O que estou lendo: Cláudia Lamego
PublishNews, Monica Ramalho, 04/03/2026
"O grande mérito dessa leitura é nos ajudar a entender o presente em que vivemos, de conflitos e polarizações. Tudo isso numa prosa elegante e literária', diz a jornalista e mediadora

"Um dos livros que estou lendo neste momento é O caso Moro, do escritor italiano Leonardo Sciascia (tradução de Federico Carotti, para o selo Manjuba, da editora Mundaréu), que será a leitura de abril do meu clube de leituras italianas online. Sciascia escreveu livros de ficção e não-ficção, e nesta obra sobre o assassinato de Aldo Moro, um dos casos políticos mais rumorosos da Itália, utiliza a sua verve e experiência de ficcionista para revisitar as cartas da prisão do então presidente do Partido Democrata Cristão, o clima político na Itália dos anos de chumbo e as suas referências literárias para se perguntar o que estava nas entrelinhas, nos silêncios e nos não-ditos dessa correspondência e das declarações públicas de políticos e da imprensa de então.

É um livro que evoca de Pier Paolo Pasolini (1922-1975) a Jorge Luis Borges (1899-1986) para refletir sobre a possibilidade de recontar a História, de entender, através da polarização entre os restos do fascismo e as Brigadas Vermelhas, a briga universal pelo poder, que corrói instituições, Estados e a sociedade de qualquer país, da Europa à América Latina, e seus povos, sejam árabes, judeus ou persas.

Com esta leitura, estou tentando aprofundar também os meus conhecimentos sobre a política e a sociedade italiana, temas que passaram a me interessar mais detidamente desde que comecei a ler a obra de Elena Ferrante, sobretudo desde a publicação da tetralogia napolitana. Nestes quatro livros de Ferrante, que narram desde a infância até a velhice a amizade entre as personagens Lenu e Lila, estão acontecimentos políticos da Itália desde o pós-guerra. A influência da máfia nos bairros pobres de Nápoles, as lutas, protestos e conquistas feministas da década de 1970, além dos anos de disputa política entre os comunistas e os democrata-cristãos e os atos terroristas das Brigadas Vermelhas, como o sequestro de Aldo Moro em 16 de março de 1978 e a sua morte, no dia 9 de maio, 55 dias depois.

O ator italiano Fabrizio Gifuni, que interpretou o Nino na série sobre a tetralogia napolitana e também o político Aldo Moro, na série Noite exterior, sobre Aldo Moro, se referiu a este momento na Itália, com as mortes de Pasolini em 1975 e Moro, em 1978, a uma “falha sísmica”. Segundo ele, é como se os corpos dos dois, vistos de cima, traçassem esta espécie de rachadura, como o terremoto de Irpinia que devastou a região da Campania em 1980. E o que restou dali? Para o ator, é como se tivessem ficado enterradas a capacidade da sociedade italiana de recordar, de acessar essas memórias para querer entender o passado e se defrontar com o presente do país.

A leitura do livro de Sciascia é justamente uma forma de lembrar e o seu grande mérito é nos ajudar a entender o presente em que vivemos, de conflitos e polarizações. Tudo isso numa prosa elegante e literária".


Aluna do mestrado em Estudos Literários na UFF, a jornalista e escritora Cláudia Lamego faz mediação e curadoria do seu Clube de Leituras Italianas online, dos clubes de leitura do Instituto Italiano de Cultura, das livrarias Janela e Alento, e do Clube F. da Bazar do Tempo. Autora da plaquete Pai, você nunca leu nada do que escrevi (MapaLab + Janela, 2025), escreve semanalmente na newsletter Os livros da Lamego e está no mais recente episódio do podcast Um Oceano Delas.

[04/03/2026 09:32:53]