O que estou lendo: José Enrique Barreiro
PublishNews, Monica Ramalho, 06/05/2026
'Ler Byung-Chul é uma experiência muito enriquecedora e prazerosa, tanto pelas ideias que apresenta quanto pela qualidade de sua escrita', diz o poeta

"Estou lendo Falando sobre Deus (Sprechen über Gott, Editora Vozes, 2025, com tradução de Milton Camargo Mota), do filósofo Byung-Chul Han, sul-coreano radicado na Alemanha. É o seu livro mais recente publicado no Brasil. Byung-Chul é um crítico contundente do modelo neoliberal de produção econômica, vigente em boa parte do mundo. Ele desenvolveu essa ideia no livro A sociedade do cansaço, best-seller mundial, que também li. Acreditando que são empresários de si mesmos, os indivíduos intensificam ao extremo a busca de produtividade e são levados ao esgotamento, burnout, depressão e outros distúrbios.

Ao saber que Byung-Chul lançara um livro em que Deus é o tema central, fiquei muito curioso. Fui rapidamente capturado pelos capítulos Vazio, Atenção e Descrição, além do Prefácio. O livro tem sete capítulos (os outros quatro são Silêncio, Beleza, Dor e Inatividade). Todos são manifestações específicas da contemplação, praticamente exilada do mundo contemporâneo pela produtividade intensiva e pelo excesso de ruído, velocidade e competitividade. Resgatar a presença da contemplação na vida diária parece ser o que Byung-Chul procura neste livro.

Ler Byung-Chul é uma experiência muito enriquecedora e prazerosa, tanto pelas ideias que apresenta quanto pela qualidade de sua escrita. Trata-se, na verdade, de um filósofo-poeta (ou um poeta-filósofo, como se queira chamar), profundamente conectado com o mundo atual e de uma percepção crítica pouco usual sobre a desumanização digital e a falsa sensação de liberdade promovida pelas novas formas de comunicação, especialmente as redes sociais. Por seu trabalho nessa área, Byung-Chul Han recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em 2025.

O livro Falando sobre Deus surpreende desde o início, quando o autor revela seu entusiasmo pela filósofa mística francesa Simone Weil, que ele toma como referência para suas análises ao longo de todo o livro. Já no Prefácio, ele explicita seu objetivo:

“Quase cem anos depois de Simone Weil (1909-1943) ter escrito seus livros, posso fazer uso de seus pensamentos a fim de mostrar que, para além da imanência da produção e do consumo, para além da imanência da informação e da comunicação, existe outra realidade, uma realidade mais elevada, sim, uma transcendência, que pode nos retirar de uma vida completamente esvaziada de sentido, da mera sobrevivência, da excruciante carência de ser, e nos proporcionar uma plenitude de ser que traga felicidade”.

Essa mirada de Byung-Chul dialoga de perto com a minha poesia, em grande parte voltada para retomar o protagonismo do ser, substituído, no mundo contemporâneo, pelo vício da matéria e, conscientemente ou não, afligido pelo doloroso distanciamento de seu destino humano.

Esse é o aspecto que considero fundamental em Falando sobre Deus: a reaproximação do ser humano com o seu espírito, que é o seu desejo original. Sem essa reaproximação, ele permanecerá imerso no que o mundo atual lhe propõe, limitado a ser produtor e consumidor em uma época sem espírito. Transgredir tal condição é passo decisivo para viver uma nova vida. Para concluir usando as palavras do autor: "A imanência da produção, do consumo e da comunicação retira da vida toda consagração. Sem a transcendência, a vida definha em mera sobrevivência. A vida é desconsagrada, reduzida à condição de vida nua".


José Enrique Barreiro é poeta e escritor, com os livros A lã das velhas já não serve para a neve de amanhã e Borda Infinita publicados pela Versal Editores.

[06/05/2026 11:13:29]