
PARATY (RJ) — O primeiro dia da Casa PublishNews na Flip 2026 já começou com uma fila para entrar no espaço — que também apresenta sua nova identidade visual e uma produção diferenciada neste ano, com mais lugares e visando oferecer maior conforto aos participantes. O primeiro painel da quarta-feira (22) foi "Quem lê no Brasil? Mercado, política e consumo", e reuniu Fernanda Garcia, diretora executiva da CBL, Jéferson dos Santos Assumção, diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas no Ministério da Cultura, e Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas da Nielsen BookData, em um papo que repassou dados do Panorama do Consumo de Livros no Brasil e o desenho do novo Plano Nacional do Livro e Leitura, lançado em abril.

Mais tarde, o painel "A virada de plataforma do livro", mediado pelo diretor de negócios da MVB América Latina, Simei Junior, discutiu as transformações pelas quais o livro passou ao longo do tempo. "Motivada por essa questão de um novo formato ou um novo tipo de produto, acho fascinante acompanhar a história do livro e ver como ele vai se diversificando para chegar às pessoas e suprir o desejo por histórias", disse a diretora de aquisições e audiolivros na Sextante e Arqueiro, Nana Vaz de Castro. "O assunto dessa semana é a Odisseia de Homero — uma história que começou na época dos bardos, contada oralmente, e quase três mil anos depois ainda nos toca."
Ela explica que a forma de adquirir os livros para uma editora passou por mudanças importantes. "Há 10 ou 20 anos, quando eu ia contratar uma obra, não pensava como penso hoje: 'Como vai ser esse audiolivro? Quem vai narrar? Um ou dois narradores?' A negociação mudou. Passamos a incluir esses formatos nos contratos e a estudar a praxe de remuneração para que o autor continue sendo remunerado de forma justa, sem sentir que perde ao migrar de formato. Para nós, editores, os audiolivros representam uma nova fronteira para alcançar as pessoas em momentos em que elas não estariam lendo — como no trânsito ou fazendo tarefas."
Ela explicou que um dos pontos centrais na mesa de negociação atual é a forma de distribuição digital (se pode ir para assinatura ilimitada ou apenas venda unitária). "Certos agentes ou autores travam o modelo de assinatura. Isso não me faz deixar de contratar, mas liga um sinal de alerta, pois restringe o alcance em certas plataformas. Estamos longe da realidade de países como Suécia ou Finlândia, onde o audiolivro cresceu tanto que inverteu o mercado — se não tiver o direito de áudio por assinatura, as editoras de lá nem contratam. Nos grandes mercados de língua inglesa, a maior parte da receita ainda vem com folga do livro físico."
Para José Fernando Tavares, especialista em publicações digitais e colunista do PublishNews, o livro digital (tanto e-book quanto áudio) representa acessibilidade e acesso. "Em um país como o nosso, isso deve ser uma missão. Trabalho focado em e-books acessíveis (como no PNLD). O livro digital não precisa ser uma cópia exata do impresso, assim como o audiolivro exige pensar no público que vai ouvir. O importante é o acesso às histórias. Quem trabalha com livro digital normalmente também tem uma tonelada de livros impressos em casa", comparou.
A coordenadora de conteúdo do Skeelo — uma das principais plataformas de livros digitais no Brasil hoje —, Tatiana Yoshizumi, comentou que a indicação boca a boca e as redes sociais ainda são os maiores impulsionadores de recomendação de leitura. "Dentro do aplicativo, a curadoria principal é feita por seres humanos — a nossa equipe de conteúdo organiza as galerias por novidades e gêneros. Estamos trabalhando para implementar recomendações automatizadas com base no histórico de leitura do usuário, mas valorizamos muito o fator humano e de comunidade. Temos grupos no Telegram e fazemos maratonas de leitura coletiva. O livro é também um meio de criar comunidade", atestou.

Outro assunto da mesa foi o uso de inteligência de artificial no mercado. Tavares afirmou não acreditar numa visão "preto no branco" de que a IA vai substituir todo mundo. "A IA não vai substituir as pessoas da forma como se alardeia. O mercado se preocupou excessivamente com a IA na escrita de textos — e de fato surgiram robôs poluindo lojas com e-books genéricos, o que obrigou a Amazon a impor limites. Mas o problema aí são as pessoas mal-intencionadas, não a tecnologia em si."
