Roberto Aguiar: 'A Flipelô é a concretização de um sonho coletivo'
PublishNews, Monica Ramalho, 05/08/2026
Coordenador de Comunicação da Fundação Casa de Jorge Amado e da Flipelô (que começa nesta quarta, 5) explica por que considera que a maior conquista do evento está no sentimento de pertencimento que construiu junto à população baiana

Roberto Aguiar © Ricardo Prado/Fundação Casa de Jorge Amado
Roberto Aguiar © Ricardo Prado/Fundação Casa de Jorge Amado

Essa quarta-feira, 5 de agosto, é um dia especial no ano de efemérides da Fundação Casa de Jorge Amado. Quando o relógio bater 19h, será oficialmente aberta a Festa Literária Internacional do Pelourinho, a Flipelô, que celebra a sua primeira década junto com os 40 anos da Fundação, organizadora do evento que mobiliza o Centro Histórico de Salvador, na Bahia. A homenageada da edição não poderia ter sido melhor escolhida: a poeta e jornalista Myriam Fraga (1937-2016), idealizadora da Flipelô. Myrian morreu meses antes de ver o Pelourinho ocupado pelo público da festa, já esperado pelos moradores como outras festas populares.

Em entrevista ao PublishNews, o coordenador de Comunicação da Fundação e da Flipelô (é grande a responsabilidade desse rapaz!), Roberto Aguiar, fala sobre o legado de Myriam, a relação entre a festa e o projeto cultural sonhado por Jorge Amado (1912-2001) e explica por que considera que a maior conquista da Flipelô não está na programação oficial, mas no sentimento de pertencimento que o evento construiu junto à população da cidade.

"Acho que Myriam Fraga sentiria uma grande alegria, pois a Flipelô é um sonho coletivo que ganhou vida, tornou-se realidade. A festa nasceu da convicção de que o Pelourinho poderia voltar a ser ocupado pela literatura, pela arte e pelo encontro entre as pessoas. Essa era uma ideia que Myriam Fraga carregou durante muitos anos, inspirada pela homenagem a Jorge Amado na Flip de Paraty, em 2006", conta o gestor baiano. Em 2025, ele se emocionou ao ver a praça abarrotada de crianças para escutar o ator e escritor Lázaro Ramos, seu conterrâneo. Por esses breves instantes, vale a pena o trabalho de um ano. Diz que já estão agitando melhorias para a edição de 2027.

Roberto diz que "a festa em si dura alguns dias, mas a formação de leitores, o fortalecimento da identidade cultural e a ocupação afetiva de um território do Centro Histórico permanecem durante todo o ano. Esse talvez seja o legado mais importante que estamos construindo". Bonito. Descubra toda a agenda da edição 2026 no site da Flipelô. Mas, antes, leia a conversa completa:

PUBLISHNEWS — A Fundação Casa de Jorge Amado completa 40 anos e a Flipelô chega à sua 10ª edição homenageando justamente Myriam Fraga, que idealizou o festival, mas não viveu para vê-lo acontecer. O que você acha que ela sentiria ao caminhar hoje pelo Pelourinho durante a Flipelô?

ROBERTO AGUIAR — Acho que Myriam Fraga sentiria uma grande alegria, pois a Flipelô é um sonho coletivo que ganhou vida, tornou-se realidade. A festa nasceu da convicção de que o Pelourinho poderia voltar a ser ocupado pela literatura, pela arte e pelo encontro entre as pessoas. Essa era uma ideia que Myriam Fraga carregou durante muitos anos, inspirada pela homenagem a Jorge Amado na Flip de Paraty, em 2006. Hoje, ao ver milhares de pessoas caminhando pelas ladeiras, entrando em museus, igrejas, teatros e centros culturais para participar de debates, lançamentos de livros e apresentações artísticas, acredito que ela reconheceria ali a concretização de um sonho que deixou de ser apenas dela para se tornar um patrimônio do Brasil. Por isso, para nós, a homenagem na décima edição é um gesto de gratidão a quem imaginou esse futuro antes de todos nós.

Logomarca da Flipelô em frente à Fundação Casa de Jorge Amado © Divulgação
Logomarca da Flipelô em frente à Fundação Casa de Jorge Amado © Divulgação

PN — Jorge Amado queria que a Fundação fosse um espaço vivo de encontro e de intercâmbio cultural. Quatro décadas depois, em que medida a Flipelô representa a realização desse desejo?

