
Conversar sobre crítica literária com a Beá é citar Roland Barthes (1915-1980) e saber que ela fez doutorado com o francês em carne e osso, na década de 70. Era todo o meu referencial teórico de alguma forma personificado ali. A gente fala de teoria, mediação, leitura, mercado, algoritmo, e ali está uma pessoa que viu de perto um dos nomes que ajudaram a bagunçar para sempre a ideia de autor, leitor e interpretação.
A Beá é a crítica que faz crítica carregando suas subjetividades, sim, ora. E quem não faz? Pode falar de Han Kang e Lima Barreto (1881-1922) com a mesma elegância. Ela constrói pontes com uma generosidade insubmissa.
Uma otimista incurável, Beá lamenta que faltem espaços qualificados para a crítica, mas celebra que os criadores de conteúdo estejam levando a molecada para falar de livros. Não há desprezo automático pelo novo, mas também não há ingenuidade.

Ela faz do território, o mundo. E das diversidades, uma pauta necessária. Sabe que é um desafio acessar esse jovem para além da tela, mas também não larga sua mão. A literatura tem que chegar nele. A Beá abraça o novo sem perder a reverência que o tempo precisa.
Em determinado momento do papo, eu disse que a gente estava habituado a consumir literatura, não necessariamente a ler literatura. Mas entre a decodificação e a significação há um universo imenso. Há um celular bloqueado e uma página sendo virada. Pode ser que seja Colleen Hoover ou Julia Quinn. Mas há leitura.
Lembrei também de uma fala do Moacyr Luz sobre Aldir Blanc (1946-2020). Logo que conheceu o Aldir, Moa disse que o compositor carioca não o recebeu de braços abertos, mas, sim, de “livros abertos”, já que Aldir, leitor voraz, tinha uma biblioteca daquelas em casa. Pode ser que a gente precise receber mais o jovem de livros abertos.
A mesa terminou, a ótima Feira Literária Internacional de Tiradentes seguiu e eu saí um pouquinho mais otimista de tudo isso. Como pesquisador, a gente aprende a não perder o olhar crítico sobre os fenômenos estudados, mas dessa vez eu preferi sair com os livros abertos também.
* Gabriel Mattos é mestre em Economia Criativa, Estratégia e Inovação pela ESPM-RJ e professor convidado dos programas de MBA do IBMEC e da ESPM-RJ. Autor do livro 'Entre Livros e Likes' e sócio da agência TwoCom, que desde 2018 teve como clientes os maiores grupos editoriais do país, como Sextante, Arqueiro, Rocco, Harper Collins, Globo Livros e Ediouro.







