O que estou lendo: Paula Novais
PublishNews, Beatriz Sardinha, 13/05/2026
"Penso que 'Diante da dor dos outros' é uma obra que ganha hoje renovada importância", diz a escritora

O que estou lendo? Diante da dor dos outros, de Susan Sontag (Companhia das Letras).

Guerras, invasões, devastação ambiental, violência urbana, deportação de imigrantes, a recente pandemia de Covid-19 e suas covas a céu aberto. Expropriação de territórios, aniquilação de civis, extinção de espécies, de antigas civilizações e de alguma redenção por meio de um trabalho digno em terras estrangeiras. O tratamento como simples contingência de tudo que se interpõe no caminho da dominação, cujas ideias e o discurso não se medeiam mais pela diplomacia, por subterfúgios e nem mesmo pela hipocrisia. Estes são cenários de caos e vilipêndio, em que as imagens de dor e humilhação são exploradas exaustivamente. São imagens que se tornam objeto de tensão ainda mais aguda quando nos apercebemos do fervor com que são contrapostas as ideias que elas fazem irromper e da velocidade convulsionada com que são propagadas pela cultura digital.

Sob a pressão desses fatos — e do desejo de me aproximar de suas imagens por meio de uma ética e de uma estética que não cedam ao imperativo contemporâneo da espetacularização — foi que a leitura de Diante da dor dos outros parece ter se imposto e tomado a dianteira na pilha de livros. Sem falar nas epígrafes de Baudelaire (“aos vencidos”) e de Tennyson (“a sórdida mentora, a experiência”), que me atraíram logo de cara, ao prenunciar a aparente intenção da autora de transmitir uma ideia de limitação do potencial arrebatador das imagens como dispositivo de sensibilização contra a violência. Intenção que se confirma pelos comentários apresentados ao longo desse ensaio sobre a representação de conflitos que vão desde o início do século XIX, a exemplo das pinturas de Goya sobre as invasões napoleônicas na Espanha, passando pelo advento dos primeiros registros de conflitos em fotografia, até chegar a vídeos de tragédias mais familiares à contemporaneidade, tais como as Grandes Guerras, a Guerra do Vietnã e o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.

E embora eu ainda não tenha terminado a leitura — estou na página 52, exatamente na metade do livro — já posso afirmar que alguns aspectos do texto me comoveram profundamente, em razão de seu evidente diálogo com a realidade que ora se apresenta, do noticiário e das imagens que emergem dessa realidade, bem como da interpretação dessas imagens por grupos diversos, a depender de seu recorte social e/ou afiliação política. Para Susan Sontag, a interpretação das imagens da dor e da guerra e seus desdobramentos na definição dos limites da solidariedade e dos deveres da consciência dependeriam sempre de legendas. Sobre a questão, Sontag escreve:

“Para as pessoas seguras de que o certo está de um lado e a opressão e a injustiça estão do outro, e de que a luta precisa prosseguir, o que importa é exatamente quem é morto e por quem. (…) Para o militante, a identidade é tudo. E todas as fotos esperam sua vez de serem explicadas ou deturpadas por suas legendas. (…) Bastava mudar as legendas para poder utilizar e reutilizar a morte das crianças.”

Nesse sentido, há algo de alerta e de profecia no que a autora vem a dizer mais adiante, correlacionando imagem, memória e recordações enganosas:

“Seja a foto entendida como um objeto ingênuo ou como a obra de um artífice experiente, seu significado — e a reação do espectador — depende de como a imagem é identificada ou erroneamente identificada; ou seja depende de palavras. (…) As legendas serão necessárias. E as leituras equivocadas e as recordações enganosas, e os novos usos ideológicos das fotos, farão sentir seu peso. Normalmente, se existe alguma distância com relação ao tema, aquilo que uma foto “diz” pode ser lido de várias maneiras. (…) A memória alterou a imagem de acordo com as necessidades da memória”.

Ao comentar o conjunto de 83 gravuras em água-forte produzidas por Goya sobre as atrocidades cometidas pelos soldados franceses nas invasões napoleônicas na Espanha de 1808, Sontag nos faz refletir sobre o regime estético adotado pelo pintor espanhol e sobre um modo ético de construir esse tipo de representação:

“Todos os ornamentos do espetacular foram suprimidos: a paisagem é uma atmosfera, uma escuridão, apenas ligeiramente esboçada. A guerra não é um espetáculo. E a série de gravuras de Goya não é uma narrativa: cada imagem, legendada por uma breve frase que deplora a iniquidade dos invasores e a monstruosidade do sofrimento que infligiram se sustenta independente das demais. O efeito cumulativo é devastador. As imagens de Goya são uma síntese. Garantem: coisas assim aconteceram.”

Em tempos de imagens fabricadas por IA em detrimento do gênio humano e de reiterados e acalorados debates sobre a suposto desequilíbrio entre forma e conteúdo nas artes contemporâneas, penso que Diante da dor dos outros é uma obra que ganha hoje renovada importância. Como a própria Sontag sustenta, “nenhum ‘nós’ deveria ser aceito como algo fora de dúvida quando se trata de olhar a dor dos outros”.


Paula Novais é escritora e foi a vencedora do Prêmio Caminhos de Literatura 2025 com o romance Gaiolas de concreto armado (Dublinense).

[13/05/2026 09:33:56]