ROBERTO — É a concretização desse desejo. Temos vários projetos, mas Flipelô é o de maior impacto e alcance, tornou-se uma das principais festas literárias do Brasil. Fazer a Fundação ser esse espaço vivo e pulsante é diário. Nos guiamos pelo desejo de Jorge Amado, que nunca pensou a Fundação como um museu silencioso ou um lugar voltado apenas para preservar documentos. Ele imaginou uma instituição viva, aberta ao diálogo, capaz de aproximar escritores, leitores, pesquisadores, artistas e a comunidade. A Flipelô amplia esse projeto para todo o Centro Histórico de Salvador. Durante cinco dias, o Pelourinho inteiro se transforma em uma grande casa da literatura, onde diferentes linguagens artísticas convivem e pessoas de todas as idades têm acesso gratuito à programação. Nós sempre olhamos para fora, buscamos sempre ultrapassar as paredes do casarão azul e ocupar a cidade, exatamente como Jorge acreditava que a cultura deveria fazer, encontrar as pessoas onde elas vivem, a Flipelô é isso.

PN — A Flipelô espalha sua programação por ruas, largos, museus, igrejas e centros culturais do Pelourinho. Por que é importante que o Centro Histórico de Salvador seja o palco do festival?

ROBERTO — Porque o Pelourinho não é apenas um cenário. Não temos dúvida de que ele é um personagem da literatura de Jorge Amado e um dos lugares mais simbólicos da cultura brasileira. Realizar a Flipelô nesse território significa reconhecer que patrimônio material e patrimônio imaterial caminham juntos. A literatura dialoga com a arquitetura, com a música, com a religiosidade, com a gastronomia, com a memória e com a vida cotidiana de quem mora e trabalha no Centro Histórico. Nós contribuímos para fortalecer a ocupação cultural do Pelourinho, movimentando equipamentos culturais, comércio, turismo e economia criativa, mas, sobretudo, reafirmando-o como um espaço de convivência, pertencimento e produção cultural.

PN — Ao longo dessa primeira década, o que fez vocês perceberem que a Flipelô deixava de ser apenas uma festa literária para se tornar um acontecimento cultural no coração de Salvador?

ROBERTO — A Flipelô ganhou essa dimensão porque desde a primeira edição ela foi abraçada pela comunidade do Centro Histórico, um amor que foi irradiando por toda cidade. Hoje, a cidade espera pela Flipelô como espera pelas suas grandes festas populares. A programação deixou de mobilizar apenas leitores e escritores. Restaurantes criaram cardápios inspirados na literatura, escolas organizaram visitas, moradores passaram a participar ativamente da construção da festa, artistas de diferentes áreas encontraram na Flipelô um espaço de expressão e instituições culturais desenvolvem projetos especialmente para esse período. A literatura é o eixo central, mas ela dialoga naturalmente com música, teatro, cinema, artes visuais, gastronomia e educação. Salvador é uma cidade musical, e ter um evento que tenha a literatura como guia central é muito vitorioso. Assim, nessa caminhada construída com muitas mãos fomos entendemos que a Flipelô havia se transformado em um acontecimento da cidade, construído coletivamente.

PN — Qual é a maior conquista da Flipelô que não aparece na programação oficial?

As conquistas nem sempre são vistas de imediato. Passamos um ano construindo a festa, e quando a vemos ocorrendo, ao vivo, enxergamos momentos grandiosos que fazem valer todo o esforço. Para mim, a maior conquista talvez seja o sentimento de pertencimento: a Flipelô pertence à cidade do Salvador, a seu povo e sua gente. Ao longo desses dez anos, vimos crianças que participaram das primeiras edições voltarem como jovens leitores; moradores do Centro Histórico se reconhecerem como protagonistas do festival; autores independentes encontrarem seus primeiros leitores e editoras baianas ampliarem sua visibilidade nacional. Nada disso cabe na programação impressa, mas é justamente o que dá sentido à Flipelô. A festa em si dura alguns dias, mas a formação de leitores, o fortalecimento da identidade cultural e a ocupação afetiva de um território do Centro Histórico permanecem durante todo o ano. Esse talvez seja o legado mais importante que estamos construindo. Sigamos assim.

[05/08/2026 09:20:21]