Três perguntas do PN para Anna Claudia Ramos
PublishNews, Monica Ramalho, 15/05/2026
"Por que, quando uma autora inicia sua trajetória escrevendo para crianças e jovens e depois passa a escrever para adultos, ela quase sempre precisa provar que é boa?", indaga

Com 34 anos de trajetória literária dedicada principalmente ao público infantojuvenil, a escritora carioca Anna Claudia Ramos lança agora Por trás da cicatriz (Faria e Silva), romance em que revisita uma história familiar silenciada por 70 anos. A obra parte da descoberta de um episódio de violência vivido por sua tia na juventude e transforma cartas, memórias e relatos familiares em uma narrativa impactante sobre elaboração da memória.

“Entendi que estava pronta para contar essa história quando terminei de escrever a narrativa da minha tia. O livro reflete uma cura geracional. E fico feliz por ter sido a pessoa capaz de proporcionar isso para as mulheres da minha família”, conta a autora nesta entrevista ao PublishNews.

Ao falar sobre o livro, o terceiro feito para adultos, Anna Claudia questiona como o mercado enxerga escritores que transitam entre diferentes públicos. “Por que, quando uma autora inicia sua trajetória escrevendo para crianças e jovens e depois passa a escrever para adultos, ela quase sempre precisa provar que é boa, enquanto o caminho inverso costuma ser imediatamente enaltecido?”, solta no ar. O preconceito está em todas as áreas e nada como um trabalho bem feito para colocar os pingos nos is. Vamos à conversa:

PUBLISHNEWS — Em Por trás da cicatriz, você escreve que “algumas feridas precisam ser curadas” e que “é preciso contar o que veio antes para desfazer os nós”. O que mudou na sua relação com as próprias cicatrizes ao transformar essa história familiar em literatura? E em que momento você entendeu que estava pronta para contar publicamente essa história?

ANNA CLAUDIA RAMOS — Sempre acreditei que não devemos estacionar na dor, por pior que ela seja. A dor, quando chega, precisa ser sentida, vivida e ressignificada. Só assim conseguimos seguir com mais leveza, sem tantos ressentimentos ou mágoas.

Passei a vida achando minha família pacata demais. Até que, após a morte de meu pai, minha mãe e minha tia passaram a morar sozinhas, e um passado misterioso começou a surgir. Essa tia sempre morou com meus pais. Com o envelhecimento delas e a necessidade crescente de cuidados, fui a filha que permaneceu mais próxima, cuidando de tudo.

Um dia, minha mãe me chamou para uma conversa e disse que precisava me contar uma história que havia jurado à mãe que nunca revelaria a ninguém. Eu me assustei, porque já tinha mais de 50 anos. O que ela iria me revelar permanecia em segredo havia décadas. Foi então que ela me contou que minha tia havia sofrido um abuso quando eram jovens.

Minha tia engravidou, e um padre autorizou o aborto. Naquele momento, muitas pontas soltas da história familiar começaram a fazer sentido para mim. Mas tudo se aprofundou ainda mais no dia em que descobri uma cicatriz na barriga da minha tia e entendi que aquela história tinha agravantes muito maiores do que eu imaginava. Minha mãe morreu antes da minha tia, que sempre precisou de cuidados. Então assumi integralmente essa responsabilidade, já que minha tia nunca teve filhos.

Eu costumava dizer que, se minha tia tinha “sobrado” para mim, devia existir um motivo. Brincava que um dia escreveria sua história. Foi durante um debate sobre violência contra a mulher que tive um insight: minha tia seria a narradora de sua própria história. Comentei com uma amiga que só escreveria depois que ela morresse. Mas, na manhã seguinte, fui “acordada” pela voz da minha tia dizendo: “Levanta, que preciso contar minha história.” A partir daquele momento, era como se eu escutasse sua voz dentro da minha cabeça.

Ela começava dizendo que só poderia partir depois de contar sua história, silenciada por aproximadamente 70 anos. Passei uma semana escrevendo essa primeira parte do livro, que é dividido em duas partes. Na narrativa, ela se despede. No dia seguinte, ela morreu. Mas vou deixar que os leitores descubram como tudo acontece e os desdobramentos mais profundos dessa história silenciada.

Entendi que estava pronta para contar essa história quando terminei de escrever a narrativa da minha tia. O livro reflete uma cura geracional. E fico feliz por ter sido a pessoa capaz de proporcionar isso para as mulheres da minha família.

