
Com o despojamento de uma escritora experiente, Maria Valéria se lança ao exercício de habitar outras poéticas, compondo textos que assumem o diálogo como método. O resultado é um livro que celebra a literatura como território coletivo, onde narrativas se transformam, se prolongam e continuam a ser escritas por muitas mãos. "Quero que meus livros dialoguem com a experiência de vida dos leitores", diz, na conversa. Leia a seguir:
PublishNews — Poderia falar mais sobre seu contato com livros na infância e adolescência? Alguma obra ou autor?
Maria Valéria Rezende — Nasci e cresci em Santos, nos anos 40 e 50... com férias anuais em Minas Gerais. Minha mãe era mineira e meu pai santista, ambos de famílias de escritores e leitores, e todo seu tempo livre era dedicado à leitura. Além disso, Santos tinha vários sebos com livros do mundo inteiro, trazidos pelos navios que atracavam ali e renovavam suas bibliotecas.
A televisão só apareceu quando eu já tinha 12 ou 13 anos e não tinha quase nada de interessante. Logo que aprendi a ler, aos seis anos, agarrei-me também com os livros. Aos 10 anos de idade eu já tinha lido tudo o que se podia achar de livros infanto-juvenis, em português e em francês, e pedia mais. Então meus pais me deram os três romances mais "inocentes" de Machado de Assis: Helena, A mão e a luva, e Yayá Garcia... lembro-me muito bem. Devorei-os em dois tempos e pedi mais... a partir daí passei a ler literatura para adultos. Desde então, ler tornou-se meu lazer quase absoluto... até hoje, todo o meu tempo livre é dedicado à leitura ou releitura. E Machado de Assis continua ocupando um lugar central.
PN — Durante seu processo criativo de escrita, quais são suas maiores preocupações? Como é seu processo de edição?
MVR — Uma coisa que me parece muito importante, quando escrevo, é confiar no leitor, deixar brechas e estímulos à sua parceria. Quero que meus livros dialoguem com a experiência de vida dos leitores. Sempre digo que só sei o que está nas linhas de meus livros... o que está nas entrelinhas é o leitor que sabe e só quando tenho a sorte de receber suas notícias é que fico sabendo. Também creio que uma das tarefas do escritor é manter a riqueza vocabular de nossa extensa língua. Hoje parece haver um encurtamento da língua, e isso empobrece também nosso pensamento. Cuido muito disso, nas muitas revisões que faço de meus textos.
PN — Poderia falar mais sobre sua vontade de escrever ‘Recapitulações’ e o desejo de ‘brincar’ com histórias célebres?
MVR — Não foi um livro que concebi de antemão, no seu conjunto. Ao longo dos últimos vinte e poucos anos, desde que "virei escritora", e continuando a ser uma leitora voraz, fui escrevendo esses contos que "brincam" com outros livros e escritores, de modo casual. Faço parte do Clube do Conto da Paraíba, que se reúne semanalmente e que nos desafia a escrever um conto por semana... isso resulta em quase cinquenta contos por ano... às vezes o que estou lendo ou relendo naquela semana inspira uma versão "subversiva" da narrativa. Só recentemente, revendo as centenas de arquivos espalhados em meus computadores, dei-me conta de que tinha tantos contos assim, poderiam dar um livro divertido e que talvez estimule os leitores para também voltar aos textos inspiradores dessa brincadeira.






