
Em tempos de bilionários da tecnologia que acham que as soluções para os nossos problemas estão nas nuvens digitais (spoiler: não estão), pode até parecer estranho falar em pós-humano. O que Braidotti faz, contudo, é um caminho bem mais sofisticado. Ao mesmo tempo ela critica esses sonhos megalomaníacos vindos do Vale do Silício, sem esconder que já vivemos um processo de hibridização com outros seres – ou melhor, afirmando que provavelmente sempre fomos híbridos.
Nos últimos tempos, a tecnologia apenas explicitou como a fronteira entre humanos e objetos tecnológicos é um borrão. Não sabemos mais onde começa nosso corpo e termina o telefone celular, para ficar em apenas um caso. Esse esfumaçamento também produz consequências em outras fronteiras, como a de gênero, raças e espécies. Descobrimos recentemente que há mais células não-humanas em nosso corpo que humanas, por exemplo.
Se fosse apenas isso, o livro já seria incrível. Mas ela vai além. A grande sacada do livro é pensar numa base que seja comum para todos os seres. É um desafio gigantesco dentro da filosofia, talvez o maior da atualidade. Isso porque desde o século XIX, todas as nossas certezas foram destruídas a golpe de martelo – vide as dificuldades para produzir solos em comum, campos de diálogo, trocas entre os diferentes nos dias de hoje. Ela quer, assim, saber qual seria o valor que funciona para todos os entes, o que é aquilo que nos serve, para todo o mundo, como o mais importante. Repito: para todo o mundo. Não é uma tarefa banal.
O primeiro resultado prático é destronar o homem da posição de superioridade em relação aos demais seres – e o termo “homem” foi escolhido para representar o humano do sexo masculino, protagonista inconteste do humanismo. Isso porque, entre outros aspectos, Braidotti é extremamente feminista, e preza pela igualdade de forças entre os gêneros. Daí, inclusive, sua preocupação na criação dessa base de pensamento universal.
O pensamento humanista seria uma demonstração machista, desde o seu início. Basta pensarmos que a primeira declaração dos direitos dos homens, proclamada logo após a Revolução Francesa, não incluía mulheres – menos ainda outras minorias.
E não apenas a mulher ou outros grupos humanos teriam sido deslocados para uma posição de inferioridade com relação ao homem (branco, hétero, cis, do Norte global etc.). Embora tenha servido de fiel da balança durante um bom tempo para sabermos o certo e o errado, o humanismo colocou todos os outros entes em uma posição de inferioridade. Pensemos nos animais, pensemos nos ambientes, pensemos na destruição do planeta por esse grupo ganancioso que só quer manter os próprios lucros vendendo produtos muitas vezes desnecessários.
Por isso que ela que propõe uma postura contrária, inumana, que teria efeito de uma produção ética contra as forças deste capitalismo tecnológico que nos assola. Como consequência dessa atitude, nós seríamos levados a uma posição pós-humanista. Nesse novo lugar, não haveria mais nenhum posto privilegiado de antemão. E todos seríamos livres para explorar nossas potencialidades, sem nos esquecermos, claro, de pensar sempre no coletivo em que estamos inseridos".
* Ronaldo Pelli é escritor, professor, mestre e doutor em Filosofia, além de jornalista. Como escritor, publicou Maquinação, Autoassassinato e A primeira pessoa. Pelo lado acadêmico, faz um pós-doutorado também em Filosofia. Jornalista, trabalhou em grandes redações e pequenos veículos. Atualmente, trabalha também na comunicação do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).






