
"Ainda que não tivesse visto as zentas recomendações de Tati Bernardi, Christian Dunker, Milly Lacombe, Gregório Duvivier, Carol Pires e outros tantos produtores de podcast que escuto sempre que estou dirigindo, ainda assim acho que eu chegaria sozinha ao Análise (Zahar, 2025), da Vera Iaconelli. Apesar de ter jurado ficar um bom tempo sem ler autobiografias ou autoficções.
Isso porque, eu mesma, estou num momento de encantamento com a análise. Faz pouco menos de um ano que faço, e vejo um grande salto nas minhas elaborações em comparação à Terapia Cognitivo Comportamental que fazia antes. Então foi meu interesse pelo tema que me fez romper o hiato de autoficção para conhecer a escrita de Vera Iaconelli. Mas como o que interessa mesmo é a força da prosa, a leitura foi uma delícia. Do início ao fim, Vera nos carrega com uma escrita super envolvente.
Esse é um livro de memórias e que a todo tempo questiona o papel e os limites da psicanálise. A autora sai do lugar de analista para o de analisanda. Ela compartilha conosco toda a sua trajetória desde o primeiro divã até o encerramento de um longo ciclo de análise.
Esse livro desmistifica um pouco a ideia de um dia zerar o game da análise. Porque mesmo que um ciclo se encerre, o processo de elaboração não acaba nunca. Mas o livro não se resume a ser uma análise sobre análise. Ele é sobretudo um panorama da vida de uma mulher intelectual branca de classe média com uma afiada percepção sobre questões de gênero.
Nesse sentido, o livro é também um recorte do seu tempo, principalmente com relação às feridas do seu seio familiar. Vera é filha de uma mulher submissa e de um pai violento. O suco do patriarcado. Um dos temas recorrentes do livro é a relação conflituosa de Vera com seu pai. Um homem que, como milhares de brasileiros, mantinha uma outra família, e todos fingiam não saber.
Conjugando a história familiar com uma leitura psicanalítica, o livro tem passagens incríveis como essa aqui: 'Quando um homem divide o mundo entre santas e putas, fica difícil saber em que lugar colocar as próprias filhas: teme a autonomia do desejo, o lugar da puta, ao mesmo tempo que aspira a que elas sejam suficientemente atraentes aos olhos dos homens que as assumirem como esposas. As filhas são motivo de orgulho ao serem disputadas, mas sob a condição de se tornarem recatadas e do lar, pois sobre elas paira a ameaça de que o desejo feminino ponha tudo a perder. Para meu pai, era melhor que fôssemos eternas crianças, então'.
Indico esse livro para todo mundo que goste do tema da análise, mas também para qualquer pessoa que curta um livro denso mas de fácil leitura".
Maiara Líbano é escritora e cineasta, com o livro de contos Área reservada para pichadores amadores" (7Letras, 2023) e os curtas GIRA e O fantasma de Deodato (ambos de 2025) e do longa documental Eu, um outro: uma experiência na Justiça do Trabalho (2019) na bagagem. Foi produtora e roteirista do programa literário Trilha de Letras, da TV Brasil. Nos últimos anos, atuou como mediadora em debates na Flipoços, Flist, Flipei e LER Salão do Livro. Atualmente está escrevendo o seu primeiro longa de ficção.







