
Talvez seja bizarro fazer uma confissão dessa na véspera da folia. Para muitos, essa declaração pode soar quase como um insulto. Mas tenho a convicção de que não estou sozinha nesse time.
Basta a virada do ano e o assunto passa a ocupar todos os espaços. Blocos de rua acontecem já no primeiro final de semana de janeiro. O planejamento da folia domina conversas entre amigos. Notícias de jornal, influencers e celebridades dando receitas para entrar em forma. Looks, o hit do carnaval… O cotidiano parece se organizar em função da festa.
Entra fevereiro e a cidade inicia uma contagem regressiva para a celebração coletiva que parece não admitir dissidência. Quem não gosta é olhado de lado, como um ser de outro planeta.
Ame ou odeie: por que o Carnaval provoca emoções tão conflitantes? A psicologia responde.
Esse foi o título de uma matéria publicada em 05 de fevereiro no jornal O Globo. É claro que me interessei. Saber que existe uma explicação científica para a minha rejeição foi um alívio.
Segundo a reportagem, o Carnaval ativa múltiplos estímulos sensoriais simultâneos, o que pode gerar reações opostas em diferentes indivíduos. O excesso de estímulos impacta diretamente o sistema límbico, responsável pelas emoções, pelo prazer e pelo estresse.
A psiquiatra entrevistada explicou que algumas pessoas vivenciam euforia, prazer e sensação de pertencimento, porque seu organismo libera mais dopamina, endorfina e ocitocina. Outras pessoas, porém, liberam mais cortisol e noradrenalina, e o cérebro interpreta o excesso como algo imprevisível e invasivo, aumentando a ansiedade e a irritação.
Contudo, longe das explicações neuropsicológicas, o incômodo não está na festa em si, mas na pressão de pertencer a algo em que não se encaixa.
Essa sensação não é exclusiva do Carnaval. A própria literatura é um bom exemplo disso. Quantas vezes um livro se torna unanimidade e custamos a entender o porquê. O título do momento, o romance “imperdível” — e, de repente, não gostar dele parece quase um desvio de conduta? O problema não é o livro. É a expectativa de que todos sintam a mesma coisa.
Essa pressão também é mercadológica. O mercado editorial vive de ciclos. Há sempre um gênero dominante, um estilo predominante ou um “livro do momento”. As redes sociais amplificam essa lógica: não basta ler, é preciso ler o que está em alta. Não basta gostar, é preciso gostar do que todos estão comentando.
Mas leitura não é competição e não deveria ser obrigação. A experiência literária é íntima e intransferível e, de preferência, prazerosa. Um best-seller pode não tocar todo mundo e isso não invalida nem o livro, nem o autor, muito menos o leitor.
A leitura, quando vira obrigação social, perde sua função essencial. Ler não é concordar, muito menos aderir sem se encontrar. É preciso se reconhecer. Às vezes, determinada narrativa simplesmente não fala com você. E isso também é legítimo.
Durante muito tempo leitores da comunidade LGBTQIA+ não se viam representados nos livros. Não era desinteresse pela leitura, mas falta de conexão. O distanciamento vinha da exclusão. Felizmente, há alguns anos, isso vem mudando e a literatura queer segue crescendo. Ganham os leitores, os autores, o mercado e a cultura.
Cultura que só funciona por adesão obrigatória não gera sensação de pertencimento. Nem toda festa é para todo mundo. Nem todo livro precisa ser amado. Nem toda experiência coletiva precisa ser compartilhada da mesma forma.
Talvez o verdadeiro exercício de convivência esteja aí: aceitar que nem todos vibram no mesmo ritmo. Que gostar é escolha. E que não se sentir parte de um todo, às vezes, é apenas sinal de que ainda estamos criando outros espaços para viver.

* Luciana de Gnone é uma autora e roteirista de ficção policial conhecida por suas narrativas que destacam o protagonismo feminino. Nascida em Brasília e radicada no Rio de Janeiro há mais de 40 anos, ela tem 6 livros publicados. Seu lema é 'menos sangue gráfico e mais investigação', com um foco nas dinâmicas sociais que desafiam a sociedade contemporânea. Recebeu uma Menção Honrosa da Academia de Letras e Música do Brasil e semifinalista do 7º Prêmio ABERST de Literatura em 2024. Luciana também produz a newsletter #Evidenciando e administra o perfil @elasinvestigam no Instagram, dedicado a fãs de entretenimento policial protagonizado por mulheres.






