
"Quem é leitor pode se identificar: é muito comum transitarmos por 'hiper focos' em assuntos específicos. Você se interessa por um tema, lê um artigo, depois um livro, outra obra… E, quando menos espera, só está falando sobre o tal assunto. Comigo não é diferente. Neste ano, livros sobre envelhecimento, família, memória e luto têm ocupado um espaço importante na minha lista de leituras. Por isso, hoje minha indicação é Antes que apague, título mais recente da escritora Natalia Timerman, publicado pela Companhia das Letras.
Nesta obra de ficção, a personagem conta a história da mãe, que tem Alzheimer em estágio avançado — assim como a mãe de Natalia, na vida real. A narradora registra os acontecimentos do passado e do presente da mãe, para acompanhar o avanço da doença e, principalmente, para impedir que o Alzheimer apague todos os rastros de sua vida.
Ao ler o livro, é interessante ver os embates da personagem em diversos aspectos. Ela estaria invadindo a privacidade da mãe ao registrar os fatos? Ela estaria ferindo a mãe ao expor seus segredos, que nunca antes haviam sido revelados nem aos mais próximos? Ou é dever da filha eternizar essa história da mãe?
'Escrevo porque minha mãe já não está. Se ela pudesse responder, eu perguntaria: posso escrever este livro? Mas se ela pudesse responder, o livro não teria razão de ser', conta a personagem em um dos trechos mais impactantes da obra.
Antes que apague instiga quem tem ou teve um parente com Alzheimer na família. Por ter uma experiência própria, Natalia constrói a narrativa de uma forma doída e realista sobre a doença. Ao ler este livro, nos sentimos próximos da narradora, vivemos aquela realidade de mãe e filha de forma intensa.
'E entendo que a linguagem verbal talvez não seja mais um meio de me comunicar com você. O toque, o abraço, o cheiro, sim: o seu corpo de mãe, de onde eu vim, para o qual agora sou grande demais, uma mãe que já não é capaz de me amparar e, no entanto, ampara sendo quem é', diz a narradora em outro trecho.
O texto de Natalia, mesmo que ficcional, ajuda o leitor a entender, compreender e elaborar os efeitos da doença, que atingem não só o paciente, mas a família como um todo".
Gabriela Mattos é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e foi repórter no jornal O Dia. Especializou-se em Gestão Empresarial e Marketing, pela ESPM-Rio, e em Influência Digital, pela PUC-RS. Com oito anos de experiência no mercado editorial, hoje é coordenadora de marketing da Estante Virtual.






