
Profissionais do mercado editorial reagiram com otimismo aos números do mais recente Panorama do Consumo de Livros no Brasil, divulgado nesta quinta-feira (26) pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) a partir de uma pesquisa da Nielsen BookData. Os números indicam que o consumo de livros no Brasil cresceu 2 pontos percentuais em 2025 sobre 2024, o que representa três milhões de novos consumidores no país. Na sua terceira edição, a pesquisa destacou o protagonismo das mulheres pretas e pardas, que representam 30% do total de consumidores de livros no país. Demograficamente, as mulheres pretas e pardas da classe C formam atualmente o maior grupo consumidor do país.
Para o diretor do Grupo Editorial Record, Cassiano Elek Machado, os resultados foram animadores. “Embora o crescimento geral da pesquisa tenha sido impulsionado pelo fenômeno específico dos livros de colorir, os resultados são bastante animadores para o setor editorial. É especialmente significativo observar o aumento no percentual de consumidores de livros no país, além da recorrente força do público jovem. Outro dado positivo que merece destaque é o maior protagonismo de mulheres pretas e pardas na compra de livros — uma tendência que já vinha se consolidando em levantamentos anteriores.”
Livrarias
O líder do negócio de livros da Amazon Brasil, Ricardo Perez, destaca também a importância do crescimento do consumo entre os jovens. “É gratificante ver o mercado editorial brasileiro crescendo, com 3 milhões de novos consumidores em 2025. Observar que o maior crescimento foi entre os jovens e que outros formatos ganham relevância, são ótimos sinais sobre a perspectiva futura da leitura no Brasil. Na Amazon, trabalhamos para conectar leitores brasileiros com a maior seleção de livros — físicos e digitais — com conveniência e preços acessíveis. Continuaremos investindo para democratizar o acesso à leitura no Brasil.”
O empresário e livreiro Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), ficou satisfeito com a percepção altamente positiva demonstrada pelos consumidores sobre as livrarias, mas ressalta que o ambiente competitivo continua desafiador. “Os dados apresentados pelo Panorama confirmam o que a ANL vem afirmando há anos: a livraria física continua tendo um valor simbólico e cultural fundamental para os leitores brasileiros, mesmo diante da concorrência agressiva do comércio online. Livrarias acolhem a vida cultural das nossas ruas e bairros. São locais de encontro entre leitores e livros; inigualáveis e insubstituíveis vitrines da indústria editorial."
Para ele, os resultados da pesquisa evidenciam "um paradoxo que precisa ser enfrentado com políticas públicas a favor de um maior equilíbrio concorrencial". E conclui: "Mais do que pontos de venda, as livrarias são fundamentais para a formação de leitores e para a vitalidade do ecossistema do livro no país.”
André Palme, head da Estante Virtual, comenta que os dados podem apontar para uma necessidade de o mercado editorial voltar seu foco para buscar novos leitores, e não apenas dedicar o atendimento a quem já compra livros com frequência. "Estamos vivendo isso na prática na nossa livraria na Galeria Magalu, no Conjunto Nacional", diz. "Ao dividir o ambiente com outras quatro marcas que não têm relação direta com livros, percebemos que posicionar o livro em espaços frequentados por não leitores gera descoberta. E descoberta gera conversão. Ao expor o livro fora do seu habitat tradicional, conseguimos capturar a atenção de novos públicos e transformá-los em leitores."
Uma combinação de fatores tem impulsionado o crescimento, de acordo com a análise da diretora comercial da Livraria Leitura, Daniela Zebral. Hoje, o acesso aos livros está muito mais fácil — seja pelo digital, pelas livrarias ou até por iniciativas que incentivam a leitura. As redes sociais também deram um novo fôlego para esse universo. A leitura ganhou um novo significado. Deixou de ser vista como obrigação e passou a ocupar um espaço de prazer, de entretenimento, autocuidado e até estilo de vida. E isso faz toda a diferença", comenta.
Ela reforça, porém, que é importante trazer um olhar mais atento para os dados. "Hoje, muitas livrarias, inclusive a Livraria Leitura, também realizam vendas por meio de marketplaces, e esse movimento nem sempre aparece de forma clara em algumas pesquisas. Ou seja, parte desse crescimento pode estar, de certa forma, diluída ou até subestimada quando a gente olha apenas para os canais tradicionais."
Elaine Nunes, diretora comercial da Livraria das Perdizes, em São Paulo, reitera que o vínculo com o bairro é que sustenta o gesto de entrar numa loja, folhear e levar um livro pra casa. "A compra online tem alcance, mas não substitui o que acontece no encontro: a livraria como lugar de pausa, de troca, de descoberta quase íntima. Esse espaço precisa ser nutrido, ativado, cuidado em conjunto. Quando editoras se aproximam e viabilizam eventos, conversas e experiências, elas não estão apenas apoiando o ponto de venda, estão fortalecendo um ecossistema vivo de leitura.”
