Valter Hugo Mãe: 'Estar no Brasil dá-me a impressão de não estar tão próximo de morrer'
PublishNews, Guilherme Sobota, 21/08/2026
Escritor fez uma turnê por sete cidades brasileiras para apresentar seu novo romance, 'O século dos imbecis' (Biblioteca Azul); leia a entrevista ao PublishNews

Valter Hugo Mãe em Niterói (RJ): escritor concluiu turnê brasileira na Flin | © Fernando Cascardo
Valter Hugo Mãe em Niterói (RJ): escritor concluiu turnê brasileira na Flin | © Fernando Cascardo

NITERÓI (RJ) — A ligação de Valter Hugo Mãe com o público leitor no Brasil teve seu marco definitivo há 15 anos: em 2011, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o escritor se levantou e leu uma carta ao país, detalhando sua paixão pela cultura e pela literatura brasileira, numa leitura que levou boa parte do público às lágrimas. Em 2026, nome estabelecido internacionalmente e com um séquito de fãs dedicados, o autor lusitano já se sente à vontade quando pisa por aqui. Nas últimas semanas, fez uma turnê por sete cidades brasileiras para apresentar seu novo romance, O século dos imbecis (Biblioteca Azul, 344 pp, R$ 84,90). Sua última parada foi em Niterói (RJ), para participar da Festa Literária Internacional de Niterói (Flin), que terminou no domingo (16). Uma das principais atrações do evento fluminense, ele recebeu o PublishNews no camarim da Sala Nelson Pereira dos Santos para uma conversa sobre esses assuntos.

O título do novo livro é bastante franco para um escritor conhecido pela imaginação larga. No romance, o protagonista Agilulfo, conhecido como Marquês da Malandrinha, é colocado ante uma escolha singular: quando desce a montanha local em direção ao nível do mar, emburrece; quando sobe, é tomado pela lucidez. A mudança no estado intelectual do marquês se torna um espetáculo para a população local, e guiados por esse fio surgem personagens que se movimentam entre os sentimentos humanos e a filosofia bem-humorada, estas também marcas da escrita do autor — que já acumula mais de duas dezenas de livros publicados no Brasil.

Nesta entrevista, Valter falou sobre o novo livro — que inicia uma tetralogia intitulada Crimes e Vindouros —, sobre a influência de Italo Calvino (1923-1985), reflete sobre a relação entre esforço e humanidade, dá seus pitacos sobre o impacto do celular (ou do telemóvel) no paradigma humano de hoje em dia, e repassa sua experiência com o país de Machado de Assis (1939-1908) e Guimarães Rosa (1908-1967).

PUBLISHNEWS — O novo livro começa com uma dedicatória a Italo Calvino e, claro, o nome do personagem também é uma homenagem a ele. Qual é a sua relação com a obra do italiano?

VALTER HUGO MÃE — Nessa nova tetralogia, farei sempre um jogo com algum escritor. Cada livro terá um jogo com uma obra prévia de um escritor que admiro. O primeiro foi Calvino, porque ele de algum modo inspira a própria série. Ele tem uma trilogia chamada "Os nossos antepassados" e, nessa trilogia, ele usa uma certa dimensão do absurdo. A fantasia é exponenciada ao ponto de absurdo para fazer uma análise de algumas vicissitudes do caráter humano. Quero muito partir dessa mesma possibilidade da fantasia para uma prospeção – não para avaliar o caráter humano a partir do que passou, mas numa projeção do que pode vir a seguir. Por isso chamei essa tetralogia de "Crimes e vindouros". "Crimes" porque primeiro eu começo por roubar alguma coisa, algum autor. Sou eu o primeiro criminoso. Depois, porque acho que a contemporaneidade arrisca deixar de herança para as gerações futuras não propriamente uma conquista pacificada, mas eventualmente um tumulto, que é mais parecido com um crime.

É como se as novas gerações precisassem arcar mais com os efeitos dum crime, ou até a culpa gerada por uma certa devassa, do que propriamente uma fortuna. Então esse livro começa por aí. O Calvino apresenta propostas para o novo milênio, ausculta o que podem ser modos de sustentar o pensamento, para de algum modo balizar, criar estrutura para uma humanidade mais forte. Mas faltou ponderar a questão da facilidade. E a desgraça humana contemporânea passa muito por um deslumbramento com a facilidade. Nós estamos rodeados de instrumentos que nos retiram a necessidade de um esforço. E talvez não tivéssemos previsto que a ausência de necessidade de esforço, a ausência de empenho, talvez conduza ao fim da condição humana. Ser-se humano, do ser humano, implica maturação, e isso implica o risco e a superação constante.

PUBLISHNEWS — Você se considera escritor de alegorias?

VHM — Eu nunca tinha pensado que seria escritor de alegoria, sabe? Há alguns efeitos fantásticos nos meus livros. O filho de mil homens, por exemplo, é uma fantasia, é quase uma história de encantamento. Como se o Crisóstomo pudesse ser um príncipe encantado à moda clássica, digamos assim. Bacana fazer isso. Mas não tive consciência. Sabia que estava a brincar com uma certa magia, mas agora este é o primeiro livro que eu conscientemente decido usar a estratégia da alegoria.

