
É um livro que evoca de Pier Paolo Pasolini (1922-1975) a Jorge Luis Borges (1899-1986) para refletir sobre a possibilidade de recontar a História, de entender, através da polarização entre os restos do fascismo e as Brigadas Vermelhas, a briga universal pelo poder, que corrói instituições, Estados e a sociedade de qualquer país, da Europa à América Latina, e seus povos, sejam árabes, judeus ou persas.
Com esta leitura, estou tentando aprofundar também os meus conhecimentos sobre a política e a sociedade italiana, temas que passaram a me interessar mais detidamente desde que comecei a ler a obra de Elena Ferrante, sobretudo desde a publicação da tetralogia napolitana. Nestes quatro livros de Ferrante, que narram desde a infância até a velhice a amizade entre as personagens Lenu e Lila, estão acontecimentos políticos da Itália desde o pós-guerra. A influência da máfia nos bairros pobres de Nápoles, as lutas, protestos e conquistas feministas da década de 1970, além dos anos de disputa política entre os comunistas e os democrata-cristãos e os atos terroristas das Brigadas Vermelhas, como o sequestro de Aldo Moro em 16 de março de 1978 e a sua morte, no dia 9 de maio, 55 dias depois.
O ator italiano Fabrizio Gifuni, que interpretou o Nino na série sobre a tetralogia napolitana e também o político Aldo Moro, na série Noite exterior, sobre Aldo Moro, se referiu a este momento na Itália, com as mortes de Pasolini em 1975 e Moro, em 1978, a uma “falha sísmica”. Segundo ele, é como se os corpos dos dois, vistos de cima, traçassem esta espécie de rachadura, como o terremoto de Irpinia que devastou a região da Campania em 1980. E o que restou dali? Para o ator, é como se tivessem ficado enterradas a capacidade da sociedade italiana de recordar, de acessar essas memórias para querer entender o passado e se defrontar com o presente do país.
A leitura do livro de Sciascia é justamente uma forma de lembrar e o seu grande mérito é nos ajudar a entender o presente em que vivemos, de conflitos e polarizações. Tudo isso numa prosa elegante e literária".
Aluna do mestrado em Estudos Literários na UFF, a jornalista e escritora Cláudia Lamego faz mediação e curadoria do seu Clube de Leituras Italianas online, dos clubes de leitura do Instituto Italiano de Cultura, das livrarias Janela e Alento, e do Clube F. da Bazar do Tempo. Autora da plaquete Pai, você nunca leu nada do que escrevi (MapaLab + Janela, 2025), escreve semanalmente na newsletter Os livros da Lamego e está no mais recente episódio do podcast Um Oceano Delas.






