
No livro, Gisèle revisita os anos em que foi drogada repetidamente pelo então marido, que a deixava inconsciente e convidava dezenas de homens para violentá-la. O caso resultou na condenação do ex-marido a 20 anos de prisão e de outros 50 homens. Ao longo de quatro meses de julgamento, que mobilizou a opinião pública mundial, ela decidiu abrir mão do direito ao anonimato — decisão da qual afirma não se arrepender.
“Sou imensamente grata pelo apoio extraordinário que recebi desde o início do julgamento. Agora quero contar minha história com minhas próprias palavras. Por meio deste livro, espero compartilhar uma mensagem de força e coragem a todas as pessoas que são submetidas às mais penosas provações. Que elas nunca sintam vergonha. E, com o tempo, que aprendam a aproveitar a vida novamente e encontrem paz”, disse Gisèle Pelicot, em nota publicada no site da Companhia das Letras.
Gisèle descreveu o momento em que compreendeu a dimensão dos crimes como “um tsunami” durante entrevista ao programa Newsnight, da BBC. Hoje com 73 anos, ela afirmou ter ficado “devastada pelo terror” ao descobrir a extensão dos abusos e relembrou a dificuldade de contar aos três filhos sobre o que o pai deles havia feito. Ela declarou que ainda guarda perguntas ao ex-marido sem respostas.
Apesar da violência sofrida (que levou a problemas de memória e repetidos episódios de doenças ginecológicas) o livro se constrói como narrativa de reconstrução. Em recentes entrevistas, ela revelou ter reencontrado o amor após o julgamento e sustenta, no título e na postura pública, a convicção de que “a vergonha precisa mudar de lado” — deslocando o peso social da culpa das vítimas para os agressores.
Com lançamento simultâneo em diversos países, a obra amplia o debate internacional sobre violência sexual, consentimento e responsabilização, deslocando o foco da vergonha das vítimas para os agressores — mensagem que estrutura tanto o título quanto a atuação pública da autora.
Gisèle Pelicot foi eleita a pessoa mais notável de 2024 em pesquisa de opinião na França e homenageada pela revista Time. No Dia Internacional da Mulher do ano passado, o The Independent a considerou a mulher mais influente de 2025.






