O que estou lendo: Flávia Péret
PublishNews, Monica Ramalho, 03/06/2026
À frente de um curso de escrita, autora está encantada com o livro indicado: "O que mais me impressionou até agora foi a escolha de fazer da montanha uma narradora"

"Estou lendo A montanha das fúrias, da escritora uruguaia Fernanda Trías, publicado no Brasil pela Editora Instante, com tradução da Marina Waquil. Cheguei na metade do livro e estou amando. A narrativa acompanha uma mulher que, após a morte da mãe e da avó, decide se afastar da cidade (um povoado pequeno e muito pobre) e viver na montanha, trabalhando como cuidadora de uma área cercada por arame farpado.

Na solidão desse lugar frio e úmido, com elevada altitude, ela começa a escrever e a reconstruir as memórias de uma infância marcada pela precariedade e pela violência. À medida que avançamos, as diferentes linhas narrativas vão se entrelaçando e se tornando cada vez mais complexas. Os personagens constantemente nos surpreendem e nada é exatamente o que parecia ser.

O que mais me impressionou até agora foi a escolha de fazer da montanha uma narradora.

Não apenas a protagonista tenta reconstruir sua história, mas a própria montanha parece empenhada em recompor sua memória. Há algo de muito bonito nessa coexistência de duas autobiografias: a humana e a mineral. Além disso, me surpreende a capacidade de Fernanda Trías de criar um equilíbrio raro entre peso e leveza. Embora o livro trate de perdas, abandono, violência e morte, a narrativa nunca se torna sufocante. Há sempre espaço para a delicadeza, para a observação da paisagem e para momentos de estranheza que iluminam o texto.

E essa leitura dialoga muito com o meu trabalho. Tenho me interessado por narrativas que investigam a memória, os processos de reconstrução do passado e as formas pelas quais contamos nossas próprias histórias. Em A montanha das fúrias, a escrita aparece justamente como uma tentativa de dar forma ao que restou: lembranças fragmentadas, silêncios, heranças familiares e afetivas.

Também me interessa a maneira como o livro desloca a autobiografia para além do humano, permitindo que a própria paisagem participe desse trabalho de rememoração. Além disso, tenho reunido material (leituras, filmes, caminhadas) sobre um texto sobre montanhas que preciso escrever. Sou mineira, natural de Ouro Preto, então minha relação com as montanhas é profunda, biográfica, afetiva e carnal.

Fernanda Trías consegue algo muito difícil: escrever de forma profundamente poética e reflexiva sem abrir mão da força da narrativa. É um romance que combina intensidade emocional, complexidade formal e uma trama envolvente. Recomendo especialmente para quem gosta de livros que exploram a memória, as relações familiares, a solidão e os vínculos entre corpo, linguagem e paisagem".


Autora de mais de dez livros, professora de criação literária e pesquisadora independente, Flávia Péret organizou o curso Escrever-se em risco, com aulas nos dias 18 e 25 de junho, das 19h às 21h, em parceria com Salvo + Relicário Edições. O curso custa R$ 250. Interessou? Entre em contato: salvoconteudo@gmail.com

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