Três perguntas do PN para Rodrigo Batista
PublishNews, Monica Ramalho, 31/07/2026
'Eu não sou eu' será lançado de forma independente, em edição limitada, com impressão sob demanda e pré-venda até 10 de agosto, diretamente com o autor

Depois de receber negativas de editoras, Rodrigo Batista decidiu publicar Eu não sou eu de forma independente, em edição limitada, com impressão sob demanda e pré-venda até 10 de agosto, diretamente com o autor. Nesta edição do Três perguntas do PN, o escritor e livreiro cearense fala sobre essa escolha e reflete sobre a autoficção, além de explicar por que acredita que o novo romance representa, ao mesmo tempo, uma continuidade e uma virada em sua carreira. Atualmente, ele estuda cinema na PUC-Rio.

Dividido em duas novelas, Eu não sou eu acompanha um narrador obcecado por uma amizade da adolescência e embaralha memória, realidade e invenção para investigar a construção da identidade. Ambientada entre Fortaleza e Rio de Janeiro — na primeira ele nasceu, na segunda ele mora há quase uma década —, a narrativa desenvolve temas que também aparecem em Não há nada (Janela + Mapa Lab, 2022), o seu livro de estreia, e leva adiante a experimentação.

"Esse novo livro é uma continuação do Não há nada, não só pelas temáticas, que são trabalhadas com mais maturidade, mas também por fazer parte do projeto estético que venho construindo", adianta ao PN. Para Rodrigo, a principal mudança está na linguagem. "Enquanto no anterior o foco era nas tramas, no Eu não sou eu decidi brincar com a forma e, principalmente, com a autoficção". Interessou pelo livro? Fale com o Rodrigo por meio do site do livro e leia a entrevista completa:

PUBLISHNEWS — Quem leu Não há nada vai reconhecer em Eu não sou eu temas como memória, autoficção, afetos e construção da identidade. Você enxerga este romance como uma continuidade daquela pesquisa literária ou acredita que ele marca uma nova página na sua escrita?

RODRIGO BATISTA — Acredito que esse novo livro é uma continuação do Não há nada, não só pelas temáticas, que são trabalhadas com mais maturidade, mas também por fazer parte do projeto estético que venho construindo desde então, em que o descontentamento com o mundo é refletido na alienação pelo sexo.

Apesar disso, encaro ele como uma virada de chave porque decidi ir mais fundo no uso da linguagem. Enquanto no anterior o foco era nas tramas, no Eu não sou eu decidi brincar com a forma e, principalmente, com a autoficção. Eu e o personagem temos o mesmo nome, vivemos nas mesmas cidades, mas é possível existir alguém exatamente igual a você?

O que mais me interessa é o fato de que, a partir do momento em que decidimos narrar algo, realidade e sonho se misturam. Vejo a memória como uma série de fragmentos que passam por filtros na mente e, dependendo do estado psíquico, esses retalhos podem ser bastante enganosos.

PN — No novo livro, o leitor nunca tem certeza de onde termina a memória e onde começa a invenção. Quando você percebeu que essa instabilidade era justamente a melhor forma de falar sobre identidade?

RODRIGO — Uma das coisas que mais me fez pensar nos últimos tempos é a persona que escolhemos mostrar aos outros. Durante o processo de escrita do Eu não sou eu, entrei num labirinto no Instagram. Passava horas rolando perfis de homens gays da minha idade que tinham vidas completamente diferentes da minha para imaginar suas vidas a partir das fotos e comecei a refletir sobre o que me estava sendo mostrado porque, obviamente, existe uma diferença entre a realidade e o que é postado.

Entre o espaço virtual e real, surge um espaço límbico perfeito para a fabulação, o que me levou a pensar sobre a identidade que criamos do outro e de nós mesmos. Tento ao longo do livro investigar como, atualmente, vivemos várias realidades paralelas criadas a partir do que mostramos para os outros e de quem, de fato, somos.

PN — Depois de receber negativas de editoras, você decidiu publicar Eu não sou eu de forma independente e em edição limitada. Como livreiro e alguém que conhece de perto o mercado editorial, o que essa escolha revela sobre o momento que a literatura brasileira vive hoje?

RODRIGO — Nos últimos anos, a literatura brasileira vem passando por um momento muito especial e bonito. As editoras passaram a investir mais e os leitores abraçaram de vez os livros nacionais.

Em contrapartida, por conhecer como o mercado funciona, optei pela autopublicação não só pelas recusas, mas também por ter uma consciência acerca do meu texto. Não quero me pintar de autor marginal ou revolucionário, longe disso, mas sei que o Eu não sou eu não é um livro com um apelo gigante de venda e alguma editora publicá-lo seria uma aposta arriscada, levando em conta que não tenho um nome consolidado.

Além disso, o processo de publicação, na maioria das vezes, segue a seguinte lógica: Um editor lê o que você publicou e te procura, perguntando se tem algo novo. Se você manda para o editor sem ser solicitado, o manuscrito vai para a pilha de originais e o livro pode ficar lá por anos, isso se você der a sorte de ser lido.

Decidi autopublicar também porque isso me ajudaria a dar seguimento ao meu projeto criativo. Quando terminei Eu não sou eu, senti que precisava finalizar esse ciclo para conseguir embarcar em outro. Ter o livro físico me ajudaria a encarar tudo isso como encerrado. Se fosse esperar por respostas que talvez pudessem não vir, ia ficar travado, sem conseguir produzir. É preciso ter coragem e assumir o risco.

[31/07/2026 09:44:04]