O que estou lendo: Maria Silvia Camargo
PublishNews, Monica Ramalho, 25/02/2026
"O mundo de Paulliny tem ingazeiros, buritis, tinguizeiros, árvores que brotam em clima árido, mas forte. Que elas nos inspirem a nos arriscarmos na leitura e na escrita para além de nossa zona de conforto", diz

"Acabo de ler Erva brava (Fósforo, 2021), da Paulliny Tort. Ouvi falar dele na Feira do Livro de São Paulo no ano passado. Comprei-o junto a outros livros de editoras pequenas e médias. Dou preferência aos autores brasileiros e às editoras menores. Meus livros de ficção também foram lançados por editoras alternativas — são elas que mudam o mercado, apresentam novas vozes, novos modos de contar. Fico feliz em ter conhecido a Paulliny, pois agora posso recomendá-la.

Ela é jornalista, eu também fui, e me identifiquei com sua linguagem sem excessos ou firulas, como a de Graciliano Ramos (1892-1953). Ela se coloca a serviço da história e faz isso com segurança. Sou apaixonada por literatura brasileira. Seguramente poderia ficar na porta das livrarias e, para cada consumidor que saísse com um livro estrangeiro, propor uma troca: “Ei, esse aí é bom, mas já leu este outro, de autor nacional?”. Faria isso por gosto e porque ainda somos profundamente colonizados culturalmente. Nossa média de leitura é muito baixa e nosso acesso ao mercado, difícil para ignorarmos o que nos formou.

Erva brava foi indicado ao Jabuti não à toa. São doze contos ambientados no interior de Goiás, onde a autora cresceu, com personagens costurados por algumas paisagens comuns: a cidade de Buriti Pequeno e o Rio Amanaçú, fictícios, e a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos — esta, real. É um mundo que está desaparecendo. Mudanças econômicas, sociais e climáticas vêm descaracterizando várias regiões brasileiras, mas, em especial, o Centro-Oeste do agronegócio.

Apesar do tom levemente político e irônico do livro, Paulliny segue determinada a não cair no clichê. Pelo contrário, tem muito carinho pelos personagens. Disse, em entrevistas, que todos se baseiam em pessoas que conheceu. É profunda. Cada conto traz um estilo e um foco de acordo com o que narra. No conto Má sorte, um dos melhores, o leitor é transportado para um silo de soja, onde um rapaz enfrenta quatro mil toneladas de grãos com o próprio corpo. Em A mulher do pombo, a esposa do prefeito teima em colocar pombos na praça da cidade, porque eles são “indício de civilidade, basta ver Paris”. Há também uma parteira, um casal de roceiros, o último sineiro. São contrastes entre o novo e o antigo — os cracudos que chegam a Buriti Pequeno, as beatas da igreja.

Erva brava é um alento para quem acompanha o mercado editorial contemporâneo, repleto de histórias excelentes, mas majoritariamente urbanas. O mundo de Paulliny tem ingazeiros, buritis, tinguizeiros, árvores que brotam em clima árido, mas forte. Que elas nos inspirem a nos arriscarmos na leitura e na escrita para além de nossa zona de conforto."


Jornalista e escritora, Maria Silvia Camargo já publicou oito livros, dos quais três são de não-ficção: Mulher & trabalho - 32 histórias (34Letras, 1997), 24 dias por hora Quanto tempo o tempo tem? (Rocco, 2000) e O que é ser editor de cinema (Record, 2004). Ela também lançou dois infantis —Quem é que te ajuda? (Memória Visual, 2013) e Para onde vai o que se perde? (Leiturinha, 2024) — e dois romances: Quando ia me esquecendo de você (7 Letras, 2012), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e Leite de Cadela (7 Letras, 2016). Em 2024, lançou o seu primeiro livro de contos, O buraco do mundo (Numa).

[25/02/2026 08:04:56]