O que estou lendo: Tieko Irii
PublishNews, Beatriz Sardinha, 10/03/2026
"A linguagem é trabalhada com maestria, ao mesmo tempo seca e rude, como as paisagens da narrativa de um Brasil profundo e desigual, mas com uma força poética que me arrebatou", conta a autora

“Prum olhar mais demorado, reparador, cada onda daquelas não vinha do nada. Já ia acontecida lá no fundo, lá no detrás da coisa, bem ali no reto do mar, falam que é espelho. Parado que só, e quem disse? Ali já tinha a onda vindo. Vibrando por debaixo do mar. Ganhando corpo.

Entende?

É assim a história. Parece, no pra lá do horizonte que não tem nada. Vamos logo pro fato, pro acontecido. O ponto como se deu. A pressa. O fim. O horizonte só é porque já veio sendo. De lá. De quando parecia, não era. De quando tudo era espelho, água parada, serenada, brisa calma. O horizonte já sempre acontecendo. O tempo é dum jeito dele, não nosso.”

Trecho do livro Açougueira (Claraboia, 2024), escrito por Marina Monteiro.

"A Açougueira chegou no momento em que eu estava tentando escolher um livro para levar comigo nas férias em meio a pilha deles que nunca consigo vencer. Queria algo leve, olho para ela e titubeio um pouco, a começar pela capa escura com uma pincelada grossa que parecia um rio de sangue escorrendo e o título — Açougueira — que me trazia uma estranheza, que só depois percebi que vinha de um certo preconceito e machismo enraizado em mim.

Não há no nosso imaginário mulheres açougueiras, como se certas profissões fossem interditadas para nós. Curioso que, conforme vou escrevendo esse texto, nem mesmo o corretor me dá a opção dessa palavra no gênero feminino e sou obrigada a colocar a cedilha no cê. No Japão feudal, os açougueiros, carrascos ou agentes funerários eram considerados a casta mais baixa da sociedade por trabalhar em atividades consideradas impuras e discriminados até hoje.

Ao mesmo tempo estava curiosa, conheci a autora Marina Monteiro no ano passado, no dia da premiação do Loba Festival, no qual ela foi vencedora e eu fui finalista na mesma categoria. Resolvi furar a fila dos livros que precisava ler e levei a Açougueira comigo para a praia.

Conforme fui lendo o livro, fui me agarrando à narrativa e não consegui mais soltá-la. A linguagem é trabalhada com maestria, ao mesmo tempo seca e rude, como as paisagens da narrativa de um Brasil profundo e desigual, mas com uma força poética que me arrebatou. Ela não tem nome e representa todas nós. Diante de tudo que a sociedade patriarcal nos determina como mulheres, ela estava destinada a ter uma vida de violência e abuso como todas de sua família, mas teve a coragem de seguir o seu desejo, ser açougueira — e será julgada por isso. Diante de um júri ela conta sua história e uma polifonia de vozes a reconta de acordo com a estreiteza de mundo dos personagens que compõem o cenário conservador e estridente do livro.

Um romance que fala de uma realidade cruel das mulheres do Brasil e de homens que veem sua masculinidade ameaçada pela autonomia das mulheres. Me lembrou o filme Oeste outra vez, de Erico Rassi, uma narrativa nua e crua no sertão de Goiás, sobre a crise de identidade dos homens, a solidão, a violência e a incapacidade de lidar consigo mesmos. O filme tem somente uma mulher que vai embora na primeira sequência; o resto é só de homens em disputa, ressentidos, mediados apenas pela bebida nos botecos da vida.

Açougueira é muito mais que isso, fala sobre desejo, amor, coragem, liberdade e sororidade. Houve um tempo em que se dizia que as mulheres estavam 'perdidas' ou mesmo hoje, como no romance que a acusam: 'Aquilo não é mulher', mas se olharmos para a história elas revolucionaram o mundo. Agora os homens estão perdidos, atravessados pelo machismo que os corroem e pela desigualdade social, mal conseguem se organizar para fora da mesa do bar".


Tieko Irii é paulistana, graduada em cinema na FAAP em 1988. Viveu no Japão entre 1989 e 1991, quando se aprofundou na arquitetura e na cultura japonesa. Trabalhou por 25 anos em publicidade e no audiovisual como produtora e diretora de arte de diversos filmes e séries. No início dos anos 2000, iniciou paralelamente o trabalho como artista visual e autora de livros infantis. Tem textos publicados em revistas, além de participar de exposições coletivas. Recentemente publicou As ruas sem nome (Patuá), seu primeiro romance, finalista do prêmio Loba Festival.

[10/03/2026 10:06:35]