
"Estou lendo O mundo fora da Pedra, de Rita Carelli, publicado pela Zahar em 2026. Estou na página 86 de 295, ainda bem no comecinho, e a experiência tem sido surpreendente. Comecei a leitura há duas noites, e o livro já se revelou como um daqueles que a gente não consegue largar. Imaginei que seria uma leitura densa, difícil até, pelo caráter documental, mas Rita Carelli amarra os fatos históricos com uma narrativa-lanterna que vai nos guiando e apontando seus aspectos mais envolventes. A trama é narrada em tom de conversa e cheia de sacadas que nos arrancam um sorriso. Parece que a autora está ao seu lado, servindo um chá e contando uma parte desconhecida da narrativa nacional, pincelada com a sua própria história de vida e um relato de puerpério e, de uma maneira deliciosa, tudo faz sentido.
Até agora, a surpresa e o deslumbramento têm sido os sentimentos que mais me acompanharam na leitura deste livro. Mas há algo especialmente singular nele: é uma história que apenas Rita Carelli poderia contar. Isso me trouxe a sensação de novidade, de estar lendo algo realmente único, original, profundamente humano, em tempos de máquinas produtoras de textos. A autora nos presenteia com uma trama que mistura sua história pessoal, as pesquisas (e obsessões) de sua família e as suas próprias, tudo isso com um caldo de irreverência que ela parece ter emprestado dos Enawene Nawe. É muito bonito como, em meio a uma história trágica, a autora ainda consegue arrancar um sorriso, honrando essa alegria que ela tanto parece valorizar. Estas são apenas algumas das (boas) surpresas do livro.
A obra dialoga com a minha própria pesquisa sobre maneiras de narrar a crise climática. Parto do princípio de que esta crise seja uma ruptura nos nossos modos de vida e de narrar, que precisamos urgentemente encontrar formas de dar conta desse novo contexto sistêmico que determina nossas singularidades. O mundo fora da pedra nos apresenta a diferentes modos de vida, em especial o dos Enawene Nawe, com sua rotina ritualizada, que utilizam a alegria e a liberdade para combater um projeto de mundo hegemônico e destrutivo. A autora também lança mão de um formato original, misturando a história de figuras esquecidas pela narrativa nacional, relatos íntimos, memórias de infância e documentos oficiais. Um projeto de mundo distinto está presente não apenas no conteúdo, mas também na forma.
Recomendo este livro porque Rita Carelli nos mostra que é possível falar de assuntos de extrema seriedade sem sisudez ou cinismo, abraçando a alegria, o maravilhamento e a irreverência. Para mim, essas são ferramentas indispensáveis para imaginar projetos de mundo em que a vida é prioritária".
Escritora, roteirista, narrative designer de jogos digitais e pesquisadora, Mariana Brecht é autora de Brazza (Editora Moinhos, 2021), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, Labirinto (Editora Jandaíra, 2021), A menina com os pés no chão (Florear Livros, 2023), finalista do Prêmio Jabuti, Foi acabar bem na nossa vez (Rocco, 2025) e o lançamento infanto-juvenil Cyber PANC e Só Zé, publicado este ano pelo Escarlate, selo da Companhia das Letras.






