
Resultado de um processo criativo iniciado durante a pandemia de Covid-19, em meio ao luto coletivo, o livro nasce do diálogo entre os desenhos em nanquim e guache de Sara e o texto poético de Tom Nóbrega. Inspirada por um itã iorubá e por referências da cosmologia Bantu e do candomblé Angola, a publicação propõe uma reflexão sobre os ciclos de nascimento, queda e renascimento.
Mais do que livro ilustrado, Guiné estrutura-se como campo de criação compartilhado, em que texto e imagem operam em simbiose. A narrativa se passa em uma cidade africana e evoca tanto a região do continente quanto a erva de proteção associada ao título, sugerindo um espaço de passagem e espiritualidade.
O branco como presença
A obra tensiona a ideia ocidental da morte como ausência ou escuridão. Em Guiné, o branco ocupa o centro da experiência simbólica.
“No candomblé, o uso das vestimentas brancas e a pintura de elementos circulares brancos no corpo dos iniciados — em reverência à galinha-d’angola — sinalizam o contato com essa dimensão ancestral. Por isso, o vazio da página é o espaço para o novo ciclo”, afirma Sara Lambranho em release distribuído aos jornalistas.
Nos desenhos, as hachuras em nanquim criam ritmo e continuidade, sugerindo transformação constante. “O desafio de trabalhar com o branco foi menos técnico e mais simbólico. O papel já era branco — então a questão era como preservá-lo. Na cosmologia Bantu, matriz do candomblé Angola, o branco está associado ao mundo dos mortos e dos ancestrais. Ele marca o ciclo vida-morte-renascimento e representa o estado espiritual que antecede um novo retorno”, explica a artista no material à imprensa.
A morte surge como movimento. “A morte não é ruptura, mas passagem: um trânsito que reinscreve a energia de quem partiu no território. Visualmente, busquei construir imagens em que a queda atravessa diferentes esferas da vida na cidade — humanos, plantas e animais”, reflete, na nota. “As hachuras feitas com caneta nanquim criam um ritmo e imprimem um movimento contínuo, como um pulsar interno nos elementos, conectando os seres em uma relação permanente.”
Texto e imagem em diálogo
A parceria com Tom Nóbrega estrutura o livro como experiência compartilhada. O texto, de teor poético, aborda memória e “corpo-história”, enquanto o traço expande os sentidos das palavras, sem função ilustrativa convencional.
Em Guiné, as figuras permanecem em trânsito: humano, animal e planta se atravessam. O livro propõe borrar fronteiras e reinscrever a finitude dentro de um ciclo maior, ancorado em tradições afro-diaspóricas.
Sara Lambranho nasceu em Santo André (SP), em 1983. É artista multidisciplinar, designer e ilustradora. Graduada em Artes Visuais pela Escola Guignard (UEMG) e mestre pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), investiga em seu trabalho as relações entre território, natureza, identidade e processos históricos de exclusão e resistência. Vive em Belo Horizonte.
Tom Nóbrega nasceu em São Paulo (SP), em 1984, onde vive. Graduado em Filosofia pela USP, cursa mestrado em Artes na Unesp. Atua como poeta e tradutor, com trabalhos que transitam entre literatura, dança e arte sonora.






