Três perguntas do PN para Marcello Quintanilha
PublishNews, Monica Ramalho, 14/08/2026
Radicado em Barcelona, quadrinista niteroiense está no Brasil para uma curta temporada de encontros com leitores para promover dois livros: 'Eldorado' e a nova edição de 'Luzes de Niterói'

Radicado em Barcelona há mais de duas décadas, o quadrinista niteroiense Marcello Quintanilha está no Brasil para uma curta temporada de encontros com leitores e eventos para promover os seus dois trabalhos mais recentes: Eldorado e a nova edição de Luzes de Niterói, publicados pela Veneta. A agenda terá início neste sábado e domingo, 15 e 16 de agosto, em Niterói — na Livraria da Travessa e na Festa Literária Internacional de Niterói —, e vai passar por São Paulo, Curitiba e Goiânia antes de terminar na Travessa de Ipanema, no Rio de Janeiro, no último sábado do mês, 29 de agosto. A agenda completa está nas redes sociais do artista.

Primeiro brasileiro a conquistar o Fauve d’Or, consagrado prêmio do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, Quintanilha construiu nas últimas décadas uma das carreiras de maior projeção internacional dos quadrinhos brasileiros. A sua obra já foi agraciada com outros prêmios de ponta, como Jabuti, Micheluzzi, Max und Moritz e Rudolph Dirks Award.

Mesmo vivendo na Espanha desde 2002, o Brasil permanece como tema central da sua produção. “O Brasil retratado nas minhas histórias é o Brasil que está comigo, na raiz daquilo que me constitui como ser humano”, conta ao PublishNews. Essa relação aparece com expressão nesses dois livros que o trouxeram de volta, ainda que por duas semaninhas.

Eldorado e Luzes de Niterói são unidos pelo personagem Hélcio, inspirado no pai do autor, e pelo Brasil dos anos 1950. A partir de memórias familiares, Quintanilha transforma a trajetória de um jovem que sonha com o futebol profissional em matéria-prima para histórias com altas doses de amizade, violência, desigualdade e pelas transformações sociais e políticas do país.

Para o artista, contar essas histórias em quadrinhos pressupõe trabalhar com uma tradição completamente diferente da escrita, fundada em uma gramática própria de códigos, que vai dos elementos pictóricos e da estrutura simbólica dos balões à tensão criada pelo espaço entre um quadro e outro. Ele afirma que é essa linguagem, e não a tradição literária, que orienta as suas escolhas narrativas.

“Estou sujeito às condições que o quadrinho apresenta enquanto meio de expressão. A história determina o que deve ser mostrado. Os personagens reivindicam seu próprio protagonismo. Eu não existo". Leia essa prosa em três compassos!

PUBLISHNEWS — Você vive em Barcelona há mais de vinte anos, mas continua escrevendo histórias profundamente brasileiras. Como evita que a distância transforme o Brasil em saudade?

MARCELLO QUINTANILHA — É extremamente simples e realmente não faço nenhum esforço, nem me sinto longe do Brasil sob nenhum aspecto.

O Brasil retratado nas minhas histórias é o Brasil que está comigo, na raiz daquilo que me constitui como ser humano, derivando de uma série de experiências vividas em primeira pessoa ou vividas por pessoas próximas, convertidas em ficção.

Não trabalho a partir do que observo, porque, no meu modo de ver, quando se trabalha a partir da observação, há um inevitável distanciamento entre quem observa e aquilo que é observado e nunca trabalho com distanciamento.

O Brasil presente nas minha histórias é o Brasil que está comigo. Não o que está diante de mim.

PN — Em Luzes de Niterói e Eldorado, você volta ao personagem Hélcio, inspirado no seu pai. Como foi transformar essas memórias familiares em quadrinhos?

QUINTANILHA — De modo muito natural porque me interessa tratar a dinâmica social brasileira e a forma em que conjunturas políticas específicas podem impactar na vida do cidadão.

Revisitar a história do meu pai e a forma como ela se funde com a história do Brasil é, também, um modo de compreender os mecanismos sócio-políticos que historicamente nos trouxeram até aqui.

PN — Nos quadrinhos, você decide exatamente o que o leitor vê. Como essa responsabilidade muda a maneira de contar uma história em relação ao romance ou ao conto?

QUINTANILHA — Os quadrinhos são uma tradição completamente diferente da pura escrita, porque se fundamentam em uma gramática de códigos que compreendem desde elementos pictóricos até a estrutura simbólica da balonagem ou a tensão representada pelo espaço existente entre um quadro e outro.

O leitor não somente “vê” um desenho — ou um desenho após outro, se você prefere — mas sim um universo de símbolos cuja organização terá maior ou menor efeito na experiência da leitura.

Deste modo, não tomo a tradição literária como eixo criativo. Estou sujeito às condições que o quadrinho apresenta enquanto meio de expressão. A história determina o que deve ser mostrado.

Os personagens reivindicam seu próprio protagonismo. Eu não existo.

[14/08/2026 09:10:30]