
Mesmo o painel de discussão intitulado “Desbloqueando o Potencial de Audiolivros da Região MENA” (Oriente Médio e Norte da África), realizado mais tarde naquele dia e com a presença de Paulo Lemgruber, da Audible, trouxe pouca clareza sobre o assunto.
Isso mudou há alguns dias. Em 15 de janeiro, a Amazon confirmou formalmente o lançamento de sua Biblioteca Árabe Digital em parceria com o Centro de Língua Árabe de Abu Dhabi (ALC). Antes de examinar suas implicações, porém, um esclarecimento semântico é necessário.
Apesar do rótulo de "biblioteca", a plataforma funciona como uma vitrine comercial digital. Os títulos são vendidos, não emprestados — o que a torna mais próxima de um e-commerce do que de uma biblioteca no sentido tradicional. Nesse aspecto, assemelha-se mais a um souk (mercado tradicional árabe) digital do que a uma instituição pública. Ainda assim, a escala é significativa: a plataforma foi lançada com 38 mil títulos, incluindo 33 mil e-books e 5 mil audiolivros, além de mil títulos gratuitos. Independentemente da terminologia, isso representa um marco digital importante para a publicação em língua árabe.
A iniciativa foi impulsionada pelas autoridades culturais de Abu Dhabi, com o Centro de Língua Árabe (ALC) desempenhando um papel central. Operando sob o Departamento de Cultura e Turismo, o mandato do ALC inclui a digitalização de conteúdo árabe e o fortalecimento da visibilidade da literatura árabe no cenário global.
“Dada a pequena porcentagem de conteúdo árabe disponível online, apesar do grande número de falantes do idioma, esta iniciativa desempenhará um papel importante na derrubada de barreiras, no aumento do acesso à literatura árabe e no fortalecimento da conscientização no cenário internacional”, afirmou Ali bin Tamim, presidente do ALC, em um comunicado.
Um desenvolvimento "crucial"
De acordo com a Amazon, nos próximos três anos o ALC colaborará com editores em todo o Oriente Médio e Norte da África para expandir o catálogo, enquanto a empresa promove esses títulos para sua base global de clientes.
As implicações comerciais são tão significativas quanto as culturais. Na última década, o mundo árabe viu múltiplas iniciativas regionais e locais em e-books e audiolivros. Mas, apesar da forte ambição e do claro potencial de mercado, poucas alcançaram a escala ou a tração necessária para mobilizar totalmente a indústria editorial.
Entre esses esforços estão a Iqraaly, uma plataforma egípcia de audiolivros, e a Abjjad, um serviço de assinatura de e-books jordaniano fundado em 2012. Nos Emirados Árabes Unidos, a Rufoof desempenhou um papel pioneiro como livraria digital e provedora de tecnologia para varejistas regionais, incluindo a Jarir, na Arábia Saudita.
Entre os players globais, a Storytel tem sido a presença mais visível na região, após a aquisição da plataforma de audiolivros árabes Kitab Sawti em 2020. A empresa sueca investiu pesadamente na aquisição de direitos e produção, construindo um catálogo de aproximadamente 7 mil títulos. No entanto, quando a Storytel estreitou seu foco estratégico para dez mercados principais, suas operações locais no Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita foram despriorizadas, limitando o crescimento futuro.
Nesse contexto, a chegada da Amazon — e da Audible, em particular — é um desenvolvimento crucial, especialmente dada a escala de seu catálogo de lançamento. A estreia da Audible com 5 mil audiolivros em árabe é impressionante por qualquer padrão. Para montar tal catálogo em um curto período, a Audible adquiriu cerca de metade dos títulos da Storytel. Outros 2 mil livros em áudio vieram da Arabookverse, um hub de serviços e distribuição digital baseado no Egito e nos Emirados Árabes Unidos, que também forneceu aproximadamente metade dos e-books disponíveis no Kindle.
O potencial de longo prazo para livros digitais em árabe — em e-books e audiolivros, modelos à la carte e de assinatura — é substancial. Os desafios estruturais permanecem significativos, mas a entrada da Amazon e da Audible pode atuar como o catalisador necessário para acelerar a adoção, fortalecer a confiança dos editores e expandir o público leitor. Ao fazer isso, pode elevar o nível de todo o ecossistema, incluindo os players digitais regionais.
Também vale notar que o Spotify começou a oferecer audiolivros em inglês na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos em novembro passado, ressaltando ainda mais o crescente interesse global na região.
Se for bem-sucedida, a Biblioteca Árabe Digital da Amazon poderá marcar um ponto de virada para os livros digitais no mundo árabe. Inshallah.
*O artigo foi publicado originalmente no Publishing Perspectives e reproduzido no PublishNews com autorização do autor e da plataforma americana.
Carlo Carrenho, editor colaborador do Publishing Perspectives, é consultor editorial brasileiro radicado na Suécia e membro da consultoria Alpine Global Collective.
** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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