Estratégia dos microdramas leva leitores chineses do digital para o impresso
PublishNews, Beatriz Sardinha, 19/06/2026
Pavilhão Integrado de Edição Digital e Fórum Editorial da Feira Internacional do Livro de Pequim trouxeram detalhes sobre novos 'players' da cadeia editorial chinesa

PEQUIM, China — A Feira Internacional do Livro de Pequim estreou nesta semana seu Pavilhão Integrado de Edição Digital. O espaço trouxe para o evento um movimento recente e bastante lucrativo para a cadeia editorial chinesa: os microdramas. A inserção do formato na cadeia de conteúdo editorial é impulsionada pela convergência digital e pela integração de plataformas de leitura com redes sociais de vídeos curtos, como o Douyin (a versão chinesa do TikTok), cujo nome significa "ritmo ou som dançante". Em vez de priorizar o sucesso comercial de um único formato, a postura de reaproveitamento do conteúdo em diferentes plataformas e estilos narrativos tem aproximado público não leitor chinês do livro impresso.

Na Feira, um estande apresentava a plataforma Fanqie Novel, desenvolvida pela ByteDance, uma gigante na difusão de web novels gratuitas no país. A lógica da plataforma é a de operar sob um modelo de negócios que não se restringe na escolha de um único formato para a difusão de seu conteúdo. A estratégia por trás da política de transmídia Fanqie Novel engloba desde a publicação digital serializada e até a venda de direitos intelectuais para produções televisivas e audiovisuais, animações e, finalmente, para o impresso.

Em março deste ano, nos EUA, a Harlequin, braço da HarperCollins, anunciou uma parceria com a Dashverse, empresa de entretenimento de inteligência artificial especializada na produção de vídeos curtos, para iniciar a co-produção de 40 microdramas animados inspirados em romances do selo.

Primeira lançamento de microdrama da Harlequin dos Estados Unidos | © Divulgação
Primeira lançamento de microdrama da Harlequin dos Estados Unidos | © Divulgação

O fenômeno dos microdramas

No centro dessa transformação estão as chamadas micro séries — ou microdramas — produções audiovisuais rápidas, com episódios de apenas um minuto de duração, projetadas especificamente para o consumo móvel e dinâmico.

Reprodução da página inicial da Fanqie Novel | © Reprodução
Reprodução da página inicial da Fanqie Novel | © Reprodução
Com narrativas de ritmo frenético e pontos de clímax altamente concentrados, esse formato conquistou uma audiência massiva e já atrai o interesse de mercados ocidentais, como os EUA e o Reino Unido. A produção dessas séries é viabilizada tanto por criadores independentes quanto pelas próprias plataformas, que adquirem os direitos de livros populares para adaptá-los com baixo custo.

Nesse sentido, a inteligência artificial surge como ferramenta catalisadora decisiva nesse ecossistema, permitindo a conversão automatizada de textos literários em animações curtas. Por meio de grandes modelos de linguagem desenvolvidos pela ByteDance, é possível transformar descrições textuais diretamente em imagens e vídeos, criando os chamados "dramas em quadrinhos" (também chamados de manga dramas).

Público multiplataformas

Zhang Xian, responsável pelo licenciamento internacional para os romances da Fanqie Novels, contou a jornalistas no estande que algumas das tendências são de histórias em ambientes cosmopolitas, em que as personagens apresentam poderes.

Essa nova etapa de materialização do conteúdo possibilita, segundo os editores ouvidos pelo PublishNews na Feira, que os usuários de conteúdos rápidos em vídeo possam ser gradualmente convertidos em leitores de livros físicos. Além disso, a empresa aponta que o sucesso da tendência se consolida enquanto hábito de consumo de conteúdo, uma fusão entre tecnologia, redes sociais e literatura na era da inteligência artificial.

Segundo dados da Beijing OpenBook Information Technology Co., o varejo de livros da China manteve uma tendência de queda em 2025, com o valor total das vendas do setor diminuindo em 3,75% em relação ao mesmo período do ano anterior. Houve também uma queda de receita líquida de vendas em 4,86%.

Detalhes do modelo de negócio

Na mesa-redonda com a imprensa, Zhang Xian explicou mais sobre as distinções demográficas nas audiências dos microdramas e dos manga dramas: o público de microdramas sendo ligeiramente mais velho, e o público consumidor de animações por IA (os manga dramas), mais jovem.

A empresa afirma que essa etapa mediada pela IA reduz drasticamente as barreiras de produção e o custo de consumo, atraindo um público jovem e altamente engajado que consome entretenimento visual de forma quase instantânea.

O sucesso de engajamento no ambiente virtual funciona como um termômetro para o mercado editorial impresso tradicional, ou seja, a partir da viralização dos episódios curtos, editoras sentem-se seguras para produzir versões impressas das histórias. Contatada pelo PublishNews na Feira Internacional de Pequim, a Fanqie Novel não revelou valores, mas detalhou que o sucesso multiplataformas dos conteúdos fez com que 300 livros baseados em romances digitais originais da Fanqie fossem publicados no formato impresso.

Esse fluxo "reverso" do digital como potencializador do impresso é visto com otimismo pelo mercado. Na abertura da feira (17), o posicionamento do diretor internacional Sean Xie foi na mesma direção, apostando na capacidade curatorial dos editores chineses como principal força motriz da tomada de decisões do mercado, sem priorizar um único formato de publicação.

*A jornalista viajou a convite da Corporação de Importação e Exportação de Publicações Nacional da China (CNPIEC).

[19/06/2026 10:43:37]