
O topo do Everest costuma aparecer nas fotografias como um instante de triunfo. Para o atleta, produtor e apresentador Gustavo Ziller, o cume é apenas uma pequena amostra daquele todo, envolvido por abissais 8.848 metros de altitude. No livro Escalando sonhos – o que senti no topo do mundo (Editora Vestígio), ele revisita a longa travessia que o levou até ali e reflete sobre como grandes mudanças raramente acontecem de forma súbita. A jornada começou bem longe das montanhas. Em 2012, um diagnóstico de burnout freou a sua construção profissional e o arrastou a novos rumos.
A aproximação com o montanhismo abriu uma trilha inesperada: primeiro até o Campo Base do Annapurna, em 2013, e, anos depois, ao cume do Everest, feito que o tornaria o 26º brasileiro a alcançar o ponto mais alto do planeta. Além de narrar a conquista, o livro mergulha no processo que a tornou possível. A partir de diários de expedição e memórias pessoais, Gustavo examina medo, disciplina, limites e as chamadas “zonas da morte”, tanto na alta montanha quanto na vida cotidiana.
Nesta entrevista, ele fala sobre essa travessia e sobre as montanhas visíveis e invisíveis que cada um precisa aprender a escalar. “A montanha é implacável, mas também didática: ela devolve exatamente o que você leva. Quando voltei a pisar no chão, percebi que a vida cotidiana também é uma alta montanha. Só que disfarçada”, disse ao PublishNews. Leia a entrevista:
PUBLISHNEWS — Em Escalando sonhos - o que senti no topo do mundo, você parte de um diagnóstico de burnout e atinge o cume do Everest. Em que momento percebeu que essa travessia precisava virar livro? O que mudou mais profundamente em você entre o Gustavo de 2012 e o homem que torna pública a própria história em 2026?
GUSTAVO ZILLER — Percebi que precisava virar livro quando entendi que o Everest não era, nem de longe, o fim da história. O cume é fotogênico; no processo que a vida acontece. Subir montanha não transforma ninguém, o caminho pode. A travessia começou no burnout, mas o livro nasce quando percebo que a montanha só muda perspectiva. E perspectiva é narrativa. Entre 2012 e 2026, o que mudou mais profundamente foi a minha relação com o ego. O Gustavo de 2012 queria provar. O de hoje quer compartilhar. Antes eu confundia presença com performance. Hoje entendo presença como menos vitrine, mais verdade. Menos pressa, mais intenção.
PN — Você escreve sobre o “complexo de vira-lata” (termo cunhado pOR Nelson Rodrigues) como metáfora para nossas limitações internas. Escalar o Everest foi vencer uma montanha física ou lidar bem de perto com uma montanha simbólica? E o que significou ler, na solidão da escalada, o clássico A morte é um dia que vale a pena viver (Sextante), da médica e escritora Ana Claudia Quintana Arantes, que assina a introdução do seu livro?
GZ — Escalar o Everest foi menos sobre vencer uma montanha física e mais sobre reconhecer uma montanha simbólica que sempre esteve aqui. O tal “complexo de vira-lata” é uma cordilheira íntima: a dúvida, o medo de não pertencer, a sensação de ser pequeno demais para sonhos grandes. A montanha de gelo é objetiva; a outra é silenciosa e persistente. A primeira você mede em metros. A segunda, em crenças. Ler A morte é um dia que vale a pena viver, da Ana Claudia Quintana Arantes, na solidão da escalada foi como carregar um espelho na mochila. Enquanto o corpo lutava, o texto me lembrava que finitude não é ameaça. A altitude radicaliza tudo: o frio, o cansaço e também a lucidez. Ali, entendi que subir é importante, mas descer inteiro é essencial. E que viver bem é a única cumeada que realmente importa.
PN — O que o topo do mundo te ensinou sobre liderança, medo e vulnerabilidade? E como essas lições ecoaram na sua vida depois que voltou a pisar no chão? Como você está hoje, Gustavo?
GZ — O topo do mundo me ensinou que liderança não é gritar mais alto, é escutar melhor. Que medo não é inimigo. E que vulnerabilidade não enfraquece a cordada, ela a torna honesta. Em ambientes extremos, a arrogância é perigosa e o silêncio é pedagógico. A montanha é implacável, mas também didática: ela devolve exatamente o que você leva. Quando voltei a pisar no chão, percebi que a vida cotidiana também é uma alta montanha. Só que disfarçada. Hoje estou mais sereno, mais consciente da minha finitude e, paradoxalmente, mais potente. Não porque subi o Everest, mas porque aprendi a descer. E continuo aprendendo.






