
Ao eleger a segunda maior rodoviária do mundo como matéria-prima, a autora derruba as fronteiras entre jornalismo e narrativa com uma escrita atenta ao detalhe, ao humor involuntário e às contradições da urbe. O terminal surge como uma cidade condensada, onde histórias mínimas revelam complexidades, como fluxos migratórios, trabalho invisível, afetos provisórios, modernização e permanência convivendo na mesma paisagem.
Nesta entrevista ao PublishNews, Vanessa Barbara rebobina o processo de investigação que deu origem ao livro, comenta as escolhas que moldaram essa reportagem híbrida e reflete sobre o que continua atual na leitura da obra hoje. “Os capítulos ‘O Natal’e ‘Grandes distâncias’ continuam atualíssimos. É impressionante como, em 2026, há pessoas que passam 54 horas dentro de um ônibus, em estradas dominadas por carros e caminhões, para chegar a uma cidadezinha no Piauí", destacou a paulistana, que colabora com a New York Review of Books e The New York Times. Leia a entrevista completa:
PUBLISHNEWS —O livro amarelo do terminal nasce da observação da rodoviária do Tietê como um organismo vivo, atravessado por fluxos, esperas e desencontros. O que te levou a escolher esse espaço como objeto de investigação literária? Em que momento você percebeu que aquele lugar específico podia funcionar como um retrato mais amplo da cidade?
VANESSA BARBARA — Eu queria escrever sobre as ruas de São Paulo, mas precisava de um foco. Então pensei na rodoviária, que não passa de uma grande rua onde as pessoas estão sempre partindo, chegando, trabalhando e tirando um cochilo em cima de suas bengalas, à espera do ônibus. Assim como as ruas, o terminal traz histórias que ilustram contradições da metrópole: a modernização, o movimento repetitivo das pessoas que vão-e-vêm, a inconstância, a ideia de massas; e, por outro lado, a sensação de não-pertencimento, a vontade de retornar ao lugar de partida, o anacronismo dos personagens, a permanência – aquilo que nunca muda.
Na época, cheguei a cogitar um paralelo com o aeroporto de Cumbica, mas a rodoviária é tão vasta em assuntos que não foi necessário.
PN — O livro articula escuta, reportagem, dados, cenas cotidianas e uma escrita muito atenta ao detalhe e ao humor involuntário da vida urbana. Como foi a convivência com esse espaço e com as pessoas que o habitam? E como você trabalhou a passagem desse material bruto — falas, números, episódios — para uma forma literária que não perdesse a complexidade do real? E quanto tempo durou a investigação?
VB — Foi um ano de apuração e escrita do livro; comecei em outubro de 2002 e terminei em outubro de 2003. De início, fiz um reconhecimento aleatório do 'terreno'. Depois planejei abordar os temas básicos da rodoviária: os funcionários, os carregadores, os motoristas, o Balcão de Informações, a sala de controle, a assistência social, as grandes distâncias, o Natal, o Carnaval etc. Nessa lógica, algumas coisas ganharam maior importância durante a apuração, outras foram ficando de lado.
A parte da redação é a mais divertida, que acontece depois de colher as histórias no local. Eu gosto de pensar em jeitos diferentes de abordar um determinado assunto, fugindo da mesmice do jornalismo mais tradicional, e era essa criatividade que o meu material pedia. Inclusive, de início, seria um livro de crônicas, mas os textos foram saindo num gênero mais híbrido e acabei me rendendo ao formato de reportagem.
PN — Relançado agora, o livro encontra um Brasil marcado por novas dinâmicas de mobilidade, trabalho e desigualdade, mas também por permanências muito evidentes. O que você sente que permanece atual na leitura do livro hoje? E, olhando em retrospecto, há trechos ou personagens que ganharam novos sentidos com o tempo?
VB — Muita gente ainda não tem condições financeiras de pegar um avião para ir a um lugar distante, e no Brasil também não há uma rede ferroviária ou hidroviária decente. Então os capítulos 'O Natal' e 'Grandes distâncias' continuam atualíssimos. É impressionante como, em 2026, há pessoas que passam 54 horas dentro de um ônibus, em estradas dominadas por carros e caminhões, para chegar a uma cidadezinha no Piauí.
Ah, acho que o capítulo da 'História oral do Tietê' também é atual, essas conversas aleatórias poderiam ter acontecido ontem.
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