Escrever um livro é uma aceitação duma alteração, dum sobressalto necessário. Não tem conforto, não é linear. Então o que eu quiser fazer com o livro nunca é exatamente o que eu quero fazer. É o que eu posso, e o livro vai deixar ou não vai deixar. Ou faz sentido ou não faz sentido. Fala-se muito nessa hipótese de estarmos saindo do antropoceno para entrar no dataceno. E de fato estamos entrando deslumbradamente no dataceno. Estamos todos gerindo uma dimensão espectral de nós mesmos. A virtualidade é um fantasma que todos nós construímos e, sendo vivos, usamos a vida para a construção de um ser fantástico. E é tudo semelhante à reflexão do homem morto, que cada um de nós é sombra, participa na vida dos outros como uma assombração e não tanto como alguém efetivamente materializado.

PUBLISHNEWS — É muito engraçado e bem-humorado no livro a história do subir e descer, e, de acordo com essa escolha, o personagem fica mais erudito ou mais imbecil. Para ele, ainda há uma escolha. Você acha que ainda há uma escolha para nós?

VHM — Sinto que, ao querer continuar a iluminar-se, a grande multidão vai se deslumbrar, como se tem deslumbrado, pela facilidade. Por isso, vai adquirir uma cidadania cada vez mais lúdica e cada vez mais próxima do infantil. Uma cidadania desresponsabilizada, o que é típico da cidadania das crianças. É uma cidadania mais ou menos imprestável. Por isso a multidão está seduzida pela facilidade. Essa multidão não quer verdadeiramente fazer esforço nenhum. E tudo, tudo, tudo na nossa vida solicita esforço. Não se alcança conhecimento nenhum se não tiver esforço. Subir a montanha de fato implica que você seja melhor em cima dela do que em baixo. É preciso melhorar seus predicados para chegar ao topo da montanha.

PUBLISHNEWS — Além dessa metáfora, essa "subida e descida" pode ser comparada com o celular?

VHM — Todos os dias acordo e fico uns minutos – às vezes mais do que três minutos ou dez – vendo cachorrinhos. E por isso eu tenho Instagram, por exemplo. Gosto, acho que é uma ferramenta maravilhosa. Aliás, de fato o celular é uma ferramenta maravilhosa. Nunca tivemos nada assim popularizado paritariamente nas mãos de toda a gente. Nunca tivemos nada tão incrível na história do mundo, né? Agora, paradoxalmente, esse instrumento de empoderamento incrível, ao invés de sofisticar a humanidade e trazer um esplendor nunca visto, parece que propaga sobretudo uma monetização do ridículo. Em que as pessoas mais se copiam umas às outras e repetem fórmulas do que estão interessadas em atingir algum tipo de originalidade. E as pessoas preferem o simplesmente lúdico do que a "eureca" de uma ciência qualquer. Então é um pouco como você conseguir finalmente dotar toda a humanidade de uma oportunidade universitária, porque o celular é uma escola de porta aberta pra toda a gente, e a humanidade, ao invés de atingir verdadeiramente um nível universitário, regressa ao jardim infantil.

PUBLISHNEWS — Aquele episódio seu na Flip em 2011 já completou 15 anos. Como essa relação que você desenvolveu com o Brasil entra na sua literatura?

VHM — O Brasil já tinha entrado, já era uma paixão. Estar aqui com frequência faz com que eu tenha uma visão da língua, que é o meu instrumento principal, muito "impura". A mim não me interessa a pureza, a menos que seja da minha mãe. Todas as lições de transgressão podem ser interessantes. Até hoje, o que eu mais busco no Brasil é isso, e o pudim de leite, obviamente. A língua aqui sofre mutações rápidas, tem essa maravilha de conviver com outras línguas, que é uma coisa que em Portugal não temos. O português europeu fica encurralado, digamos assim. Quando sofre influência, sofre influências de línguas que são muito colonizadoras no mundo inteiro, como o inglês, normalmente. É muito mais interessante observar o que acontece à língua portuguesa a partir do padrão, por exemplo, brasileiro, em que ela é fertilizada por povos originários. Por isso eu sempre venho como alguém propenso ao crime porque venho roubar expressões e modos de dizer, inteirar-me do que é imaginar o mundo a partir daqui.

Porque o Brasil é um tumulto, é muito gigante, o movimento do Brasil é um movimento veloz. E talvez o brasileiro, por estar tão habituado a ser brasileiro, não entenda isso. Mas quem vem de fora, quem vem de um continente empedernido e transformado num museu, como é a Europa, é muito interessante chegar aqui e ter uma percepção da cultura como uma florestação. O Brasil é muito florestal. E culturalmente isso também é, também se nota. Enfim, estou habituado a ser europeu, mas adoro o privilégio de poder acostumar-me um pouco com o que o brasileiro é, porque isso dá-me a impressão de não estar tão próximo de morrer.

[21/08/2026 10:35:58]