O que estou lendo: Pedro Azevedo
PublishNews, Monica Ramalho, 29/07/2026
'A narrativa alterna momentos de um impacto brutal com uma profundidade filosófica que me perseguiu por dias: O homem, em última análise, é uma causa', afirma o jornalista

"Se tem um livro que não consigo parar de recomendar e que não sai da minha cabeça desde que li é Retorno a Haifa (Editora Tabla, 2023), do Ghassan Kanafani, traduzido por Ahmed Zoghbi. A escolha não foi difícil; a obra do Kanafani, ativista palestino, tem uma urgência e uma profundidade que vão direto ao cerne da condição humana em meio a um conflito histórico devastador. É uma leitura avassaladora.

Embora seja um livro curto, a experiência é imensa, tanto emocional quanto reflexiva. Me pegou logo nas primeiras linhas. A narrativa alterna momentos de um impacto brutal, como na descrição da evacuação de Haifa, com uma profundidade filosófica que me perseguiu por dias.

'O homem, em última análise, é uma causa'.

O que me surpreendeu foi como o autor desconstrói a 'ideologia' do conflito para revelar a humanidade. Ele faz a gente perceber que, quando assistimos a essas guerras pela TV, corremos o risco de ver apenas 'humanos e fantasmas', quase algo abstrato, e Kanafani quebra essa barreira com força. Ele mostra que, por trás da geopolítica, existem vidas, sonhos e expectativas reais, tudo modificado à força. A forma como ele conduz a jornada dos personagens, vinte anos depois, é de um impacto assustador e, ao mesmo tempo, de uma beleza rara.

Como alguém que trabalha com literatura, sinto que esse livro dialoga diretamente com o meu olhar sobre o mundo. Ele é um lembrete visceral do poder da narrativa em dar rosto e nome ao que muitas vezes tentam reduzir a estatística ou território de disputa. Reforça minha convicção de que a literatura tem o dever de ser espelho, de mostrar que o dia a dia e os afetos são as primeiras vítimas de qualquer conflito.

Por tudo isso, recomendo Retorno a Haifa como uma das melhores leituras que fiz nos últimos anos. Ele condensa toda a tragédia da Nakba em pouquíssimas páginas, sem nunca perder o foco no que importa: o humano. É um livro que ensina, emociona e, principalmente, nos deixa com a pergunta mais essencial e perturbadora de todas: afinal, o que constitui, de fato, a pátria? É uma leitura necessária para quem quer entender o mundo muito além das manchetes".


Pedro Azevedo é jornalista, escritor e produtor de conteúdo. Formou-se em comunicação social e se especializou em literatura, tradução, inglês e marketing, contando com produções acadêmicas voltadas à literatura e mercado literário. É apaixonado por literatura contemporânea brasileira e por todo tipo de narrativas obscuras. Carioca da gema, mora no Rio de Janeiro e atua como curador da plataforma Estante Virtual. Teve contos publicados nas antologias VamQueer e LGBTerror Vol.2 (Diário Macabro), e na plaquete Fora do armário, dentro da história (Oficinar).

[29/07/2026 10:05:30]