"Sou muito mais lida no Brasil do que no meu país", diz Djaimilia Pereira de Almeida
PublishNews, Beatriz Sardinha, 30/07/2026
Na Flip, Djaimilia Pereira de Almeida recebeu o PublishNews para falar sobre a percepção do Outro nos livros, intercâmbio na literatura lusófona e cânones literários

Djaimilia fez parte da programação oficial e paralela na Festa Literária Internacional de Paraty | © Divulgação
Djaimilia fez parte da programação oficial e paralela na Festa Literária Internacional de Paraty | © Divulgação

Em sua segunda participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida recebeu o PublishNews para uma conversa na Pousada do Ouro, durante a programação do festival. Na noite de quinta-feira (24), ela participou da mesa Falo do que impede o sono, ao lado do escritor argelino Kamel Daoud, e também integrou a programação de casas parceiras. Leitora de obras que a desconcertam, Djaimilia defende a literatura como espaço de encontro com o diferente e aponta a falta de reciprocidade entre os mercados editoriais de língua portuguesa: enquanto o Brasil acolhe escritores estrangeiros, autores brasileiros e africanos ainda encontram dificuldades para circular em Portugal. No Brasil, sua obra é publicada pela Todavia.

Nascida em Luanda, ela cresceu em Lisboa, onde vive até hoje. Ao longo da conversa, Djaimilia descreve sua rotina de escrita na cidade como solitária e silenciosa, mantendo pouca interação via redes sociais e preferindo o contato direto com seus leitores durante suas viagens. Para ela, a escrita em Portugal às vezes parece um exercício para si mesma, enquanto no Brasil — país em que ela relata vender muito mais livros do que na Europa — percebe a existência real de quem está do "outro lado".

Obras de Djaimilia publicadas no Brasil | © Divulgação
Obras de Djaimilia publicadas no Brasil | © Divulgação

Um de seus romances, A visão das plantas, foi escolhido para integrar três listas de vestibulares no Brasil, incluindo a lista de autoras mulheres da Fuvest até 2029. No que diz respeito à construção e à discussão de cânones literários, Djaimilia demonstra uma postura de humildade, e se afasta de comparações com grandes figuras como Machado de Assis (1839-1908) ou Clarice Lispector (1920-1977), e não imagina que sua obra pertença ao mesmo cânone que esses grandes mestres.

No entanto, ela classifica como um "avanço civilizacional" a inclusão de autores contemporâneos e jovens como ela, em listas de vestibulares brasileiros de prestígio, algo que considera hoje impensável no sistema de ensino português. Leia a entrevista:

PUBLISHNEWS — Como você se sente aqui no Brasil? O que espera quando vem para cá?

DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA — Adoro vir para cá. Adoro a cultura brasileira. E a maioria dos meus leitores está no Brasil. Sou muito mais lida no Brasil do que no meu país, por isso chegar aqui é ir ao encontro dos meus leitores. Em Portugal, às vezes, eu tenho um bocadinho a sensação de que estou a escrever para mim. E, de repente, chego aqui e percebo que há pessoas que estão a ler, há muitas pessoas do outro lado. Então, há uma sensação confortante e sinto-me muito grata. Ao mesmo tempo, é assustador, porque o contraste é imenso. Os leitores brasileiros são também particularmente calorosos e generosos, de uma forma muito diferente do que estou habituada.

PN — Como é o contato com seus leitores fora de Portugal? Você se conecta a eles pela internet ou gosta de viajar justamente por causa disso?

DJAIMILIA — O contato é quando viajo, sobretudo porque tenho uma existência como escritora totalmente pacífica, muito solitária. Passo dias a escrever sozinha, sem ruídos. Raramente estou nas redes sociais, entro e saio. Não tenho muito contato com leitores através desta via. Posso estar muitos meses sem ter noção sequer de que tenho leitores. Em Portugal as coisas são vividas de uma forma um pouco mais apagada. Os leitores estão espalhados, e é quando vou a esses lugares que os encontro.

Gosto muito de conversar, fico muito contente e gosto de ouvir as pessoas. E depois as pessoas dão-me tanto sentimentos. Agora escrevi este livro do meu pai, que é um livro de luto. E aqui na Flip, por exemplo, uma grande quantidade de leitoras que vieram me contar: 'Perdi o meu pai há um mês, perdi o meu pai há seis meses, perdi o meu pai há um ano', e choravam, emocionadas, e me disseram que o livro lhes dava força. Portanto, são coisas preciosas, não é?

PN — Vejo que as pessoas têm lido cada vez mais livros que acham que foram feitos para elas, por conta de algoritmos e recomendações específicas. Isso entra num debate literário interessante: O de lembrar que os livros não são feitos sob medida. Como você enxerga essa relação entre leitores e protagonistas ou personagens que não vão de encontro direto com eles?

