
Na Feira, um estande apresentava a plataforma Fanqie Novel, desenvolvida pela ByteDance, uma gigante na difusão de web novels gratuitas no país. A lógica da plataforma é a de operar sob um modelo de negócios que não se restringe na escolha de um único formato para a difusão de seu conteúdo. A estratégia por trás da política de transmídia Fanqie Novel engloba desde a publicação digital serializada e até a venda de direitos intelectuais para produções televisivas e audiovisuais, animações e, finalmente, para o impresso.
Em março deste ano, nos EUA, a Harlequin, braço da HarperCollins, anunciou uma parceria com a Dashverse, empresa de entretenimento de inteligência artificial especializada na produção de vídeos curtos, para iniciar a co-produção de 40 microdramas animados inspirados em romances do selo.

O fenômeno dos microdramas
No centro dessa transformação estão as chamadas micro séries — ou microdramas — produções audiovisuais rápidas, com episódios de apenas um minuto de duração, projetadas especificamente para o consumo móvel e dinâmico.

Nesse sentido, a inteligência artificial surge como ferramenta catalisadora decisiva nesse ecossistema, permitindo a conversão automatizada de textos literários em animações curtas. Por meio de grandes modelos de linguagem desenvolvidos pela ByteDance, é possível transformar descrições textuais diretamente em imagens e vídeos, criando os chamados "dramas em quadrinhos" (também chamados de manga dramas).
Público multiplataformas
Zhang Xian, responsável pelo licenciamento internacional para os romances da Fanqie Novels, contou a jornalistas no estande que algumas das tendências são de histórias em ambientes cosmopolitas, em que as personagens apresentam poderes.
Essa nova etapa de materialização do conteúdo possibilita, segundo os editores ouvidos pelo PublishNews na Feira, que os usuários de conteúdos rápidos em vídeo possam ser gradualmente convertidos em leitores de livros físicos. Além disso, a empresa aponta que o sucesso da tendência se consolida enquanto hábito de consumo de conteúdo, uma fusão entre tecnologia, redes sociais e literatura na era da inteligência artificial.
Segundo dados da Beijing OpenBook Information Technology Co., o varejo de livros da China manteve uma tendência de queda em 2025, com o valor total das vendas do setor diminuindo em 3,75% em relação ao mesmo período do ano anterior. Houve também uma queda de receita líquida de vendas em 4,86%.
Detalhes do modelo de negócio
Na mesa-redonda com a imprensa, Zhang Xian explicou mais sobre as distinções demográficas nas audiências dos microdramas e dos manga dramas: o público de microdramas sendo ligeiramente mais velho, e o público consumidor de animações por IA (os manga dramas), mais jovem.
A empresa afirma que essa etapa mediada pela IA reduz drasticamente as barreiras de produção e o custo de consumo, atraindo um público jovem e altamente engajado que consome entretenimento visual de forma quase instantânea.
O sucesso de engajamento no ambiente virtual funciona como um termômetro para o mercado editorial impresso tradicional, ou seja, a partir da viralização dos episódios curtos, editoras sentem-se seguras para produzir versões impressas das histórias. Contatada pelo PublishNews na Feira Internacional de Pequim, a Fanqie Novel não revelou valores, mas detalhou que o sucesso multiplataformas dos conteúdos fez com que 300 livros baseados em romances digitais originais da Fanqie fossem publicados no formato impresso.
Esse fluxo "reverso" do digital como potencializador do impresso é visto com otimismo pelo mercado. Na abertura da feira (17), o posicionamento do diretor internacional Sean Xie foi na mesma direção, apostando na capacidade curatorial dos editores chineses como principal força motriz da tomada de decisões do mercado, sem priorizar um único formato de publicação.
*A jornalista viajou a convite da Corporação de Importação e Exportação de Publicações Nacional da China (CNPIEC).






