
Com uma obra marcada pela investigação histórica, Luize é autora de pelo menos cinco livros e tem explorado, ao longo da carreira, diferentes formas de transformar processos coletivos em narrativas particulares. Nesta prosa, ela comenta o uso do tempo como estrutura narrativa, o equilíbrio entre pesquisa e ficção e o papel dos símbolos na condução da trama.
"A oliveira é a metáfora presente, que se pode tocar, não só das intempéries, mas também das alegrias, que aquela família passou. Nascimentos e mortes, prosperidade e infortúnio. Uma árvore que surge das cinzas, finca raízes, dá frutos, seca, mas permanece resistente através dos tempos. Como a família Botas", explica Luize. Leia a entrevista:
PUBLISHNEWS — Em ‘A confraria da oliveira’, você articula dois tempos e duas personagens chamadas Branca, conectadas por um gesto aparentemente simples — o corte de um galho. Em que momento essa estrutura se impôs para você e como foi equilibrar a pesquisa histórica com a construção de um drama contemporâneo?
LUIZE VALENTE — Gosto de trabalhar com idas e vindas no tempo. No caso de A confraria da oliveira, cinco séculos separam a trajetória das duas personagens que pertencem à mesma família e têm o mesmo nome. O corte do galho – de árvores diferentes, mas motivado por sentimentos semelhantes – funcionou como uma espécie de propulsor da história. São os cortes que impulsionam a trama, tanto a do presente como a do passado. E sobre a segunda questão, eu costumo dizer que a História, com H maiúsculo, é o chão onde piso, é meu pano de fundo, o cenário. Mas os dilemas, os dramas, as alegrias, as tristezas, as dúvidas dos personagens são a estrada, é com eles que eu caminho. O equilíbrio se dá justamente em não sobrepor a pesquisa, os fatos, à história que quero contar. O momento histórico do livro é a Inquisição Portuguesa. Mas no cerne da trama estão sentimentos atemporais, como a inveja, a intolerância, a perversidade e também o amor, a amizade e a generosidade.
PN — Os seus livros frequentemente partem de uma investigação histórica rigorosa, mas ganham força na dimensão íntima das personagens. O que te interessa explorar nessa zona de encontro entre memória coletiva e experiência individual? E de que forma isso aparece de maneira diferente neste novo romance?
LUIZE — Acredito que fatos, estatísticas e dados históricos, quando ganham rosto e nome, passado e presente, sentimentos e voz , geram empatia e identificação . Eu acho que a experiência individual pode humanizar, de certa forma, a memória coletiva. Em A confraria da oliveira eu trabalhei com duas protagonistas. A Branca do passado sofre na pele os abusos e barbaridades da Inquisição. Essa herança se manifesta na Branca contemporânea, em outro contexto, sem essa consciência histórica, e impulsiona a trajetória dela, de forma redentora. Ou seja, o sofrimento do passado não foi em vão.
PN — A árvore funciona como eixo da narrativa, sobrevivendo aos séculos como testemunha de uma família. Que papel você atribui a esse tipo de elemento simbólico na condução da história? Como ele ajuda a pensar temas como pertencimento e as escolhas que cada geração faz diante do que recebe como herança?
LUIZE — A escolha da oliveira – uma árvore milenar e carregada de simbologias – como eixo da narrativa foi a forma que encontrei para ligar os cinco séculos que separam as duas protagonistas, reforçando a verossimilhança interna com algo visível, palpável. Como as histórias não se entrecruzam, uma é consequência da outra, a árvore é o elo. Mais do que a herança "física", a oliveira carrega a herança espiritual, a história que atravessa gerações da família Botas. A oliveira é a metáfora presente, que se pode tocar, não só das intempéries, mas também das alegrias, que aquela família passou. Nascimentos e mortes, prosperidade e infortúnio. Uma árvore que surge das cinzas, finca raízes, dá frutos, seca, mas permanece resistente através dos tempos. Como a família Botas.






