Três Perguntas do PN para Giovanna Ramundo
PublishNews, Monica Ramalho, 20/03/2026
"Busquei trabalhar os desconfortos de ser criança, as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres, e expressar, através da narrativa, da linguagem e do formato, a descontinuidade da memória", diz

Autora de Sorriso sorvete de cereja (Cambucá), romance vencedor do Prêmio Candango de Literatura, a carioca Giovanna Ramundo, 26 anos, chama atenção pela maturidade com que analisa a própria escrita, construída a partir de leituras, estudos e de uma rede de profissionais que apostaram na sua história. A estreia nas premiações literárias veio com um feito: conquistar o primeiro lugar em uma disputa que poderia estar, hoje, nas mãos de nomes como Mia Couto. O livro é permeado por uma narrativa de forte carga sensorial, em um fluxo não linear que se organiza por camadas. A protagonista Rio ganhou tal densidade que há quem a confunda com a própria autora — não se trata de um romance autobiográfico, embora a personagem se imponha como presença quase palpável.

"Busquei trabalhar os desconfortos de ser criança, as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres, e expressar, através da narrativa, da linguagem e do formato, a descontinuidade da memória", resume a escritora nesta conversa com o PublishNews. Ela afirma que ganhar o troféu trouxe consigo responsabilidade e o desejo de continuar. Como o livro nasceu, que decisões de linguagem e de forma sustentam essa escrita e que tipo de experiência Giovanna propõe a quem lê? "Será que a partir do momento em que inventamos uma lembrança ela também não passa a ser uma realidade? Nessa brincadeira do que somos, do que pensamos ser, do que os outros pensam que somos e do que gostaríamos de ter sido que Rio cresceu". Leia a entrevista:

PUBLISHNEWS — Sorriso sorvete de cereja nasce de onde? E como ele foi se transformando ao longo da escrita? Em que momento você percebeu que tinha, de fato, um livro nas mãos?

GIOVANNA RAMUNDO — Sorriso sorvete de cereja nasceu da música Rio, da banda Duran Duran. Me encantei com a ideia de uma mulher chamada Rio e com todos os significados que esse nome poderia carregar. De início, eu desejava traçar a vida completa de Rio, mas logo percebi que o mais interessante sobre ela eram suas vivências da infância, e essa se tornou a principal norteadora do romance. Com Rio, busquei trabalhar os desconfortos de ser criança, as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres, e expressar, através da narrativa, da linguagem e do formato, a descontinuidade da memória.

Um momento crucial e definidor para o livro foi quando descobri os nós nos cabelos de Rio. São esses nós, abundantes e incontroláveis, que lhe escapam dos cabelos e a fazem transbordar, que tornam Rio tão única e ao mesmo tempo tão identificável (é o que os leitores me dizem). Os nós de Rio também são cruciais para a sua língua própria: Rio fala misturando as pessoas do plural e do singular, confundindo-se entre passado, presente e futuro, debatendo-se em sua própria história. Rio é uma e ao mesmo tempo muitas, é mulher formada sem deixar de ser criança, e criança sem deixar de ser mulher.

Ter em mãos um livro é constantemente duvidar se o tem. O processo de escrita dessa história foi iniciado em 2019 e caminhou muito lentamente nos dois primeiros anos. Enfrentei, com Rio, a pandemia e posso dizer que viver com ela em isolamento não foi fácil, mas acredito que conseguimos, Rio e eu, sobreviver uma a outra. E dessa convivência resultou o romance que, antes de ser publicado em 2024, passou por muitas mãos cuidadosas que contribuíram inestimavelmente para o seu resultado final. Sempre acreditei que um bom livro não termina em si mesmo, para que ele exista é necessário que alguém o leia, o interprete, o sinta. Por isso, apesar de ter ouvido dos donos daquelas primeiras mãos cuidadosas que eu havia escrito um romance, creio que momento que realmente percebi que eu tinha um livro foi quando deixei de tê-lo e passei a ver Rio passeando por outras mãos e, principalmente, por outros cabelos que não só os meus.

