
Na semana passada (14) foi inaugurada a Terra Libris, nova livraria de rua em Salvador (BA), localizada no Cine Glauber Rocha, em frente à Praça Castro Alves, no Centro Histórico da capital baiana. Mais do que reproduzir modelos antigos, a Terra Libris quer honrar seu nome de "Terra dos Livros" e tornar-se um espaço cultural vivo e que busca reativar o hábito do encontro do livro na cidade.
Segundo dados do Anuário de Nacional de Livrarias da ANL mais recente, a Bahia apresentava apenas 60 livrarias em todo seu território, sendo o oitavo estado na lista de mais livrarias no país. Em 2025, um estudo da Câmara Brasileira do Livro (CBL) apontou que apenas 1.830 municípios brasileiros possuem livrarias, num universo superior a 5.500 cidades.
O Nordeste, e mais especificamente a Bahia, aparecem como regiões estratégicas para expansão de leitores e venda de livros, por conta de seu grande contingente populacional (superior a 57 milhões) e possibilidade de crescimento do acesso local ao livro. Em março o mercado teve acesso aos resultados do mais recente Panorama de Consumo de Livros no Brasil. Em entrevistas com representantes do mercado, André Palme, executivo da Estante Virtual, destacou o Nordeste como "uma importante praça de venda de livros", e com grande potencial de formação de leitores.
Um dos fundadores do novo espaço literário e sócio-editor da Solisluna, Kin Guerra afirma que a ideia da Libris surgiu a partir da percepção que há a necessidade da criação de livrarias de curadoria na cidade. "São livrarias que pensam o acervo em diálogo com o público para além das listas de mais vendidos, que olham para a bibliodiversidade com atenção e cuidado, que escutam os leitores e valorizam editoras independentes, diferentes perspectivas e a qualidade literária", diz.
A ideia é que a livraria funcione como uma "ponte entre Salvador e o mundo". Kin adiciona que a livraria tem interesse especial em escritores e artistas cujas obras dialoguem com os grandes debates contemporâneos, tanto na ficção quanto na não ficção.
A Terra Libris se posiciona a favor da bibliodiversidade e reafirma a necessidade de dar protagonismo às editoras independentes em seu acervo. No entanto, Kin comenta que o foco da escolha dos títulos não é direcionada a um gênero ou formato, mas está focado na construção de um "catálogo coerente com o território cultural em que a livraria está inserida" e ir além de listas de livros mais vendidos.
Espaço de cinema

O espaço da Terra Libris é compacto, com aproximadamente 55 m², e um acervo inicial estimado em 3,5 mil títulos. Seu charme é justamente sua localização, integrada ao Cine Glauber Rocha.
Com este nome desde a década de 1980, o prédio é um importante espaço de agitação cultural de Salvador. Ao seu lado, está a Igreja da Barroquinha, que abrigou irmandades negras importantes para a formação do sincretismo religioso baiano e esteve ligada às origens do primeiro terreiro Ketu da Bahia.
Há ainda na região o Teatro Gregório de Mattos, além de galerias e outros equipamentos culturais que formam esse ecossistema artístico do Centro Histórico. Kin revela o desejo de articular todas as influências estéticas e simbólicas dos arredores para as atividades e encontros promovidos na Terra Libris.
Uma livraria para a atualidade de Salvador
Na visão do editor e agora livreiro, abrir e manter uma livraria de rua hoje é quase um gesto de resistência cultural. Em uma cidade como Salvador, com uma potência cultural tão grande, fortalecer espaços dedicados ao livro, ao encontro e ao pensamento crítico é também investir na memória, na imaginação e na vida pública da cidade. "Queremos contribuir para reativar essa cultura do encontro em torno do livro na cidade", afirma.

Ele relembra que há uma memória afetiva muito forte entorno de antigas livrarias de Salvador, como a Livraria Progresso e a Civilização Brasileira, em seus momentos mais efervescentes. A nova casa não abrirá mão da tecnologia, por entender que ela pode ser importante aliada na eficiência operacional: "Entendemos que a tecnologia é fundamental para a sustentabilidade e a inovação do negócio, especialmente para uma livraria situada fora do eixo Rio-São Paulo, onde os custos logísticos impactam diretamente as margens do setor", comenta.
Kin afirma que a Terra Libris não pretende competir com o ambiente online nos mesmos termos das grandes plataformas e que o foco da nova loja está em poder oferecer o que, na visão dele, é a maior dificuldade dos algoritmos e grandes plataformas de e-commerce: curadoria, mediação cultural, experiência de descoberta e construção de comunidade.
Nesse sentido, ele destaca que a atuação online da livraria servirá como um braço extensor no estabelecimento de sua comunidade leitora "e não apenas como mais um canal de venda", afirma.