Desafios e perspectivas
A editora da DBA Literatura, Luiza Lewkowicz, também percebeu que os dados da pesquisa confirmam um movimento que o mercado já vinha percebendo no dia a dia: "a formação de novos leitores passa hoje por circuitos mais diversos, especialmente digitais, e por uma conexão mais direta com comunidades e recomendações, o que reforça a necessidade de pensar catálogo, comunicação e canais de maneira mais integrada, sem perder de vista o desafio de equilibrar a força do online com a experiência das livrarias físicas.”
O diretor da Bookwire Brasil, Marcelo Gioia, comenta que é inspirador observar como o Panorama do Consumo de Livros no Brasil revela a força crescente dos formatos digitais, ampliando e enriquecendo a experiência da leitura. "Os audiolivros, em especial, despontam como uma nova fronteira, conquistando cada vez mais espaço e transformando a maneira como as histórias chegam às pessoas. Temos orgulho de fazer parte desse movimento, contribuindo para tornar a leitura mais acessível, dinâmica e presente no dia a dia de tantos leitores", reforça.
O Panorama mostrou que os audiolivros hoje representam 24% da última compra de livros digitais dos consumidores — eles eram 19% em 2023. Três lojas se destacam no segmento: Amazon (54,8% dos consumidores fizeram sua última compra na loja), Google (19,6%) e Skeelo (10,1%). Juntas, as três correspondem a 84,5%.
Para os sócios da editora Ercolano, Roberto Borges e Regis Mikail, os números também representam um momento de otimismo. "O mercado editorial brasileiro tem se tornado cada vez mais complexo e desafiador, apesar das dificuldades operacionais e das mudanças nos canais de venda, o interesse pelo livro permanece sólido e em expansão e isso é bem motivador para uma editora que chegou a pouco, como é o caso da Ercolano”.
Palme, da Estante Virtual, ainda destaca outras informações consolidadas pela pesquisa. Uma delas é o dado de que 72% dos respondentes disseram que sua cidade possui uma livraria. "O número oficial mais recente da ANL aponta cerca de 2.972 livrarias no Brasil. Ao mesmo tempo, na Estante Virtual trabalhamos com mais de 6,5 mil livreiros ativos, alguns com pontos físicos e outros operando apenas online. Isso levanta uma provocação interessante: talvez seja hora de ampliarmos a nossa visão sobre o que define uma livraria e reconhecer o papel desses pequenos comércios que, no fim do dia, vendem livros e ajudam a ampliar o acesso à leitura", comenta.
Por fim, o destaque do Nordeste como uma importante praça de venda de livros é muito positivo, segundo o executivo. "O Nordeste — assim como outras regiões fora dos grandes centros — tem um enorme potencial de formação de novos leitores, justamente por ainda haver menos acesso local ao livro. Pensar em como ampliar a presença nesses mercados pode ser um dos caminhos mais relevantes para o crescimento da leitura no país."
Mudanças no mercado
Fundador e editor da Matrix Editora, Paulo Tadeu afirma que uma contenda do mercado é fidelizar públicos que chegam às livrarias para comprar livros como os de colorir. "Se uma pessoa voltar, quem sabe não vai acabar se interessando por um outro assunto? Nosso desafio, portanto, enquanto editores, não é apenas ampliar o consumo, mas fidelizar esse novo público", analisa. "O baixo engajamento do público masculino é um dos dados mais provocativos da pesquisa. Isso sugere uma oportunidade editorial clara: precisamos repensar temas, formatos e linguagem para esse público. Os dados mostram que o mercado não está encolhendo: ele está mudando de forma."
Para Miriam Cortez, da Cortez Editora, a pesquisa evidencia a mudança de protagonismo no perfil de quem lê no Brasil. "Mulheres pretas e pardas passam a ocupar um lugar central nesse cenário, não apenas como consumidoras, mas como agentes de transformação cultural. Diversificar vozes e narrativas, portanto, não é apenas ampliar catálogo, é consolidar um mercado editorial mais vivo, conectado e representativo do seu tempo.”
A presidente da CBL, Sevani Matos, é diretora da VR Editora, e informa que em 2025 a casa apresentou crescimento relevante, fruto de um trabalho contínuo de investimento em catálogo, com a contratação de obras de autores nacionais contemporâneos e autores renomados estrangeiros, principalmente em ficção para o público jovem, obras de não-ficção em desenvolvimento pessoal e literatura romântica. "Os dados do Panorama do Consumo de Livros no Brasil são bastante relevantes e demonstram que o desempenho ao longo do ano passado foi impulsionado pela forte performance do varejo, tanto físico como online, mantendo o setor em trajetória de recuperação e expansão mesmo com oscilações pontuais em alguns períodos", conclui.






