Sara Lambranho e Tom Nobrega investigam morte e ancestralidade a partir do branco
PublishNews, Redação, 24/02/2026
'Guiné' articula desenho em nanquim e texto poético para refletir sobre luto, espiritualidade e cosmologias afro-diaspóricas e chega às livrarias pela Relicário

Sara Lambranho e Tom Nóbrega © Divulgação
Sara Lambranho e Tom Nóbrega © Divulgação
A artista visual Sara Lambranho vai lançar no próximo sábado, dia 28 de fevereiro, o livro Guiné (Relicário), obra que articula imagem e palavra para investigar a morte como trânsito e a ancestralidade como permanência. O evento será realizado na Livraria Jenipapo (Rua Fernandes Tourinho, 241 — Belo Horizonte / MG).

Resultado de um processo criativo iniciado durante a pandemia de Covid-19, em meio ao luto coletivo, o livro nasce do diálogo entre os desenhos em nanquim e guache de Sara e o texto poético de Tom Nóbrega. Inspirada por um itã iorubá e por referências da cosmologia Bantu e do candomblé Angola, a publicação propõe uma reflexão sobre os ciclos de nascimento, queda e renascimento.

Mais do que livro ilustrado, Guiné estrutura-se como campo de criação compartilhado, em que texto e imagem operam em simbiose. A narrativa se passa em uma cidade africana e evoca tanto a região do continente quanto a erva de proteção associada ao título, sugerindo um espaço de passagem e espiritualidade.

O branco como presença

A obra tensiona a ideia ocidental da morte como ausência ou escuridão. Em Guiné, o branco ocupa o centro da experiência simbólica.

“No candomblé, o uso das vestimentas brancas e a pintura de elementos circulares brancos no corpo dos iniciados — em reverência à galinha-d’angola — sinalizam o contato com essa dimensão ancestral. Por isso, o vazio da página é o espaço para o novo ciclo”, afirma Sara Lambranho em release distribuído aos jornalistas.

Nos desenhos, as hachuras em nanquim criam ritmo e continuidade, sugerindo transformação constante. “O desafio de trabalhar com o branco foi menos técnico e mais simbólico. O papel já era branco — então a questão era como preservá-lo. Na cosmologia Bantu, matriz do candomblé Angola, o branco está associado ao mundo dos mortos e dos ancestrais. Ele marca o ciclo vida-morte-renascimento e representa o estado espiritual que antecede um novo retorno”, explica a artista no material à imprensa.

A morte surge como movimento. “A morte não é ruptura, mas passagem: um trânsito que reinscreve a energia de quem partiu no território. Visualmente, busquei construir imagens em que a queda atravessa diferentes esferas da vida na cidade — humanos, plantas e animais”, reflete, na nota. “As hachuras feitas com caneta nanquim criam um ritmo e imprimem um movimento contínuo, como um pulsar interno nos elementos, conectando os seres em uma relação permanente.”

Texto e imagem em diálogo

A parceria com Tom Nóbrega estrutura o livro como experiência compartilhada. O texto, de teor poético, aborda memória e “corpo-história”, enquanto o traço expande os sentidos das palavras, sem função ilustrativa convencional.

Em Guiné, as figuras permanecem em trânsito: humano, animal e planta se atravessam. O livro propõe borrar fronteiras e reinscrever a finitude dentro de um ciclo maior, ancorado em tradições afro-diaspóricas.

Sara Lambranho nasceu em Santo André (SP), em 1983. É artista multidisciplinar, designer e ilustradora. Graduada em Artes Visuais pela Escola Guignard (UEMG) e mestre pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), investiga em seu trabalho as relações entre território, natureza, identidade e processos históricos de exclusão e resistência. Vive em Belo Horizonte.

Tom Nóbrega nasceu em São Paulo (SP), em 1984, onde vive. Graduado em Filosofia pela USP, cursa mestrado em Artes na Unesp. Atua como poeta e tradutor, com trabalhos que transitam entre literatura, dança e arte sonora.

[24/02/2026 10:05:12]