PUBLISHNEWS — O livro costura memória, herança familiar e reconstrução subjetiva, mas também é alinhavado por cartas, fotografias, fragmentados e silêncios. Como foi construir essa narrativa com um olho no documento e o outro na imaginação? E de que forma os textos de Ana Claudia Quintana Arantes e Andréa Pachá dialogam com o coração da obra?

ANNA — Quando minha mãe morreu, encontrei suas cartas para meu pai. Não tive coragem de ler. Quase quatro anos depois, foi preciso abrir aquela caixa amarelada e mergulhar em suas cartas para desvendar partes desconhecidas do meu passado familiar. As cartas e as fotos foram rompendo o silêncio e reunindo os fragmentos da história. Tudo começou a fazer sentido. Inclusive a narrativa que minha tia havia contado da forma mais inusitada possível. Foi como montar um quebra-cabeça emocional, em que memória, ausência, silêncio e imaginação precisavam caminhar juntos.


Então, ter os textos de Ana Claudia Quintana Arantes, que trabalha com a morte, os cuidados paliativos e a dignidade de quem está partindo, foi de uma beleza ímpar. É como se ela olhasse para o meu texto e validasse o caminho que trilhei com minha tia até sua despedida. E, da mesma forma, receber o texto de Andréa Pachá, uma mulher que sempre defendeu tantas histórias femininas, foi profundamente emocionante. Quando ela define meu livro como um “texto lindo e corajoso”, senti um quentinho na alma.

Tanto Ana Claudia quanto Andréa olharam para o coração da obra e enxergaram sua essência: o silêncio atravessado por gerações, a dor feminina escondida por décadas e a coragem necessária de trazer essa história à tona, de contar o que há por trás da cicatriz. Acredito que a trajetória da minha tia pode ajudar muitas mulheres que sofreram abusos a compreenderem suas próprias jornadas em direção à cura interior.

PUBLISHNEWS — Depois de décadas (quantas?) escrevendo para a garotada, você publica agora um romance adulto profundamente íntimo e doloroso. O que a literatura infantojuvenil ensinou que também pode ser visto neste livro? E como você enxerga o seu percurso como autora através de diferentes gerações de leitores?

ANNA — Neste ano completo 34 anos escrevendo. Comecei com Pra onde vão os dias que passam?, um livro para jovens. Durante muitos anos escrevi para crianças e jovens porque sempre acreditei na intensidade dos sentimentos das infâncias e juventudes. Também acredito que fazer literatura é a mesma coisa para qualquer idade. É preciso compreender estrutura narrativa, tempo e espaço narrativos, construção de personagens e de narrador. O que muda é a forma como abordamos aquilo que está sendo contado.

Desde o início da minha trajetória, escrevo sobre temas ligados à busca interior, ao tempo, aos sentimentos mais profundos e complexos do viver. Sempre trouxe dores, mas também possibilidades de ressignificação. Não saídas mágicas, e sim personagens que precisam se enfrentar, olhar para si mesmas e reconstruir caminhos. Gosto dessa ideia de autoconhecimento como possibilidade de evolução.

Claro que também escrevi histórias mais leves, brincantes, mas tenho certeza de que podemos falar sobre qualquer tema com crianças e jovens. O que faz diferença é a abordagem e a compreensão de que o tema nunca pode ser maior do que a história. Por exemplo, Por trás da cicatriz fala de silenciamento e abuso para adultos. Já Tenho medo do monstro também toca nesse tema, mas a partir da angústia da criança. Existe uma diferença sutil na comunicação, entende?

Agora, se um livro para crianças e jovens for realmente literário, ele também dialogará com a criança e o jovem que continuam existindo dentro do adulto. Então, a literatura infantojuvenil me ensinou a escrever literatura. O desejo de escrever para adultos nasceu quando uma história surgiu dentro de mim conversando diretamente com adultos, e não mais com crianças ou jovens. O primeiro romance para esse público foi De onde vêm essas vozes?, publicado em 2016 pela BesouroBox, com texto de apresentação de João Anzanello Carrascoza.

Depois veio cartografia do afeto e outras histórias, um livro de contos lançado em 2024 pela Editora Martelo, com quarta capa assinada por José Eduardo Agualusa. E agora chega Por trás da cicatriz, meu terceiro livro para adultos. Como disse Ana Claudia Quintana Arantes, ele “se candidata a ser o livro mais maduro e corajoso de Anna”.

Termino trazendo uma reflexão: por que, quando uma autora inicia sua trajetória escrevendo para crianças e jovens e depois passa a escrever para adultos, ela quase sempre precisa provar que é boa, enquanto o caminho inverso costuma ser imediatamente enaltecido?

[15/05/2026 09:38:14]