
O debate em torno do tema está longe de ser uma unanimidade, e levanta questionamentos importantes sobre a relevância social, cultural e mercadológica das listas de leitura, bem como sobre a formação do cânone literário brasileiro – além de proporcionar um impacto localizado para editoras que publicam as obras. No final de março (25), o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), organizado pela Comvest, também anunciou mudanças significativas nos títulos exigidos no decorrer dos próximos anos.
Uma das principais críticas realizadas à nova lista do vestibular paulistano é a ausência de autores de presença constante em relações do tipo, como Machado de Assis e Graciliano Ramos, por exemplo. Ainda em 2023, quando a Fuvest publicou em seu portal oficial as mudanças que estavam por vir, uma carta aberta assinada por 125 professores e críticos literários — muitos deles docentes da própria Universidade de São Paulo — teceu críticas à forma como a mudança na lista do vestibular foi conduzida.
O documento não discorda sobre a inserção de autoras, mas sim questiona os critérios de seleção para as obras que passaram a compor a nova lista. "O critério de seleção de um único perfil de autoria tampouco guarda coerência com a inclusão, dada a exclusão de escritores negros, a representação LGBTQIAPN+ e a dos povos indígenas. Em outro traço, a produção letrada do Brasil colônia desapareceu do rol de obras, num provável descarte do que se acredita 'antigo'."
A carta reforça que existe uma contradição na proposta, uma vez que, de um total de nove autoras, apenas três são negras (uma brasileira, uma angolana e uma moçambicana) e seis, brancas (sendo uma delas portuguesa). Para Sinei Sales, professor de cursinhos preparatórios para vestibular e doutor em letras pela USP, o grande tema da nova lista da Fuvest é o feminino. Um dos claros objetivos da nova lista é justamente questionar a ideia de que existe apenas um único cânone da nossa literatura, destacar novas obras, e que não diminuem a qualidade do debate literário, de acordo com o professor. "É uma espécie de metalinguagem, não são só mulheres que escrevem, mas que questionam o lugar da mulher na sociedade. Esse é o viés que acaba bonificando a escolha dessas obras", comenta.

O crítico literário e professor de teoria literária na Unicamp, Paulo Franchetti, discorda e acredita que as listas passam por um momento de crise de identidade. "Por acaso, incluíram um livro muito bom, que é o de Júlia Lopes de Almeida [Memórias de Martha]. Essa escritora e esse livro mereciam estar na lista do vestibular pela importância da obra da autora. Incluí-lo apenas porque se pretendia uma lista feminina, junto com obras que não têm qualidade, não o valoriza, antes o desmerece – como se fosse incluído não por ser muito bom, mas apenas por ser de autoria feminina". Escrevendo no contexto naturalista, Almeida foi a única mulher entre os idealizadores da Academia Brasileira de Letras.

Em nota, a editora Todavia comentou sobre a inserção de A visão das plantas (Todavia), de Djaimilia Pereira de Almeida: “A matéria do livro estabelece um diálogo com a nossa História, como a brutalidade do processo escravocrata, a colonização, o passado que nos assombra. Diante disso, a inclusão do livro na Fuvest tem tudo para trazer ainda mais atenção a uma autora decisiva”.
Gêneros e formatos variados
No final de 2024, a editora Carambaia firmou uma parceira com a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, localizada na cidade universitária. Três dos títulos da nova lista fazem parte do acervo da Biblioteca BBM/USP, órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, que preserva um acervo único sobre a história e a literatura brasileira: Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta; Nebulosas, de Narcisa Amália; e Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida. A parceria vai colocar no mercado novas edições dos livros, com material de apoio produzido por professores e pesquisadores ligados à Universidade.
De acordo com Sinei, livros como Opúsculo humanitário, de Nísia Floresta, que pode ser acessado gratuitamente através da biblioteca digital da BBM, é um dos livros que "destoam" daquilo a que o aluno está mais habituado. Opúsculo apresenta 62 ensaios que refletem sobre a questão da educação das mulheres. Na opinião do professor de cursinho, pode ser benéfico para alunos entrar em contato com o gênero de ensaios antes de ingressarem nas universidades.

Mesmo que a intenção da Universidade enquanto instituição seja fazer com que os leitores-candidatos se preocupem com as questões e problemáticas levantadas pelas obras, a retirada da lista de escritores como Machado de Assis, por exemplo, pode não ser o melhor caminho para realizar esse questionamento, de acordo com a carta divulgada pelos professores.
"A gravidade da retirada de Machado de Assis da lista de livros da FUVEST fala por si. No contexto da medicina higienista que disseminava o 'instinto' de maternidade e domesticava as ações femininas com função de garantir o bem-estar da família burguesa, Machado de Assis submete à irrisão esse 'instinto', inventando a mulher como subjetividade marcada por desejo e sexualidade não monogâmica. Com Capitu, Machado de Assis formaliza a invisibilidade da mulher que se quis senhora de seu destino. A galeria de personagens femininas machadianas faz pensar", afirma o documento dos especialistas.
Direitos autorais e aumento de vendas
O professor de cursinho afirma que os alunos não precisam se desesperar com a mudança completa da lista, porque, apesar das alterações de todos os títulos da lista de leituras, a atual seleção de obras testa conjuntos de habilidades e análises a que os alunos já eram submetidos em outros âmbitos.
Para Paulo Franchetti, a inserção ou não de determinados livros na lista deve passar pela discussão de direitos autorais e como os custos dos volumes podem impactar o estudante. Ele afirma que a escolha de obra com direitos vigentes representa lucro certo para alguma empresa, embora isso possa se justificar em alguns casos pela "relevância cultural da obra". Dados disponibilizados pela BookInfo – empresa que monitora vendas em livrarias e sites no país – mostram evoluções importantes no número de exemplares vendidos de alguns dos livros que passaram a ser cobrados na lista de leituras da Fuvest.

Confira a lista dos vestibulares
Fuvest 2026
- Opúsculo Humanitário (1853), de Nísia Floresta
- Nebulosas (1872), de Narcisa Amália
- Memórias de Martha (1899), de Julia Lopes de Almeida
- Caminho de pedras (José Olympio), de Rachel de Queiroz
- O Cristo cigano, de Sophia de Mello Breyner Andresen
- As meninas (Record), de Lygia Fagundes Telles
- Balada de amor ao vento (Companhia das Letras), de Paulina Chiziane
- Canção para ninar menino grande (Pallas), de Conceição Evaristo
- A visão das plantas (Todavia), de Djaimilia Pereira de Almeida
Unicamp 2026
- Casa velha— de Machado de Assis
- Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto
- Morangos mofados (Companhia das Letras), de Caio Fernando Abreu
- Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol
- No Seu Pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie
- Canções Escolhidas, de Cartola