
Ela é jornalista, eu também fui, e me identifiquei com sua linguagem sem excessos ou firulas, como a de Graciliano Ramos (1892-1953). Ela se coloca a serviço da história e faz isso com segurança. Sou apaixonada por literatura brasileira. Seguramente poderia ficar na porta das livrarias e, para cada consumidor que saísse com um livro estrangeiro, propor uma troca: “Ei, esse aí é bom, mas já leu este outro, de autor nacional?”. Faria isso por gosto e porque ainda somos profundamente colonizados culturalmente. Nossa média de leitura é muito baixa e nosso acesso ao mercado, difícil para ignorarmos o que nos formou.
Erva brava foi indicado ao Jabuti não à toa. São doze contos ambientados no interior de Goiás, onde a autora cresceu, com personagens costurados por algumas paisagens comuns: a cidade de Buriti Pequeno e o Rio Amanaçú, fictícios, e a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos — esta, real. É um mundo que está desaparecendo. Mudanças econômicas, sociais e climáticas vêm descaracterizando várias regiões brasileiras, mas, em especial, o Centro-Oeste do agronegócio.
Apesar do tom levemente político e irônico do livro, Paulliny segue determinada a não cair no clichê. Pelo contrário, tem muito carinho pelos personagens. Disse, em entrevistas, que todos se baseiam em pessoas que conheceu. É profunda. Cada conto traz um estilo e um foco de acordo com o que narra. No conto Má sorte, um dos melhores, o leitor é transportado para um silo de soja, onde um rapaz enfrenta quatro mil toneladas de grãos com o próprio corpo. Em A mulher do pombo, a esposa do prefeito teima em colocar pombos na praça da cidade, porque eles são “indício de civilidade, basta ver Paris”. Há também uma parteira, um casal de roceiros, o último sineiro. São contrastes entre o novo e o antigo — os cracudos que chegam a Buriti Pequeno, as beatas da igreja.
Erva brava é um alento para quem acompanha o mercado editorial contemporâneo, repleto de histórias excelentes, mas majoritariamente urbanas. O mundo de Paulliny tem ingazeiros, buritis, tinguizeiros, árvores que brotam em clima árido, mas forte. Que elas nos inspirem a nos arriscarmos na leitura e na escrita para além de nossa zona de conforto."
Jornalista e escritora, Maria Silvia Camargo já publicou oito livros, dos quais três são de não-ficção: Mulher & trabalho - 32 histórias (34Letras, 1997), 24 dias por hora — Quanto tempo o tempo tem? (Rocco, 2000) e O que é ser editor de cinema (Record, 2004). Ela também lançou dois infantis —Quem é que te ajuda? (Memória Visual, 2013) e Para onde vai o que se perde? (Leiturinha, 2024) — e dois romances: Quando ia me esquecendo de você (7 Letras, 2012), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e Leite de Cadela (7 Letras, 2016). Em 2024, lançou o seu primeiro livro de contos, O buraco do mundo (Numa).






