Três Perguntas do PN para Kika Gama Lobo
PublishNews, Monica Ramalho, 22/05/2026
"O homem parece gregário mas pensa com o umbigo, é bem egoísta, individualista e por isso, quando perde os atributos, tonteia", diz jornalista que está lançando livro sobre o assunto

“Os homens maduros parecem silenciar”. A frase surge em meio às conversas que a escritora, podcaster e influenciadora Kika Gama Lobo realizou para escrever O que eles dizem; Kikando com os homens maduros (Editora Lacre), que está em turnê de lançamento pelo país, e ajuda a condensar uma inquietação que permeia toda a obra: O que acontece quando uma geração inteira envelhece sem aprender a lidar com fragilidade, escuta, solidão ou perda?

Depois de entrevistar 22 homens com mais de 55 anos para o podcast independente PodPau e transformar parte dessas conversas em livro, Kika diz ter encontrado um universo marcado por “banzo”, melancolia e uma espécie de analfabetismo afetivo masculino que atinge as relações amorosas, amizades, paternidade e o próprio medo da velhice. Leia a entrevista!

PUBLISHNEWS — ⁠Muitos homens chegam à maturidade emocionalmente despreparados para lidar com perda, fragilidade, escuta e até intimidade. Depois de tantas conversas para o livro O que eles dizem; Kikando com os homens maduros e para o PodPau, seu podcast independente, você diria que existe uma espécie de analfabetismo afetivo masculino geracional? E como isso impacta relações amorosas, amizades, paternidade e até a maneira como esses homens encaram o próprio envelhecimento?

KIKA GAMA LOBO — Não encaram. É raríssimo. Tudo é relativizado. Usam o sobrenome corporativo (quando ainda o tem), a boa forma física (são poucos) e o capital de sedução (a maioria ainda se acha “pegável”) para dar conta desse abismo entre os envelheceres masculino e feminino. A gente (mulher) elabora muito mais, sobretudo nos 50 Plus, enquanto neles ainda vigora o espírito quinta série e isso cria uma pororoca no quesito amores, amizades, paternidade. Mas sinto que alguns poucos estão correndo atrás de um melhor repertório de vida: voltam para a análise, encaram uma constelação familiar ou simplesmente se abrem com a parceira. O que já é um belo efeito anti monotonia.

PN —⁠ ⁠Você escreve que o livro não é um manifesto de absolvição masculina, mas um exercício de escuta crítica. Em tempos de polarização entre homens e mulheres, o que te interessava ao criar justamente eum espaço de nuance? Houve falas que te incomodaram durante o processo?

KIKA — Tomei muito cuidado para não parecer feminazi no livro. Claro que a ira existe mas quis construir pontes. Não sou Pollyana mas não valeria a pena chutar cachorro morto, só ia contribuir para acirrar o ódio de gênero. Falas sobre como ainda são relevantes no mercado de trabalho, a reclamação sobre a diferença entre assédio e flerte e a dificuldade de lidar com questões de luto e testamento me pegaram bastante.

PN —⁠ ⁠O envelhecimento feminino vem sendo cada vez mais debatido publicamente. Já os homens parecem envelhecer mais isolados e sem repertório emocional coletivo. O que esses entrevistados revelaram sobre solidão masculina? E por que tantos deles parecem perder referências de identidade quando trabalho, potência sexual ou casamento se modificam?

KIKA — O homem parece gregário mas pensa com o umbigo, é bem egoísta, individualista e por isso, quando perde os atributos, tonteia. Percebi que a solidão, o alcoolismo, os boletos, as BETs, remédios para dormir, acordar, transar são preocupações pontuais mas ainda assim pouco elaboradas. Já as mulheres se apoiam, se abrem, dividem questões. Os homens maduros parecem silenciar até porque antes se morria aos 70/75 anos e com esse aumento da régua da longevidade eles se deparam com a questão da sobrevivência e panicam. Afinal estão mais velhos, mais pobres, sozinhos e sem muita condição de uma vida que afaste a decrepitude.

Vi, por vezes nas entrevistas, um banzo, uma melancolia que escapava em meio à fantasia de super homem.

[22/05/2026 09:09:34]