
A partir daí a gente entra no trem na Central do Brasil e começa a explorar cada estação rumo à formação dos subúrbios, a hinterlândia carioca.
Estou degustando nesse exato momento o trecho que desembarcamos no Méier, minha terra, capital do subúrbio da central, como canta João Nogueira. Passeando por ruas bem próximas aqui da Belle Époque, como a Rua Aristides Caire, onde Agrippino Grieco vivia com seus 35 mil livros, ou passar pela esquina da Rua José Bonifácio com a Avenida Suburbana, onde Lima Barreto costumava a ler os seus jornais nos botecos. Hoje a tristeza é olhar esses endereços nobre que foram transformados em apenas farmácias. Apesar da verticalização acelerada da região, ainda conseguimos observar muitos imóveis do início do século passado e fica quase impossível não imaginar esbarrando com Lima ou Cruz e Souza por uma botica ou quitandinha locais. Mas esse papel, o texto do Nei faz com maestria, com a malemolência do malandro carioca, cada palavra e descrição desce leve, refrescante, como um copo de cerveja num botequim de beira de estação depois de um dia de trabalho. A cada crônica, cada personagem cativante, a gente espera mais um gole, mais um causo, mais numa estação, como se tivesse em uma viagem no passado.
Nas últimas páginas nos deparamos com uma vasta referência bibliográfica com muitos livros, dicionários e periódicos. Claro que eu como livreiro já estou doido para achar cada uma dessas pérolas para compor o acervo da Belle.
Acredito que Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos deva ser degustado por quem quer entender um pouco do jeitinho carioca e por todo carioca apaixonado por cultura popular e sua formação, apaixonado pela carioquice, pois essa foi se formando a cada estação de trem que corta essa cidade! Pra você sentar na esquina hoje, pedir uma gelada e bater aquele papo descontraído, curtir um samba num beco, uma capoeira na praça, poesia nos lugares mais inusitados, e pular nos blocos de carnaval do jeito que só nessa cidade acontece, muita gente correu, abriu mata, apanhou de cacetete na quarta de cinzas (alô, Chave de Ouro) ou como eles mesmos dizem, caminharam para que a gente pudesse correr! E por essas páginas a gente tem o ponto de partida - a estação — para explorar e exaltar todos esses nomes e lugares que fazem parte da alma carioca.
Sobre o termo 'Guimbaustrilho', se você não imagina o que seja, leia. Malandro não dá informação de mão beijada.
Salve os subúrbios! Salve a malandragem!"
Livreiro e agitador cultural da Zona Norte carioca, Ivan Costa é o fundador da Belle Époque Discos & Livros, no Méier, espaço que se consolidou como polo de encontros literários, saraus e feiras criativas desde 2018. Presidente da Associação Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro (AEL-RJ), Ivan atua na defesa das livrarias independentes e na articulação do setor no Estado.






