Em uma conferência com gerentes da Barnes & Noble em 2019, o CEO James Daunt expôs a necessidade de a rede americana se renovar e de as livrarias se tornarem cada vez mais personalizadas — na ocasião, o executivo informou que os livreiros passariam a ter um papel “importantíssimo” na relação entre as unidades e seus arredores. Uma espécie de “tradução livre” que se pode fazer das palavras do executivo: cada vez mais as lojas de livro precisam atender e acolher as pessoas e grupos em suas particularidades, oferecendo-lhes uma experiência única.
Nas últimas décadas e nos últimos anos em particular, as livrarias físicas viram aumentar o número de desafios em torno delas, em razão, principalmente, do comércio virtual. As dificuldades impostas ao segmento e o espírito do tempo provocaram mudanças significativas no negócio, como o desaparecimento de redes e lojas de grande dimensão e a inclusão ou intensificação da venda de produtos e serviços dentro dos estabelecimentos — itens de papelaria, cursos, comidas e bebidas etc.

Consultora com larga experiência no mercado editorial, Maria Carolina Borin participou do projeto de uma série de livrarias de rua, entre elas Platô (DF), da Praça (MG), Travessia (PA), Barouche (SP) e Gato Sem Rabo (SP). Segundo ela, essas “livrarias de curadoria” trazem em seu imaginário a necessidade, o desejo e a possibilidade de os clientes passarem mais tempo no local, em contraposição, por exemplo, a livrarias talvez menos aconchegantes e mais comerciais, por assim dizer, em que cliente e livreiro estão ali para promover um jogo rápido de compra e venda. “Essas livrarias de que estamos falando precisam pensar que o leitor terá de ir até elas. Portanto, precisam ser um destino com poder de atração”, afirma.
Cada livraria, um universo

Aproveitamento de espaço é a chave para entender a concepção da Platô Livraria, na Asa Sul, em Brasília. A loja tem apenas três metros de largura. As mesas expositivas com rodas e as prateleiras personalizadas permitem que os funcionários manejem o mobiliário de acordo com as necessidades. No local, são realizados eventos de lançamento, palestras, encontros de clube de leitura, entre outros. O diminuto espaço vai sendo ajeitado conforme a atividade.
Feitas sob medida, as prateleiras modulares aparentam ser um único grande móvel cheio de livros. Essa grande concentração deles, associada ao teto espelhado com placas em acrílico, “leva o leitor para um outro universo”, comenta Mariana Andersen, livreira, arquiteta e uma das sócias. Ela conta que, para melhor aproveitar o espaço e trazer boas sensações ao visitante, pensou numa gama de elementos, desde o tipo de material das estantes e das mobílias em geral à distância entre as prateleiras, passando pela iluminação com cores quentes e confortáveis aos olhos.
Usar da melhor maneira o espaço e trazer conforto e acolhimento às pessoas, também parece ser o propósito da Livraria Miúda, com acervo infantojuvenil. Algumas paredes da casa em que está estabelecida, na Pompeia, zona oeste da cidade de São Paulo, foram derrubadas com o objetivo de integrar e ampliar as salas do imóvel, dos anos 1940. Por causa do público específico, a concepção da mobília teve de receber atenção especial. Os móveis foram projetados e dispostos de modo a garantir que as crianças pudessem facilmente ver e acessar os livros, gozando de autonomia. Com experiência de mais de duas décadas como educadoras, Tereza Grimaldi e Julia Souto, as fundadoras e sócias da livraria, compreendem o espaço como ferramenta educacional. Para elas, a formação leitora também passa pela criança escolher suas leituras, a partir de seus próprios interesses. A ideia, contam, sempre foi a de criar um ambiente aconchegante, em que os visitantes tivessem um contato mais íntimo com os livros. “Aqui, as pessoas se sentem em uma casinha mesmo, gostamos desse ar de casa de vó.” Segundo estimativa delas, 80% da superfície da Miúda está tomada por obras literárias.

