O que estou lendo: Débora Thomé
PublishNews, Monica Ramalho, 26/08/2026
"A beleza está numa escrita singela, construída de forma exemplar no quebra-cabeça que vai montando. É político, mas não militante; não julga, não condena, não narra pelo viés da vitimização", diz a escritora carioca

Estou terminando de ler O invencível verão de Liliana (Autêntica Contemporânea, 2022), de Cristina Rivera Garza. Sempre tento comprar livros em espanhol no original, mas, como muita gente estava falando sobre ele e não tinha um portador a tempo, decidi ler mesmo em português. Já tinha lido outro livro dela anteriormente e estava bem curiosa depois das recomendações que recebi.

Acho o livro de uma elegância ímpar na escritura. Os livros, muitas vezes, são bons de ler, mas pouco elegantes; ou vice-versa. Este livro tem um modelo narrativo em que vamos nos aproximando da personagem sem que, em nenhum momento, pareça uma ficha policial. É como se fosse uma cebola que vai sendo descascada e vamos compreendendo melhor como ela é composta, a sua natureza, sem que a narração nos conduza pelas mãos. Ela vai nos mostrando o mundo, aquele mundo.

O livro trata de uma vítima de feminicídio, mas, em nenhum momento, se atém ao assassino, responsável pela morte da irmã, e, sim, a recontar a vida dessa mulher, respeitando-a em sua história e em suas escolhas. Por isso, dialoga diretamente com o meu tema de estudo, que são questões relacionadas à desigualdade de gênero; a violência contra a mulher é uma delas. Tem algo neste livro que é muito mais valioso, porém: o fato de ele não se ater a uma forma militante ou panfletária. O tema é tratado em profundidade justamente por mostrar matizes, por trazer uma personagem forte sendo decifrada a partir das poucas pistas que se têm, de forma respeitosa.

E há ainda uma qualidade na escrita que me faz recomendar especialmente a leitura. Não é novidade que as telas têm dificultado muito a nossa capacidade de deter a atenção nos livros, e incluo-me neste grupo. Na prática, acabamos buscando livros que, de forma menos rebuscada, nos apresentem tramas, personagens e sentimentos mais simples e desfechos mais contundentes. Este livro, no entanto, é capaz de ir muito além sem que, para isso, exagere nas metáforas, nas construções frasais complexas ou em períodos longuíssimos.

Aqui, a beleza está numa escrita singela, construída de forma exemplar no quebra-cabeça que vai montando. É político, mas não militante; não julga, não condena, não narra pelo viés da vitimização, uma obsessão contemporânea de muitas narrativas quando se trata de personagens femininas. É a história de uma irmã e sua dor, tentando passar um tempinho com ela, usando a saudade e a escrita como mote e motor.


Débora Thomé é escritora, doutora em Ciência Política e ativista do movimento feminista. Professora do IDP, com pós-doutorado na FGV e pesquisadora visitante da Columbia University, é referência no tema de mulheres e acesso ao poder no Brasil e no exterior. Desde 2013, publicou onze livros infantis e acadêmicos, entre os quais 50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer (finalista do Prêmio Jabuti) e 50 LGBTQ+ incríveis, ambos pela Editora Record; Mulheres e poder e Candidatas, os dois pela FGV Editora. Também é autora dos infantis Dicionário fácil das coisas difíceis e O tempo das cores (Editora Jandaíra).

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