
O Brasil ganhou cerca de três milhões de novos compradores de livros, mas isso não significa, necessariamente, que estamos lendo mais. Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), em parceria com a Nielsen BookData, 18% da população adulta comprou ao menos um exemplar em 2025. Ainda que o número indique um aquecimento do mercado editorial, ele não garante hábitos de leitura consistentes, sobretudo entre crianças e adolescentes.
É justamente entre os mais jovens que os desafios se tornam mais evidentes. O uso intenso de redes sociais e plataformas digitais tem sido associado à redução da atenção e da capacidade de concentração — um impacto que se manifesta de forma ainda mais sensível em fases de desenvolvimento cognitivo. Exposta cada vez mais cedo às telas, essa geração tende a ter mais dificuldade de lidar com o tédio ou atividades que exigem um envolvimento mais prolongado, como a leitura.
Um estudo do Instituto Karolinska, na Suécia, que acompanhou cerca de 8 mil crianças entre 10 e 14 anos, identificou uma associação entre o uso frequente de redes sociais e o aumento de sintomas de desatenção. Não é difícil entender por quê.
O formato curto e fragmentado das redes sociais nos acostuma a picos de estímulo, trocas de foco muito rápidas e narrativas não sequenciais, encurta o tempo de concentração necessário para construir uma compreensão profunda, realizar uma análise crítica ou conectar diferentes partes do texto. Quando tudo se resolve rápido demais, a tendência é perder a paciência com o que exige tempo, como ambiguidade e complexidade narrativas.
A consequência é que obras mais longas e complexas — justamente aquelas mais presentes no ambiente escolar — podem parecer ainda mais cansativas e menos atraentes para os estudantes de hoje do que para os de antigamente.
É o que sugere a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro e divulgada em 2025. Embora jovens de 11 a 13 anos liderem a porcentagem de leitores (81%), o hábito de leitura tende a diminuir de modo gradual conforme a idade avança. No total, mais de 6,7 milhões de pessoas abandonaram o hábito da leitura nos últimos quatro anos, apontando como principais fatores a falta de tempo, o desinteresse e a preferência pelo universo online.
Diante disso, é preciso, sim, pensar em iniciativas que discutem a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, como o chamado ECA Digital. Limitar mecanismos de engajamento excessivo, como algoritmos que favorecem conteúdo viciante e a rolagem infinita, pode diminuir exposições prolongadas e, assim, as interrupções constantes de atenção.
Nesse contexto, a literatura tem papel fundamental. Além de ampliar vocabulário e repertório, a leitura favorece o desenvolvimento da capacidade de concentração, competência essencial para o aprendizado ao longo da vida. Mas esses ganhos não são imediatos: exigem tempo, constância e um ambiente favorável.
Por isso, práticas pedagógicas que reservem espaço para a leitura e incentivem o consumo crítico de mídia são essenciais desde a infância. Em casa, a leitura regular ajuda a criar rotinas e fortalecer uma disciplina cognitiva, ampliando a capacidade de sustentar a atenção e conectar ideias.
Em um cenário de estímulos constantes, formar leitores talvez dependa menos do acesso aos livros e mais da capacidade de garantir, desde cedo, coisas cada vez mais raras: tempo, silêncio e atenção.







