O que estou lendo: Rafael Sertã Farah
PublishNews, Monica Ramalho, 12/08/2026
Funcionário da Janela Livraria, o livreiro carioca que estuda Letras na UFRJ indica uma obra israelense pela qual está encantado e que o instiga a recorrer a outras leituras

"Tem um livro que estou lendo tem mais de um ano, e nunca dá sinais de se tornar chato ou desinteressante, que é História potencial: desaprender o imperialismo (Ubu Editora, 2024), da Ariella Aïsha Azoulay.

Ariella é uma professora, curadora e pesquisadora israelense e moradora dos EUA, com uma cabeça muito além de qualquer caixinha limitante. Sua pesquisa surge de uma descoberta de família: como muitas filhas de imigrantes israelenses, a autora descobre que seu pai judeu-argelino ocultou os traços árabes de sua ascendência. Esse fato mnemônico serve de base para Ariella (que incorporou o nome da avó argelina, Aïsha, ao seu próprio) repensar a função dos acervos, museus e das próprias instituições democráticas enquanto garantidoras de direitos e da memória coletiva enquanto bem comum.

A bem da verdade, não costumo ler muito rápido e, para mim, já é um luxo estar no meio dessa leitura, que carrega suas referências como uma grande matriosca. É o tipo de livro em que você para e vai buscar as outras leituras que compõem o discurso do livro, desde Walter Benjamin a Derrida e John Berger. E depois, quando retomo a leitura, já estou recarregado com outros espelhos para poder ir refletindo o texto.

A construção no livro que mais me tirou do lugar talvez seja a ideia de que os objetos carregam direitos inscritos neles. Cada objeto produzido em uma cultura é intimamente ligado aos ideais de um determinado espaço. Isso se torna mais claro quando pensamos nos muitos objetos desapropriados de culturas subsaarianas pela colonização europeia e, mais perto ainda, do caso que se tornou famoso do retorno do manto tupinambá, vindo da Dinamarca (onde estava há mais de 300 anos) para o seu povo.

A ideia que temos do museu enquanto instituição que preserva os bens comuns de um povo precisa ser repensada a partir da maneira como esses objetos estão dispostos. Muitas vezes extraditadas de seus povos e lugares de origem, essas peças carregam consigo os direitos dos povos roubados. Esta construção toda me fez girar 180 graus no meu próprio eixo.

De certa forma, esse livro tem um efeito tranquilizante em mim, pois me demonstra que existem pessoas pouco convencionais como eu, pensando em como reverter o relógio do apocalipse. O livro como um todo conversa com um interesse crescente e tentacular meu de compreender a falta de linearidade que o tempo tem e como estamos errando a abordagem em relação aos problemas mundiais.

Redirecionar o olhar para as estruturas que condicionam as nossas respostas a questões como a desesperança coletiva em um futuro sustentável, a aparente impossibilidade de pensar modelos de sociedade que conquistem corações e mentes; este livro sugere uma nova forma de pensar as fórmulas podres de pensar nossa história presente.

Então é mais que urgente a leitura de um livro tão cheio de caminhos como esse, que está nas trincheiras por uma nova subjetividade. Repito que me tranquiliza e, ao mesmo tempo, reacende o tesão pela indignação coletiva, que é algo que busco em quase tudo".


Rafael Sertã Farah nasceu no Rio de Janeiro, em 2001. Cursa Letras na UFRJ, trabalha como livreiro na Janela Livraria, onde também faz a mediação e coordena o Clube de Leitura do Livreiro. É autor da plaquete Crianças maduras (Janela + Mapa Lab) e coorganizador da coletânea de contos De carne e osso (Ímã Editorial).

[12/08/2026 10:01:28]