O que estou lendo: Tina França
PublishNews, Monica Ramalho, 28/01/2026
"Recomendo essa leitura como uma viagem profunda à essência humana, ao entendimento da força da identidade e do amor, aquilo que verdadeiramente dá sentido ao que somos", diz

"Minha mesa de cabeceira sempre tem uma pilha de livros, que vão da biografia de Maria Callas à Gestão Financeira, passando por desafios de como lidar com a infância hiper conectada. Sempre fui uma leitora voraz e alternativa, mas a maternidade e, principalmente, minha própria hiper conectividade em tempos de home office, fizeram esta pilha crescer e se acumular — a gente lê aos poucos e continua firme na lista de desejos.

Apaixonada pelos livros físicos, foi só na pandemia que me rendi ao leitor de livros digitais, por sua capacidade de armazenamento, praticidade em viagens, desconectividade e principalmente pela luminosidade própria. Não sou mais a mesma leitora voraz de outrora, mas consegui incluir minha pilha de livros na rotina desvairada. Digo isso por que muitas pessoas me perguntam onde arrumo tanto tempo para ler e sempre respondo que um e-book ajuda muito, nem de abajur a gente precisa. Mas confesso, alguns romances leio de forma hibrida (tenho o exemplar digital e o físico) - que o carinho de um livro a tira colo não consigo abrir mão.

Quando vi que ao longo do ano tinha lido apenas dez páginas de 1.000 livros diferentes, sem terminar nenhum, decidi ler oficialmente apenas dois livros ao mesmo tempo – um técnico e um romance. Estou lendo Digital threads: The small business and entrepreneur playbook for digital first marketing, do Neal Schaffer, um guia para empreendedores de pequenos negócios que desejam construir presença e resultados efetivos no ecossistema digital. Uma verdadeira Chatice Necessária, mas é de longe o melhor que li na área de marketing e já estou aplicando na venda do meu próprio livro, super indico.

Entrei em janeiro lendo A cabeça do santo, da Socorro Acioli, indicação ganhadora de uma enquete que fizemos nas redes sociais do meu livro Chatices necessárias, sobre finanças. Na sequência o próprio algoritmo me sugeriu o titulo Oração para desaparecer, também da Socorro, os dois da Companhia das Letras, o livro que escolhi recomendar.

Socorro, me faltam palavras para descrever o que foi essa leitura. Acabei de ler nesta madrugada, porque é desses livros que não conseguimos parar. Eu já vinha embalada pelas vozes femininas na cabeça de Santo Antônio (e na minha) e logo me vi totalmente imersa no clima do livro. Tem um tom histórico que dá ao roteiro um realismo extraordinariamente pertencente ao fantástico. O conflito colonizadores e povos originários, onde está e qual é o verdadeiro poder? Uma mistura de mistério, violência, ancestralidade, raízes, rituais, paixões, poder, símbolos, cuidado, amores, crenças, misticismo, ricas paisagens e toda poesia que navega na água doce ou salgada, santa ou profana.

Marquei mais de 30 passagens que me apunhalaram, mas uma em especial foi paralizante, reli muitas vezes: "Então a partir de agora serei uma invenção? Todos nós somos a invenção de alguém”, diz, um determinado trecho. Achei tão lindo isso, o reconhecimento de que nos inventamos o tempo todo, a potência que habita na liberdade da reconstrução. Nos inventamos por nós mesmos e a partir da leitura do outro. Um pouco como o ofício do escritor, paradoxo na limitação do tempo como recurso. Tempo que se perpetua e expande pelo olhar do leitor.

Trabalho com pessoas, tanto na arte quanto nas finanças, então a busca desse entendimento da complexidade humana, da identidade, da cultura e ancestralidade é que me permite ser, fazer e me comunicar. Esse livro dialoga o tempo todo com essas questões.

Nossa vida segue assoberbada de demandas — e quantas vezes mais sobrevivemos aos dias do que efetivamente os vivemos? É como se deixássemos morrer, ainda em vida, nossa própria identidade, enterrada a sete palmos por medos, expectativas e cobranças. Recomendo a leitura de Oração para desaparecer como uma viagem profunda à essência humana, ao entendimento da força da identidade e do amor — aquilo que verdadeiramente dá sentido ao que somos. Não importa apenas o que sabemos; muitas vezes, são as lembranças ancestrais intangíveis que nos moldam. É preciso amar e respeitar nossa história — nossa oração cotidiana. Obrigada, Socorro Acioli. Amém".


* Tina França é engenheira, escritora, ilustradora e cantora lírica, apaixonada por crianças, tanto é que escreveu dois livros infantis: A menina descabeluda (2022) e O menino e a formiga (2023). Em 2025 foi a vez de lançar um para adultos, Gerenciando Chatices Necessárias: um grande plano financeiro para um pequeno negócio, escrito a quatro mãos com Bianca Chinelli. Os três livros são da Editora Bloco Narrativo, de Bruno Drummond.

[28/01/2026 09:42:23]