Para ele, os editores estão gastando energia preocupados se a IA vai revisar texto ou escrever livros, enquanto perdem a oportunidade de usá-la no marketing e na gestão de metadados. "Fiz um teste recente conectando um modelo de IA ao navegador para buscar um livro específico no site de uma editora. A IA leu a página, mas não sugeriu certos livros excelentes porque os metadados do site estavam mal estruturados. Antigamente, otimizávamos páginas enchendo o texto de palavras-chave. Hoje, precisamos de conteúdos bem descritos para que as IAs compreendam a obra e a recomendem ao leitor ideal. O gargalo da editora geralmente é a venda e a descoberta (e não a escrita ou revisão de livros), e é aí que a IA pode ajudar sem ferir direitos autorais."
Tatiana explicou ainda que, no Skeelo, a plataforma busca negociações ganha-ganha. "Não consideramos as editoras meras fornecedoras, mas parceiras. A negociação envolve não só a parte financeira, mas o compartilhamento transparente de dados (métricas de onde o leitor parou, capítulos mais lidos, taxa de abandono), garantindo que a plataforma apoie a estratégia da editora."
De fato, o acesso aos dados é, por si só, uma das maiores riquezas que as plataformas podem oferecer aos editores.
Veja a programação completa da Casa PublishNews na Flip nesta quinta-feira (23):
10h30 - 11h15: LER O MUNDO EM IMAGENS: A ARTE PARA FORMAR NOVOS LEITORES
- Jacques Fux, escritor e pesquisador
- Marilia Mendes, gerente editorial de literatura da Via Lúdica, editora do Grupo Multiverso das Letras
- Rodrigo Andrade, autor de literatura infantil e designer gráfico
- Mediador: Denise Guilherme, diretora pedagógica da Árvore
12h - 12h45: CONSTRUINDO UM CATÁLOGO DE AUDIOLIVROS
- Lene Bastos, diretora criativa do Studio Wave
- Maria Carvalhosa, editora e fundadora da Supersônica Livros
- Ricardo Teperman, publisher da Zahar (Grupo Companhia das Letras)
- Mediador: Ramiro Macedo, head de áudio da Bookwire Brasil
13h - 13h45: O QUE VAMOS LER NO FUTURO? NOVOS GÊNEROS PARA NOVOS LEITORES
- Antonio Castro, editor de aquisições na Intrínseca
- Diana Passy, scout literária
- Rita Mattar, diretora da Fósforo
- Virginie Leite, diretora editorial da Sextante
- Mediador: Beatriz Sardinha, repórter do PublishNews
14h - 15h: O LIVRO NO FEED: FISGANDO NOVOS LEITORES COM NEWSLETTERS E OUTROS ESPAÇOS PARA FALAR DE LIVROS
- Ana Lima Cecílio, editora-executiva do Grupo Editorial Record, criadora de A Lábia
- Ana Rüsche, escritora e criadora da Anacronista
- Raquel Cozer, jornalista e apresentadora do Notas de Rodapé no canal Amado Mundo
- Mediador: Guilherme Sobota, editor-chefe do PublishNews
15h - 16h: O MAPA DA MINA: A FORÇA DOS EVENTOS LITERÁRIOS
- Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros
- Fabiano Piúba, secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura
- Mauro Munhoz, diretor artístico e cultural na Associação Casa Azul e cofundador da Flip
- Mediador: Marcelo Stella, coordenador de Economia do Livro no Minc
16h - 16h45: DEMOCRACIA SOB VIGÍLIA: OS LIVROS COMO SAÍDA
- Marcelo Freixo, professor, ex-deputado federal e autor
- Jamil Chade, jornalista e colunista
17h - 18h: METADADOS VIZINHOS: O ESTADO DA ARTE DO USO DE METADADOS NA AMÉRICA LATINA
- Ricardo Costa, head da MVB América Latina
- Luiz Gaspar, diretor de pesquisas da Nielsen BookData
- Marifé Garcia, vice-presidente para América Latina e Sul da Europa da Feira do Livro de Frankfurt
- Mediador: Bruno Mendes, sócio do PublishNews