PN — O livro opera muito também no que não é dito. Quais foram as principais decisões de linguagem e de estrutura para sustentar esse território mais implícito? E o que te interessava explorar ali?

GIOVANNA — Rio leva a sua vida na fronteira entre a normalidade e a loucura. Ela é uma estrangeira em nosso mundo (como toda criança, devo dizer), e foi o estranhamento dela para com os outros e dos outros para com ela que definiu sua linguagem e a forma que ela desejava contar sua história: era preciso que sua língua traduzisse seus delírios, suas particularidades, seus desconfortos. Foi a partir da transgressão de regras gramaticais, da oscilação entre o singular e o plural, e também de suas confusões temporais que a história de Rio se estruturou como descontínua. Rio é muitas vezes desmemoriada, atrapalha-se com suas lembranças ou pelo menos finge se atrapalhar. A memória é um território incerto no qual andamos sem poder confiar totalmente nos mapas. Essa não é uma característica exclusiva de Rio, todos temos memórias inventadas ou que optamos por não lembrar. Como ter certeza de que algo é ou foi real? Será que a partir do momento em que inventamos uma lembrança ela também não passa a ser uma realidade? Nessa brincadeira do que somos, do que pensamos ser, do que os outros pensam que somos e do que gostaríamos de ter sido que Rio cresceu.

PN — ⁠De que maneira o romance conversa com o nosso presente? Como ele se inscreve no seu percurso literário até aqui? Já ganhar o Prêmio Candango de partida mudou algo em você?

GIOVANNA — Quando iniciei a escrita de Sorriso sorvete de cereja imaginava que Rio era muito diferente de todos. Surpreendi-me ao descobrir que a maioria dos leitores se identifica com ela e a considera lúcida diante de seu contexto familiar. Essa identificação dos leitores com Rio me deixou mais confortável para que eu mesma me identificasse com ela. Percebi que compartilhamos a sensação de sermos diferentes, estranhos, de nos sentirmos deslocados, em especial em um mundo de redes sociais, fotos perfeitas em ambientes super planejados. É comum sentir-se deslocado, é fácil colocar-se no papel de Rio, viver essa tragédia que é ser diferente.

Acredito que Rio também traz para nossas conversas um olhar mais sensível e empático para a infância. Rio sofre com abusos, é desrespeitada, é excluída, estranha o mundo ao seu redor, afinal, acabou de chegar a ele e tem dificuldade de entender suas regras, seus tempos, o que se espera dela. É desconfortável ser criança, não somente para Rio. Além disso, a menina Rio também recebeu muito cedo o rótulo de “criança especial", o que para ela foi desastroso. Constantemente diminuída e rechaçada, Rio sofreu para conseguir livrar-se dessa etiqueta. Não tenho certeza se ela o conseguiu… Penso que muitas crianças também têm seus futuros limitados por serem consideradas diferentes e necessitadas de atenção especial desde muito cedo.

Sorriso sorvete de cereja é o meu maior orgulho como escritora até agora. Escrever esse romance com Rio e para Rio foi um processo exaustivo, um pouco enlouquecedor, mas também de muitíssimo crescimento. Receber o 2º Prêmio Candango na Categoria Melhor Romance de 2024, além de uma honra e uma alegria, foi a confirmação de que meu esforço e meus sacrifícios para escrever e publicar esse livro valeram a pena. O prêmio chegou também como uma surpresa, já que concorri com autores renomados da nossa Literatura Lusófona. Apesar de acreditar em meu trabalho, sei que sou uma autora jovem e em início de carreira, tive muita sorte em receber esse reconhecimento tão cedo. Ademais, o Candango trouxe para mim o peso de uma responsabilidade, de desejar honrar o título que recebi, de seguir trabalhando e me reinventando através da escrita.


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