Nova livraria de rua de Salvador, Terra Libris quer beber da cultura baiana
PublishNews, Beatriz Sardinha, 22/05/2026
Espaço, fundado por Valéria Pergentino e Kin Guerra, preza pelo protagonismo de editoras independentes e diálogo com o público leitor e do audiovisual

Inauguração da Terra Libris | © Gabriela Bulhões
Inauguração da Terra Libris | © Gabriela Bulhões

Na semana passada (14) foi inaugurada a Terra Libris, nova livraria de rua em Salvador (BA), localizada no Cine Glauber Rocha, em frente à Praça Castro Alves, no Centro Histórico da capital baiana. Mais do que reproduzir modelos antigos, a Terra Libris quer honrar seu nome de "Terra dos Livros" e tornar-se um espaço cultural vivo e que busca reativar o hábito do encontro do livro na cidade.

Segundo dados do Anuário de Nacional de Livrarias da ANL mais recente, a Bahia apresentava apenas 60 livrarias em todo seu território, sendo o oitavo estado na lista de mais livrarias no país. Em 2025, um estudo da Câmara Brasileira do Livro (CBL) apontou que apenas 1.830 municípios brasileiros possuem livrarias, num universo superior a 5.500 cidades.

O Nordeste, e mais especificamente a Bahia, aparecem como regiões estratégicas para expansão de leitores e venda de livros, por conta de seu grande contingente populacional (superior a 57 milhões) e possibilidade de crescimento do acesso local ao livro. Em março o mercado teve acesso aos resultados do mais recente Panorama de Consumo de Livros no Brasil. Em entrevistas com representantes do mercado, André Palme, executivo da Estante Virtual, destacou o Nordeste como "uma importante praça de venda de livros", e com grande potencial de formação de leitores.

Um dos fundadores do novo espaço literário e sócio-editor da Solisluna, Kin Guerra afirma que a ideia da Libris surgiu a partir da percepção que há a necessidade da criação de livrarias de curadoria na cidade. "São livrarias que pensam o acervo em diálogo com o público para além das listas de mais vendidos, que olham para a bibliodiversidade com atenção e cuidado, que escutam os leitores e valorizam editoras independentes, diferentes perspectivas e a qualidade literária", diz.

A ideia é que a livraria funcione como uma "ponte entre Salvador e o mundo". Kin adiciona que a livraria tem interesse especial em escritores e artistas cujas obras dialoguem com os grandes debates contemporâneos, tanto na ficção quanto na não ficção.

A Terra Libris se posiciona a favor da bibliodiversidade e reafirma a necessidade de dar protagonismo às editoras independentes em seu acervo. No entanto, Kin comenta que o foco da escolha dos títulos não é direcionada a um gênero ou formato, mas está focado na construção de um "catálogo coerente com o território cultural em que a livraria está inserida" e ir além de listas de livros mais vendidos.

Espaço de cinema

Fachada do Cine Glauber Rocha | © Divulgação
Fachada do Cine Glauber Rocha | © Divulgação

O espaço da Terra Libris é compacto, com aproximadamente 55 m², e um acervo inicial estimado em 3,5 mil títulos. Seu charme é justamente sua localização, integrada ao Cine Glauber Rocha.

Com este nome desde a década de 1980, o prédio é um importante espaço de agitação cultural de Salvador. Ao seu lado, está a Igreja da Barroquinha, que abrigou irmandades negras importantes para a formação do sincretismo religioso baiano e esteve ligada às origens do primeiro terreiro Ketu da Bahia.

Há ainda na região o Teatro Gregório de Mattos, além de galerias e outros equipamentos culturais que formam esse ecossistema artístico do Centro Histórico. Kin revela o desejo de articular todas as influências estéticas e simbólicas dos arredores para as atividades e encontros promovidos na Terra Libris.

Uma livraria para a atualidade de Salvador

Na visão do editor e agora livreiro, abrir e manter uma livraria de rua hoje é quase um gesto de resistência cultural. Em uma cidade como Salvador, com uma potência cultural tão grande, fortalecer espaços dedicados ao livro, ao encontro e ao pensamento crítico é também investir na memória, na imaginação e na vida pública da cidade. "Queremos contribuir para reativar essa cultura do encontro em torno do livro na cidade", afirma.

Valéria Pergentino e Kin Guerra são os fundadores da Terra Libris | © Gabriela Bulhões
Valéria Pergentino e Kin Guerra são os fundadores da Terra Libris | © Gabriela Bulhões

Ele relembra que há uma memória afetiva muito forte entorno de antigas livrarias de Salvador, como a Livraria Progresso e a Civilização Brasileira, em seus momentos mais efervescentes. A nova casa não abrirá mão da tecnologia, por entender que ela pode ser importante aliada na eficiência operacional: "Entendemos que a tecnologia é fundamental para a sustentabilidade e a inovação do negócio, especialmente para uma livraria situada fora do eixo Rio-São Paulo, onde os custos logísticos impactam diretamente as margens do setor", comenta.

Kin afirma que a Terra Libris não pretende competir com o ambiente online nos mesmos termos das grandes plataformas e que o foco da nova loja está em poder oferecer o que, na visão dele, é a maior dificuldade dos algoritmos e grandes plataformas de e-commerce: curadoria, mediação cultural, experiência de descoberta e construção de comunidade.

Nesse sentido, ele destaca que a atuação online da livraria servirá como um braço extensor no estabelecimento de sua comunidade leitora "e não apenas como mais um canal de venda", afirma.

[22/05/2026 10:20:21]