O que estou lendo: Ramon Nunes Mello
PublishNews, Monica Ramalho, 1º/07/2026
Poeta, jornalista e ativista de direitos humanos indica duas leituras de Donna Haraway que estão sendo fundamentais à sua pesquisa de doutorado na UFRJ, na qual investiga as relações entre poesia e hiv

"Quero falar sobre dois livros de Donna Haraway, bióloga, filósofa e teórica feminista norte-americana de 81 anos, ainda atuante. São leituras fundamentais para minha pesquisa de doutorado na UFRJ, em que investigo as relações entre poesia e hiv/aids. Cheguei à obra de Haraway por indicação do professor Atilio Butturi, pesquisador cuja reflexão sobre hiv, Foucault e a própria Haraway tem sido muito importante para o meu percurso.

Já concluí Manifesto Ciborgue, de 1985, que chegou no Brasil em edição da Monstro das Marés. Fiquei impressionado com a inteligência e a potência visionária de Haraway ao pensar as relações entre tecnologia, corpo e feminismo. É um texto publicado em 1985 que continua surpreendentemente atual. E agora estou lendo O manifesto das espécies companheiras (Bazar do Tempo, 2021), que tem ampliado meu olhar para as formas de convivência entre humanos e outros seres vivos.

Uma das ideias que mais me mobiliza em Manifesto Ciborgue é a maneira como Haraway desmonta as fronteiras rígidas entre humano, máquina e natureza. Ela nos convida a abandonar dicotomias e a pensar a existência como uma trama de relações, algo que dialoga profundamente com minhas inquietações como poeta e pesquisador.

Aproximo-me de Haraway para pensar o que significa conviver com o hiv/aids. O vírus é uma espécie companheira indesejada, mas incontornável. Queira ou não, se eu tenho um vírus, ele também me tem. Da mesma forma, se eu tenho um cachorro, ele também me tem. Somos constituídos pelas relações que estabelecemos. Vivemos em uma rede que conecta seres vivos, tecnologias, ambientes e afetos.

Recomendo essas leituras porque Donna Haraway é uma das pensadoras mais originais do nosso tempo. Sua obra nos ensina a "ficar com o problema", expressão que dá título a um de seus livros mais conhecidos, Ficar com o problema (2016). Ela constrói um pensamento que atravessa ciência, filosofia, literatura e tecnologia, sempre nos lembrando de que nenhum ser existe isoladamente. Ler Haraway é aprender a habitar um mundo de interdependências, com mais responsabilidade, imaginação e abertura ao outro".


Ramon Nunes Mello é poeta, escritor, jornalista e ativista de direitos humanos. Pesquisador, possui mestrado em Poesia Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente é doutorando em Ciência da Literatura pela mesma instituição. Autor de diversas obras publicadas, entre elas A menina que queria ser árvore (2018).

[01/07/2026 16:05:54]