
Publicado pela Dublinense em parceria com a Seiva, Manifesto pela leitura marca o reencontro de Irene Vallejo com os leitores brasileiros depois do sucesso mundial de O infinito em um junco (Intrínseca, 2022). No novo ensaio, a escritora espanhola amplia a defesa dos livros para todos aqueles que tornam a leitura possível: editoras, tradutores, livrarias, bibliotecas, escolas, mediadores e leitores. Em apenas 80 páginas, Irene propõe uma reflexão sobre a responsabilidade coletiva de preservar a leitura.
Manifesto pela leitura também firma a primeira parceria entre as duas editoras. Para Gustavo Faraon, editor da Dublinense, a decisão de publicar o volume foi imediata. "No mesmo instante em que descobri esse livro, já tive vontade de publicá-lo no Brasil", afirma. "Porque é um manifesto bonito, que defende o livro e a leitura ao mesmo tempo que celebra o livro e a leitura". O objetivo da editora, explica, sempre foi "levar esse manifesto para o máximo de leitores, fazer ele circular, espalhar a ideia e colocar o livro e a leitura na pauta das conversas e debates".
Para Daniel Lameira, editor da Seiva, proteger os livros hoje significa compreender as transformações do mundo sem perder de vista a importância da leitura. "Muitas pessoas confundem proteger o livro com se fechar às novas tecnologias, mas acredito que seja justamente o contrário. Fortalecer a cultura da leitura passa por aproximar a cadeia editorial do leitor e descortinar este universo".
Em entrevista ao PublishNews, Irene Vallejo reflete sobre os desafios do mercado editorial contemporâneo e explica por que decidiu escrever um manifesto depois de O infinito em um junco. "Os elos mais frágeis são sempre os menores: as livrarias de bairro e das pequenas cidades, as bibliotecas das áreas rurais e das escolas, as editoras independentes e as pessoas ávidas por ler, mas com menos acesso ao universo cultural. Essa constelação de esforços deveria receber mais apoio".
"Os livros provaram ser grandes sobreviventes, mas precisam de defensores persistentes", pondera Irene. Ao falar sobre memória, tecnologia, imaginação e leitura, a autora reafirma os livros como uma construção coletiva e um dos principais instrumentos de resistência contra o esquecimento. A seguir, leia a entrevista:

IRENE VALLEJO — Os elos mais frágeis são sempre os menores: as livrarias de bairro e das pequenas cidades, as bibliotecas das áreas rurais e das escolas, as editoras independentes e as pessoas ávidas por ler, mas com menos acesso ao universo cultural. Essa constelação de esforços deveria receber mais apoio. É aí que está em jogo a verdadeira democratização do acesso às ideias, às histórias, à poesia e ao conhecimento.
PN — Depois do sucesso mundial de O infinito em um junco, o caminho mais esperado seria escrever outro ensaio histórico. Em vez disso, você escreveu um manifesto. O que mudou no mundo, ou em você, para que a história dos livros desse lugar à necessidade de defendê-los?
IRENE — Os livros sempre estiveram ameaçados. A diferença é que, em cada século, enfrentam uma combinação particular de riscos: pobreza, saques, epidemias, censura, repressão, queda de impérios, guerras, reviravoltas da história, perseguições, incêndios e inundações. Sua morte foi anunciada tantas vezes que eles aprenderam a ressuscitar melhor do que ninguém.
Os livros provaram ser grandes sobreviventes, mas precisam de defensores persistentes. A simples indiferença destruiu uma enorme quantidade de criações valiosíssimas ao longo da história. Se, em O infinito em um junco, contei a aventura desses objetos milenares, em Manifesto pela leitura procuro explicar qual é o seu lugar nas sociedades contemporâneas.
Mesmo quando lemos e escrevemos sozinhos, insisto que essas são atividades profundamente coletivas, capazes de criar comunidades de sentido. Podemos nos reunir em torno dos livros, em clubes de leitura, oficinas ou festivais, como, em outros tempos, nos reuníamos ao redor das fogueiras. É assim que construímos imaginários compartilhados.
PN — Você escreveu que "os livros são a morada da memória". Ao mesmo tempo, vivemos cercados por tecnologias capazes de armazenar praticamente tudo. O que exatamente apenas os livros conseguem preservar?
IRENE — Desde seus primeiros balbucios, o livro desafia o poder absoluto da destruição. Mais cedo ou mais tarde, tudo seria devorado pelo esquecimento, se não construíssemos diques contra essa maré voraz. Talvez os diques mais resistentes tenham sido justamente os frágeis livros.
Sem eles, seríamos órfãos das palavras que nos definem e da imensidão do legado que recebemos. Nos livros viajaram, através do tempo e do espaço, nossas melhores ideias, as lembranças do passado e os rastros da beleza.