DJAIMILIA — Como leitora, penso que os livros que me instigam e me fascinam são precisamente os livros em que sinto que não tenho nada a ver. Esses são os livros que eu estranho mais e aqueles que me cativam mais porque, na literatura, estou à procura de ser desconcertada. E gosto de escrever livros que desconcertem as pessoas. Compreendo perfeitamente este sentimento de identificação que tem muito a ver com a cultura em que vivemos, em que as pessoas estão à procura de si mesmas nos objetos que consomem. Mas acho bonito na forma como a literatura cria intimidade entre estranhos. Muitas vezes escrevo, por exemplo, sobre populações imigrantes, que são pessoas vistas em Portugal como estando à margem. A minha expectativa é que, ao lerem os meus livros, as pessoas considerem a possibilidade de se tornarem próximas daqueles que lhes são estranhos, daqueles que os repelem de alguma forma por serem diferentes. Sou uma pessoa que tem um interesse especial por tudo o que é diferente de mim. Na minha visão, a literatura é um instrumento que nos faz olhar para aqueles com os quais não temos nada a ver. No entanto, compreendo que por vezes os livros parecem ter aparecido na nossa vida no momento certo. E, às vezes, temos a sensação de que estamos a ler o livro justamente para nós naquele momento. Portanto, as duas coisas convivem.

Djaimilia durante sessão de autógrafos na Flip | © agenciasairas
Djaimilia durante sessão de autógrafos na Flip | © agenciasairas

PN — O seu livro, A visão das plantas, está na lista de leituras obrigatórias de vestibulares disputados no Brasil. No último vestibular da Fuvest, usaram um trecho do livro para fazer uma pergunta de biologia, sobre a respiração das minhocas e dos besouros ("A rega o zelo geraram uma infinidade de seres que descobria nos dedos ao mexer na terra. Minhocas, besouros verdes e bichos de conta").

DJAIMILIA — Eu não sabia isso. Isso é lindo! Gostaria de ter acesso a essas perguntas para ficar de recordação. Ontem encontrei muitos leitores nos autógrafos cujas mães diziam que eles tinham feito o vestibular. Esta presença de A visão das plantas me honra absolutamente.

PN — De que forma você observa a literatura enquanto oportunidade de conhecer novos mundos e ampliar conhecimentos, como é o caso dessa questão?

DJAIMILIA — Isso para mim é absolutamente extraordinário. Cresci em Portugal, onde não temos vestibulares divididos por universidades, mas um único exame nacional. Os autores estudados lá são figuras como José Saramago e Fernando Pessoa, aos quais eu não me comparo de maneira nenhuma [ri]. Acho de um arrojo total a inclusão de um livro de uma jovem escritora como eu. Sinto-me humbled — em português não há bem a palavra que eu queria usar, mas sinto-me agradecida. E a permissão aqui no Brasil, ao contrário do que se passa em Portugal e em muitos países europeus, o contato com um sortido de obras muito diferente para os jovens é um avanço civilizacional. Encontro no Brasil uma abertura a escritores não brasileiros que não é recíproca; seria impensável em Portugal. Machado de Assis não faz parte do ensino lá, e eu considero que a literatura brasileira contemporânea é muito mais forte que a portuguesa contemporânea.

PN — Como você enxerga desarticulação entre as literaturas lusófonas? Existe uma barreira geográfica, mas acha que essa distância se estende para os mercados editoriais, que não integram países como Brasil, Portugal, Angola e Moçambique?

DJAIMILIA — Sim, acho que há uma enorme distância. A maioria dos grandes autores brasileiros para mim não estão em Portugal ou estão pontualmente. Não há editores portugueses que acreditem ou façam com eles a divulgação que a Todavia faz comigo no Brasil. E existe a questão dos países na África. Conversava com a Ana Paula Tavares — uma grande escritora angolana, vencedora do Prêmio Camões — e ela dizia que tínhamos de fazer algo para os livros chegarem à nossa terra, porque eles não estão lá. Não há uma rede de bibliotecas públicas, são países com infraestruturas escolares complicadas. Haver livros representaria um avanço extraordinário que não existe. Não sei até que ponto existe vontade política para que essa circulação se dê através de uma coligação de esforços. No entanto, noto sinais de esperança: Há cada vez mais circulação direta entre a África e o Brasil que não passa por Portugal, e eu acho isso fantástico.

PN — Na sua mesa, integrante do programa principal da Flip, você disse que considera seus livros "um conjunto de costuras". O que faz um livro ter uma boa costura? O que costura uma obra?

DJAIMILIA — Cada escritor tem uma resposta diferente e cada livro se costura de uma forma diferente. No meu caso, sinto-me uma colagista. Muitas vezes sinto-me mais uma colagista do que uma escritora, porque os meus livros são feitos a partir de partes desunificadas que eu crio para voltar a unificá-las. É como construir um quebra-cabeças. E é muito divertido mesmo. Quando os livros são dolorosos, como o livro do meu pai, eu tenho um gozo extraordinário neste processo porque é como um jogo, é como brincar. Geralmente não escrevo os livros de uma ponta à outra. O único livro meu que foi escrito da primeira à última linha e de seguida foi Esse cabelo. A partir daí os livros são todos cozidos. Sinto-me uma costureira. Estou a fazer roupa. Então, pego a manga, junto a manga com o colarinho, junto o colarinho com o cós e vou cozendo. É assim que eu faço.

PN — Clarice Lispector terminava suas entrevistas perguntando: Qual é a coisa mais importante para você na vida?

DJAIMILIA — Coisa mais importante da minha vida é o meu amor. É uma pessoa que eu amo, a qual todos os meus livros são dedicados. Eu escrevo para essa pessoa, o Humberto Brito, meu marido. Eu não escreveria se não fosse essa pessoa. Toda a minha vida.

[30/07/2026 10:00:00]