O modo como os livros são expostos pode ser determinante para a apreciação dos clientes e as vendas. A estratégia de acomodar os livros de frente, possibilitando que o visitante visualize toda a capa — e não apenas a lombada se tornou uma das assinaturas da Megafauna, no centro da capital paulista, dona de um acervo com 12 mil títulos. De acordo com Irene de Hollanda (uma das proprietárias) e Ana Ferrari (arquiteta do espaço), a ocupação das paredes por obras permite um diálogo entre a curadoria e o público, que é convidado a descobrir autores e autoras. Esse tipo de disposição é, ainda, imaginado e trabalhado para servir como caixa de ressonância em relação aos debates em curso no mundo literário.
Além de atrair público com a realização de eventos, os comércios utilizam diferentes estratégias para prolongar a visita dos leitores, oferecendo a eles serviços e sensações. A Livraria Jaqueira, no Recife, ostenta uma árvore no centro da loja — e encara como missão fazer com que o aroma do café tome conta do recinto. Para a arquiteta da livraria, Fernanda Zerbone, um “projeto comercial é um projeto vivo, em constante desenvolvimento”.
A Platô e também a Aigo Livros, no Bom Retiro, em São Paulo, preenchem suas prateleiras com objetos pessoais e presentes de amigos das sócias para compor sua decoração. Os itens vão desde lembrancinhas de viagens, relógios antigos, um orelhão e arranjos de flores até obras de arte de artistas visitantes e quadros com fotos de cachorros das proprietárias.

Para a nova unidade da Janela Livraria, inaugurada em novembro no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o arquiteto Flavio Rogozinski combinou um estilo de arquitetura industrial, sem acabamentos, com piso de granilite e azulejos coloridos nas paredes. A ideia foi remeter à história do imóvel, na Rua General Glicério, e à memória de bares antigos da cidade.
Parte de algo maior

A primeira unidade da Megafauna está localizada no térreo do Edifício Copan, um ícone arquitetônico e cultural, concebido por Oscar Niemeyer na segunda metade do século passado. A arquiteta Ana Ferrari conta que, nos trabalhos para a inauguração do empreendimento, foram demolidas todas as estruturas que não faziam parte do projeto arquitetônico original. Ela reativou a passagem entre o imóvel e a galeria do Copan, no térreo. Tudo pensado para que, naquele ambiente, livros, livreiros e leitores possam melhor dialogar entre si, com o entorno e com a cidade.
Esses tipos de livraria têm na conexão com a vizinhança uma questão central de sua razão de ser. “Nós não existimos sem este bairro”, afirma Agatha Kim, uma das três sócias da Aigo, no paulistano Bom Retiro, ao refletir sobre a (im)possibilidade de expansão para outras localidades. Havia quarenta anos que a região — dotada de variados aparelhos culturais e com influência cultural de diversas populações imigrantes, como a coreana, a judaica e a boliviana — não tinha uma livraria. Lá, as placas das seções das obras estão escritas em idiomas que refletem a diversidade da vizinhança.
Para abrir a Na Nuvem, recentemente instalada num casarão de 1924 no bairro do Bixiga (SP), a livreira Renata Costa, que é sócia e gerente, também levou em consideração o entorno, mais especificamente “o caldeirão cultural da Rua Treze de Maio”. Ela destaca a importância da escuta de seus leitores e da união com os moradores e comerciantes vizinhos. De vez em quando aparecem por lá integrantes da escola de samba Vai-Vai ou organizadores da Festa da Achiropita, dois “monumentos” das cercanias. Sobre o acervo, ela cita uma diretriz que norteia muitos desses estabelecimentos: “Não é necessário que eu tenha tudo, mas tenho o melhor”.
*Matéria veiculada na segunda edição impressa da Revista PublishNews, lançada em novembro de 2025, com tiragem de 10 mil exemplares e distribuição gratuita, tanto física quanto digitalmente (em breve). Quer contribuir financeiramente com o canal? Clique aqui.






