Três Perguntas do PN para Luize Valente
PublishNews, Monica Ramalho, 27/03/2026
Com uma obra marcada pela investigação histórica, Luize tem explorado, ao longo da carreira, diferentes formas de transformar processos coletivos em narrativas particulares

Uma árvore que atravessa séculos, duas mulheres com o mesmo nome e uma história que ecoa de geração em geração: é a partir dessa arquitetura que Luize Valente constrói A confraria da oliveira. No lançamento da Vestígio Editora, selo da Autêntica, passado e presente se articulam por uma mesma linhagem, ligando destinos individuais a um contexto histórico mais amplo.

Com uma obra marcada pela investigação histórica, Luize é autora de pelo menos cinco livros e tem explorado, ao longo da carreira, diferentes formas de transformar processos coletivos em narrativas particulares. Nesta prosa, ela comenta o uso do tempo como estrutura narrativa, o equilíbrio entre pesquisa e ficção e o papel dos símbolos na condução da trama.

"A oliveira é a metáfora presente, que se pode tocar, não só das intempéries, mas também das alegrias, que aquela família passou. Nascimentos e mortes, prosperidade e infortúnio. Uma árvore que surge das cinzas, finca raízes, dá frutos, seca, mas permanece resistente através dos tempos. Como a família Botas", explica Luize. Leia a entrevista:

PUBLISHNEWS — Em ‘A confraria da oliveira’, você articula dois tempos e duas personagens chamadas Branca, conectadas por um gesto aparentemente simples — o corte de um galho. Em que momento essa estrutura se impôs para você e como foi equilibrar a pesquisa histórica com a construção de um drama contemporâneo?

LUIZE VALENTE — Gosto de trabalhar com idas e vindas no tempo. No caso de A confraria da oliveira, cinco séculos separam a trajetória das duas personagens que pertencem à mesma família e têm o mesmo nome. O corte do galho – de árvores diferentes, mas motivado por sentimentos semelhantes – funcionou como uma espécie de propulsor da história. São os cortes que impulsionam a trama, tanto a do presente como a do passado. E sobre a segunda questão, eu costumo dizer que a História, com H maiúsculo, é o chão onde piso, é meu pano de fundo, o cenário. Mas os dilemas, os dramas, as alegrias, as tristezas, as dúvidas dos personagens são a estrada, é com eles que eu caminho. O equilíbrio se dá justamente em não sobrepor a pesquisa, os fatos, à história que quero contar. O momento histórico do livro é a Inquisição Portuguesa. Mas no cerne da trama estão sentimentos atemporais, como a inveja, a intolerância, a perversidade e também o amor, a amizade e a generosidade.

PN — Os seus livros frequentemente partem de uma investigação histórica rigorosa, mas ganham força na dimensão íntima das personagens. O que te interessa explorar nessa zona de encontro entre memória coletiva e experiência individual? E de que forma isso aparece de maneira diferente neste novo romance?

LUIZE — Acredito que fatos, estatísticas e dados históricos, quando ganham rosto e nome, passado e presente, sentimentos e voz , geram empatia e identificação . Eu acho que a experiência individual pode humanizar, de certa forma, a memória coletiva. Em A confraria da oliveira eu trabalhei com duas protagonistas. A Branca do passado sofre na pele os abusos e barbaridades da Inquisição. Essa herança se manifesta na Branca contemporânea, em outro contexto, sem essa consciência histórica, e impulsiona a trajetória dela, de forma redentora. Ou seja, o sofrimento do passado não foi em vão.

PN — A árvore funciona como eixo da narrativa, sobrevivendo aos séculos como testemunha de uma família. Que papel você atribui a esse tipo de elemento simbólico na condução da história? Como ele ajuda a pensar temas como pertencimento e as escolhas que cada geração faz diante do que recebe como herança?

LUIZE — A escolha da oliveira – uma árvore milenar e carregada de simbologias – como eixo da narrativa foi a forma que encontrei para ligar os cinco séculos que separam as duas protagonistas, reforçando a verossimilhança interna com algo visível, palpável. Como as histórias não se entrecruzam, uma é consequência da outra, a árvore é o elo. Mais do que a herança "física", a oliveira carrega a herança espiritual, a história que atravessa gerações da família Botas. A oliveira é a metáfora presente, que se pode tocar, não só das intempéries, mas também das alegrias, que aquela família passou. Nascimentos e mortes, prosperidade e infortúnio. Uma árvore que surge das cinzas, finca raízes, dá frutos, seca, mas permanece resistente através dos tempos. Como a família Botas.

[27/03/2026 10:18:05]