Memórias de Gisèle Pelicot chegam às livrarias
PublishNews, Monica Ramalho, 18/02/2026
Livro já está à venda na Franca e edição brasileira será lançada na próxima semana, pela Companhia das Letras, com o título 'Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado'

Um dos casos mais chocantes dos últimos tempos acaba de virar livro: Et la joie de vivre chegou nas livrarias francesas nesta terça (17) com o relato autobiográfico de Gisèle Pelicot, mulher que esteve no centro de um dos julgamentos mais impactantes sobre estupro na história. Publicado pela Flammarion, o livro tem tiragem inicial de 150 mil exemplares e já foi traduzido para 22 idiomas. A edição brasileira será lançada na próxima terça-feira, 24 de fevereiro, pela Companhia das Letras, com o título Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado.

No livro, Gisèle revisita os anos em que foi drogada repetidamente pelo então marido, que a deixava inconsciente e convidava dezenas de homens para violentá-la. O caso resultou na condenação do ex-marido a 20 anos de prisão e de outros 50 homens. Ao longo de quatro meses de julgamento, que mobilizou a opinião pública mundial, ela decidiu abrir mão do direito ao anonimato — decisão da qual afirma não se arrepender.

“Sou imensamente grata pelo apoio extraordinário que recebi desde o início do julgamento. Agora quero contar minha história com minhas próprias palavras. Por meio deste livro, espero compartilhar uma mensagem de força e coragem a todas as pessoas que são submetidas às mais penosas provações. Que elas nunca sintam vergonha. E, com o tempo, que aprendam a aproveitar a vida novamente e encontrem paz”, disse Gisèle Pelicot, em nota publicada no site da Companhia das Letras.

Gisèle descreveu o momento em que compreendeu a dimensão dos crimes como “um tsunami” durante entrevista ao programa Newsnight, da BBC. Hoje com 73 anos, ela afirmou ter ficado “devastada pelo terror” ao descobrir a extensão dos abusos e relembrou a dificuldade de contar aos três filhos sobre o que o pai deles havia feito. Ela declarou que ainda guarda perguntas ao ex-marido sem respostas.

Apesar da violência sofrida (que levou a problemas de memória e repetidos episódios de doenças ginecológicas) o livro se constrói como narrativa de reconstrução. Em recentes entrevistas, ela revelou ter reencontrado o amor após o julgamento e sustenta, no título e na postura pública, a convicção de que “a vergonha precisa mudar de lado” — deslocando o peso social da culpa das vítimas para os agressores.

Com lançamento simultâneo em diversos países, a obra amplia o debate internacional sobre violência sexual, consentimento e responsabilização, deslocando o foco da vergonha das vítimas para os agressores — mensagem que estrutura tanto o título quanto a atuação pública da autora.

Gisèle Pelicot foi eleita a pessoa mais notável de 2024 em pesquisa de opinião na França e homenageada pela revista Time. No Dia Internacional da Mulher do ano passado, o The Independent a considerou a mulher mais influente de 2025.

[18/02/2026 11:16:59]