As novas tecnologias não resolveram com a mesma eficácia o desafio da preservação. Elas carregam dentro de si um inimigo: a obsolescência programada. Os livros, ao contrário, nasceram em uma época em que durar era importante e valorizado.
Todos sentimos saudade de coisas que perdemos, como fotografias, arquivos, antigos trabalhos ou lembranças, por causa da velocidade com que os produtos envelhecem e se tornam obsoletos. Primeiro foram as músicas em fitas cassete, depois os filmes gravados em VHS. Gastamos tempo e energia tentando preservar aquilo que a tecnologia insiste em tornar ultrapassado.
Quando surgiu o DVD, disseram que nossos problemas de arquivamento estavam resolvidos para sempre. Pouco depois, vieram novos formatos, cada vez menores, exigindo a compra de novos aparelhos. O curioso é que ainda conseguimos ler um manuscrito copiado pacientemente há mais de mil anos, mas já não conseguimos acessar arquivos criados há apenas alguns anos.
Na internet, conteúdos desaparecem constantemente sem deixar vestígios. Programas descontinuados e aparelhos reprodutores abandonados compõem um enorme museu da obsolescência. Ainda hoje, são os livros e as bibliotecas que prolongam a expectativa de vida das palavras. Continuam sendo nossa maior vitória contra a destruição.
PN — No livro, você mostra que defender os livros nunca significou apenas proteger objetos, mas preservar uma forma de imaginar o outro e de conviver. Qual é a primeira perda de uma sociedade quando ela deixa de valorizar a leitura?
IRENE — Filha destes tempos acelerados, nossa imaginação foi colonizada pela velocidade, pelo imediato e pela explosão de novidades que surgem e desaparecem umas sobre as outras. Vivemos fascinados pelas conexões instantâneas, pelos processadores cada vez mais rápidos e pela hipnose das telas. No entanto, toda essa tecnologia extraordinária foi concebida por uma máquina que trabalha devagar: o cérebro.
Obcecados pela pressa, corremos o risco de nos tornar mais crédulos, mais ávidos e mais domesticados.
Os livros podem nos ajudar a ler melhor o mundo, compreender as inquietações dos outros e descobrir o que se esconde nessa região misteriosa que é o nosso próprio coração. A leitura não é tão passiva quanto ouvir ou assistir: ela é recriação e efervescência mental. Lemos no nosso ritmo, controlamos a velocidade e dominamos o tempo. Interiorizamos aquilo que escolhemos assimilar, e não o que nos é lançado com tanto ímpeto e volume que acabamos sobrecarregados.
Nesta época acelerada, os livros surgem como aliados para recuperar o prazer da concentração, da intimidade e do pensamento próprio. Não podemos ser indiferentes se queremos um mundo diferente. É preciso enfrentar a esterilização da imaginação. Por isso, ler pode ser um ato de resistência em uma época invadida pelos relâmpagos nervosos e descontrolados da propaganda e da manipulação.
PN — Você costuma dizer que os livros sobreviveram graças a uma longa cadeia de pessoas anônimas que os protegeram ao longo dos séculos. Em que momento percebeu que também fazia parte dessa corrente?
IRENE — Na verdade, quando falamos dos livros, estamos refletindo sobre nós mesmos. Suas páginas guardam nossas ideias, o mais precioso depósito da nossa memória e dos nossos debates, incontáveis tentativas de alcançar a beleza e infinitas buscas. São também o testemunho decisivo dos nossos medos, paixões e descobertas.
Além disso, os livros contam a história da democratização do conhecimento. Vale lembrar que, durante séculos, eles foram um privilégio reservado a muito poucos. Eram um luxo, um símbolo de status, um bem restrito a uma pequena elite de privilegiados e poderosos.
Graças ao impulso multiplicador da imprensa, ao extraordinário processo de expansão da alfabetização, ao desenvolvimento da escola pública, à criação de bibliotecas municipais e rurais e à multiplicação das livrarias, conseguimos fazer com que os livros chegassem a cada vez mais mãos.
Três dos meus quatro avós foram professores em escolas rurais durante o duríssimo pós-guerra espanhol. Foi com eles que aprendi que existe uma outra história, contada em sussurros. Costumam nos ensinar a epopéia da guerra, das batalhas, das conquistas e da dominação. Mas, se quisermos explicar aquilo que realmente nos salva, a narrativa é outra: ela fala de educação e de oportunidades.
Nesse sentido, acredito que a vida dos meus avós, assim como a de tantas pessoas anônimas, tenha sido infinitamente mais essencial e transformadora do que a dos reis. Talvez seja também por isso que me emocione profundamente ver meus livros chegando ao Brasil, um país que tanto contribuiu para a educação, para o pensamento pedagógico de vanguarda e para a literatura universal.






