupos conservadores. Algo que, infelizmente, Abdi vivencia na pele com a censura à sua obra “Tipo uma história de amor”.
PN — Pelo (ótimo) título, dá para imaginar que a história dialogará com a cultura de aplicativos, bastante presente no meio da cultura LGBTQIAPN+. Poderia comentar mais sobre isso e de que maneira essa forma de se relacionar está presente no livro?
PEDRO — Costumo descrever o aplicativo SwapLife como uma mistura de Tinder, Couchsurfing e Airbnb. Não é um aplicativo de relacionamentos amorosos, mas uma nova forma de viajar em que os "swappers", como chamamos esses viajantes, trocam de vida simultaneamente por um período acordado. Nesse universo, o foco é a imersão em outra realidade, não o romance entre swappers. Por isso é tão interessante quando Natan e Pasha se apaixonam. Afinal, esse não era o combinado! Diferentemente de outros aplicativos de relacionamento, onde o casual e o espontâneo tendem a reinar, no SwapLife os matches são mais comedidos, já que envolvem logística de viagens e dar a chave da nossa vida para alguém, literalmente. Com quem você faria algo tão íntimo assim?
PN — Na sua visão, qual é a diferença entre publicar de forma independente e publicar por uma editora?
PEDRO — Vejo muitas diferenças entre publicar de forma independente e publicar com uma editora. Para mim, essa distinção fica mais clara no controle do processo editorial. Com a publicação independente, o autor tem autonomia — desde que disponha dos recursos materiais — para tomar suas próprias decisões criativas. Isso inclui escolher a capa, diagramar, revisar, editar, criar estratégias de marketing... Para alguém que, como eu, gosta de participar ativamente de cada etapa, trabalhar com uma editora significa entender que o livro não é só meu, mas também reflete a condução da editora; visões e ideias precisam ser debatidas, escolhas demandam consensos, "nãos" serão ouvidos... Adoro o trabalho com editoras tradicionais, mas há livros para os quais não quero seguir esse modelo. Foi então que criei o projeto "Histórias do Rhuasverso", no qual expando o universo dos meus livros com obras independentes lançadas online. Uma tentativa de conciliar o melhor dos dois mundos e de ter mais liberdade artística.
PN — Enxerga uma mudança em você enquanto autor, em comparação com o início da sua carreira?
PEDRO — Publiquei Enquanto eu não te encontro, meu primeiro romance, aos vinte e quatro anos. Um livro que havia começado a escrever aos dezenove! Nunca tinha feito um curso de escrita criativa. Meu processo era inteiramente intuitivo, osmose das muitas histórias que li. Essa intuição me levou longe, a um best-seller que, precisamente por sua ingenuidade, se conectou com tantos jovens leitores. A principal mudança é a maturidade na própria confecção das narrativas, o olhar afiado para compreender minhas histórias como um todo. A organização do processo de escrita, como a criação de escaletas, foi um grande diferencial. Sinto que estou cada vez mais apaixonado pela arte de contar histórias. Ainda é um grande mistério, mas menos intangível do que antes.






