Três perguntas do PN para Yaguarê Yamã
PublishNews, Beatriz Sardinha, 06/02/2026
Na véspera do Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, celebrado neste sábado, 7 de fevereiro, o PublishNews conversou com o escritor ativista, quase 50 livros publicados

Na véspera do Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, celebrado neste sábado, 7 de fevereiro, o PublishNews conversou com o polivalente Yaguarê Yamã. Nascido no Amazonas, Yaguarê é escritor, ilustrador, professor, geógrafo, e palestrante de temáticas indígenas e ambientais. Formado em Geografia pela Universidade de Santo Amaro (Unisa), ele atua diretamente na luta pela demarcação de terras dos povos indígenas e ajudou a criar a Associação do Povo Indígena Maraguá.

Falante de cinco línguas indígenas, o autor se descreve como um apaixonado pela vida na floresta e da liberdade que esse espaço lhe dá. Sua relação com a escrita é de uma 'paixão a primeira vista'. Em suas visitas rotineiras à Biblioteca de Parintins, Yaguarê sentiu falta da presença de obras brasileiras no acervo e, a partir disso, definiu o desejo de escrever histórias em que ele pudesse se sentir realmente representado.

Yaguarê é membro da Academia Parintinense de Letras e da Academia da Língua Nheengatu, é autor de dezenas livros, alguns selecionados para prêmios e catálogos nacionais e internacionais, como o Altamente Recomendável (FNLIJ), catálogos do White Ravens (Munique) e da Feira do Livro Infantil de Bolonha.

PublishNews — De que forma você enxerga a relação entre língua e território? Esses dois temas dialogam de alguma forma na sua obra?

Yaguarê Yamã — Esses dois temas dialogam, de alguma forma, na sua obra, sim, com certeza. Costumo dizer que eu sou um ativista escritor, eu uso minha escrita para atuar ou falar sobre o meu ativismo. E dá ênfase também na minha ideia, no meu olhar, na minha visão, né? Como ativista... e ativista do quê? Ativista indígena, ativista do território, ativista amazônico, ativista brasileiro. Eu atuo muito o que eu chame de brasilidade, eu valorizo muito esse pensamento, essa visão do brasileiro para se enxergar em si, e isso também é a territorialidade, né?

Digo que o Brasil brasileiro precisa se enxergar no espelho, se olhar e se ver e se voltar. Para a sua própria identidade. A identidade brasileira é essa que nós vivemos no Brasil. O brasileiro precisa olhar a identidade indígena, a identidade africana, a identidade europeia, mas dentro do Brasil. O Brasil é resultado dessas três civilizações. O brasileiro é o fruto desse processo. Então eu trabalho a minha literatura enxergando sempre essa ideia.

Um povo sem cultura é um povo infelizmente morto, né? Um povo que busca, que atua e vive a cultura do outro é um povo sem identidade. Então a gente precisa ter nossa identidade, precisa ter a cultura, isso também serve para o Brasil de uma maneira geral, nós precisamos ter nossa própria identidade, assim como eu, que sou um maraguá, além de brasileiro. Eu sou um maraguá com identidade própria, com língua própria, com cultura própria, dentro de uma identidade maior, que é o Brasil. E isso eu busco trazer na minha literatura. Eu busco trazer sempre na minha literatura essa união da língua, do território, da identidade, porque é isso que nós somos.

PN — Por que produzir livros para jovens leitores? Há um objetivo ou desejo pessoal que o leve para esse caminho?

YY — Não que eu escreva somente para jovens leitores, eu escrevo para todas as idades, mas tem alguns dos meus livros que eu atuo diretamente fixando nessa ideia, para esse público. Vejo que é muito mais fácil trabalhar com esse público, porque até então é mais difícil mesmo trabalhar com pessoas que já têm uma mente formada, que é muito difícil tirar estereótipo, preconceito, racismo de pessoas que já têm uma mente formada.

Agora com jovem não, é um campo ainda que precisa ser cultivado e é muito legal porque a gente cria aliados. O jovem leitor entende muito mais rápido essa chamada de 'se olhar no espelho'. Eles me contatam muito no meu WhatsApp e me mandam perguntas sobre a identidade amazônica e sobre valorização da cultura e sobre viver na floresta, sem prejudicá-la.

PN — Você possui dezenas de livros publicados. Quais são as principais inspirações para suas histórias? Como continuar escrevendo?

YY — Tenho atualmente 48 livros publicados. Acho que esse ano chego aos 50. Acredito que essa é uma grande conquista do meu povo e da cultura amazônica, do Brasil. A identidade desse território é muito importante. Eu luto por uma brasilidade, e não por um povo. Sou indígena, luto e sonho por um mundo de respeito em que todos vivam bem.

Eu escrevo com amor nessa causa e nessa identidade brasileira. E além disso tenho meu pai, que foi um grande contador de histórias e é uma das minhas maiores inspirações.

[06/02/2026 09:07:07]