BookFever: Febre Literária Internacional de Paraty
PublishNews, Gabriel Mattos, 31/07/2026
'As bookredes botaram o pé na porta e estraçalharam a bolha literária. Se você não é leitor, esquece. Você precisa ser ou, pelo menos, precisa parecer que é', escreve Gabriel

Flip 2026 © Sara de Santis
Flip 2026 © Sara de Santis

Paraty explodiu (e até apagou). Os microfones de lapela — sempre nas mãos, nunca nas lapelas — estavam em cada esquina e os celulares a postos para que o mundo soubesse: “eu tô na Flip”.

O Luiz Maurício Azevedo escreveu uma crônica no Amado Mundo sugerindo cinco frases bombásticas para usar nos encontrinhos da Feira. A melhor delas talvez traduza esta edição: “Na primeira Flip eu vi o Chico bem pertinho. Aquele olhão azul. Era tudo mais romântico, né? Mas eu não tenho saudade, não. O meu tempo é hoje!”

Nos entreouvidos literários, tinha muita gente que queria mesmo era um autógrafo e uma foto. As mesas ficavam para a próxima. “O autor eu ouço em casa. Melhor pegar o livro e já ficar esperando para ser a primeira na fila de autógrafos”, disse uma leitora.

A Festa Literária Internacional de Paraty é apaixonante e histérica. Uma interseção no espaço-tempo em que cinco dias ficam suspensos numa ode à palavra. Ao mesmo tempo, há filas enormes, gritarias nas filas enormes, barracos nas filas enormes e uma disputa contínua por posts, stories, hype e likes.

As bookredes botaram o pé na porta e estraçalharam a bolha literária. Se você não é leitor, esquece. Você precisa ser ou, pelo menos, precisa parecer que é. E isso é maravilhoso, não se engane. Pode ser que a academia torça o nariz ou algum crítico cite Bourdieu para dizer que o povo só quer capital cultural através dos posts. Mas a festa está rolando, e quanto mais gente falando de livro, melhor.

Gabriel Mattos © Monica Ramalho
Gabriel Mattos © Monica Ramalho

O efeito prático de tudo isso é uma Flip que, mesmo com 48% a menos de orçamento em relação a 2025, teve 18% a mais de público, com 40 mil pessoas visitando Paraty nos cinco dias de evento.

É a organicidade da rede social em sua melhor forma. Uma convergência entre velocidade e alcance, mas que termina nos abraços, nas conversas demoradas e nos tropeços presenciais regados a cachaça e literatura.

Pode ser menos romântico do que antes, mas talvez seja mais vivo e mais barulhento. E, mesmo ainda com um claro recorte de classe, a Flip furou a bolha. Eu quero mais gente na festa. E se o povo chegou pelo hype e ficou pelos livros, já valeu a pena.


* Gabriel Mattos é mestre em Economia Criativa, Estratégia e Inovação pela ESPM-RJ e professor convidado dos programas de MBA do IBMEC e da ESPM-RJ. Autor do livro "Entre Livros e Likes" e sócio da agência TwoCom, que desde 2018 teve como clientes os maiores grupos editoriais do país, como Sextante, Arqueiro, Rocco, Harper Collins, Globo Livros, Ediouro e Record.

[31/07/2026 10:38:21]