
Mas como quase todo mundo que gosta de ler nos dias de hoje, não tenho tempo para tudo que me interessa. E não falo nem de reler: há livros que mudam muito, conforme passa o tempo e se amontoam as experiências pessoais. Admiro essa disponibilidade para a reinterpretação de certos livros, que nos confirma o quanto podemos aproveitar os realmente bons.
Então, sim, costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Como critério de escolha, separo livros que podem me apoiar (direta ou sutilmente) no processo de escrita que vigora. E como sempre estou escrevendo ou pensando em escrever algo, esse critério tem sido uma constante. Às vezes isso não passa de uma falácia.
Mas vamos a eles: comecei anteontem (no Kindle) o livro de Lydia Davis, Um pato amado é assado – Ensaios práticos sobre práticas de escrita (Martins Fontes, 2026, tradução de Camila von Holderer). O primeiro texto tem como subtítulo “Formas e influências I”, em que lemos de maneira nada empolada sobre aqueles textos que extrapolam os limites “originais” de seu gênero, e justamente Davis, que nos apresenta, como ficcionista, formas menos tradicionais e definíveis de prosa e poesia.
O outro livro é Laços de família (1960), de Clarice Lispector, que leio na edição da Rocco (2016), aquela que reúne todos os contos. Não poderia dizer que estou relendo o livro; cada frase é como se fosse nova. Li os primeiros contos, inclusive o clássico “Amor”. Penso que, adolescente, nunca poderia ter entendido Ana, essa mulher que, após um passeio de bonde, se dá conta de sua vida comezinha como mãe, esposa e mulher, mas no fim volta resignada para casa. “Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia” – é como se encerra o conto.
Já o livro que terminei há pouco, mas parece que ainda o estou lendo, e quero muito recomendar é o novíssimo Os imortais, de Paulliny Tort (Fósforo, 2026), que narra os laços de uma família pré-histórica, ou seja, um clã, 40 mil anos atrás, quando os neandertais, nossos primos por afinidade anatômica, estavam desparecendo e quando surgíamos nós, os sapiens.
Ambientado numa era em que a linguagem não constituía um recurso oral passível de reprodução num romance, Tort sabiamente renunciou aos diálogos. É insólito, mas logo não conseguimos imaginar outra forma de narrativa. Temos então o cotidiano de um Homem, uma Mulher, dois Velhos e um bebê sapiens, a Menina, que aos poucos assume o protagonismo. Eles fogem do rigoroso inverno em busca de uma temperatura mais amena e, consequentemente, de ter o que comer. Só o que carregam são vestimentas improvisadas e pedras lascadas, com ajuda das quais constroem ferramentas e expressam costumes e até sentimentos. Tudo em meio a muita precariedade. Basta imaginarmos os hábitos de higiene – higiene, essa palavra tão moderna. O livro não é grosso, mas é longo, entenda-se: às vezes parece arrastado, porque nos transportamos para dificuldades muito diferentes das nossas – embora não seja à toa sermos seus parentes distantes. E porque tudo precisa ser dito sem ser falado. Isso custa, mas é quando afloram a habilidade e o talento que parecem não faltar à escritora de Brasília, já premiada pelo livro anterior, Erva brava, de 2021.
Um trecho que escolho quase aleatoriamente, de uma página qualquer: “[...] Com o machado na mão, o Homem sobe os degraus do platô até o lugar mais alto, de onde observa a planície a partir da escarpa. Sentado no chão, tateia e pega umas pedras argilosas. Espatifa duas na palma, mas a outra não cede à sua força e é arremessada longe [...].” Alguns sapiens também agem assim até hoje. Quem nunca? Pois que em vários momentos nos pegamos enfrentando a pergunta: eles pensam como nós ou somos nós que pensamos como eles? Às vezes é penoso nos reconhecer nesse livro que tem tudo para ganhar os prêmios mais importantes e alcançar o mercado internacional. Recomendo muito.
Por fim, releio A montanha mágica (1924), de Thomas Mann, aos poucos, nos intervalos entre um livro e outro. Porque não quero que acabe."
Claudia Cavalcanti é editora, tradutora e escritora. Já publicou A vida dos outros e a minha (Cultura e Barbárie, 2021), Avenida Beberibe (Fósforo, 2024, finalista do Prêmio São Paulo) e em julho levará às livrarias o novíssimo Espaço aéreo (Fósforo).







