Série histórica: faturamento do setor editorial brasileiro cai 43% em termos reais desde 2006
PublishNews, Redação, 04/07/2024
Desde 2019, a queda acumulada do faturamento das vendas ao mercado é de 20%; em relação ao Conteúdo Digital, o crescimento real nas vendas nos últimos cinco anos é de 158%

© Samara Heisz / Shutterstock
© Samara Heisz / Shutterstock

A série histórica da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro aponta que, desde 2006, o setor editorial brasileiro teve uma diminuição de 43% no faturamento real nas vendas ao mercado. Em relação ao Conteúdo Digital, o crescimento real no faturamento das vendas das editoras foi de 158% nos últimos cinco anos. Em 2023, o crescimento real do faturamento das editoras com conteúdos digitais foi de 32,7% em relação ao ano anterior.

As pesquisas são coordenadas pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData.

Em 2023, as editoras registraram R$ 4 bilhões de faturamento nas vendas ao mercado, o que representa queda acumulada de 20% em termos reais (descontada a inflação do período) desde 2019 – último ano que registrou crescimento acima da inflação.

O relatório considera o desempenho real das editoras nos últimos 18 anos em quatro subsetores: Obras Gerais, Didáticos, Religiosos e CTP (Científicos, Técnicos e Profissionais). Em 2023, último ano da série histórica, o mercado editorial registrou retração real no faturamento de 5% na comparação com 2022, quando consideradas apenas as vendas das editoras ao mercado.

Para a presidente da CBL, Sevani Matos, os dados evidenciam um cenário preocupante para o mercado editorial brasileiro. “Ao analisarmos o desempenho real do mercado, observamos os números deflacionados e trazidos a valores de 2023, considerando a variação acumulada do IPCA, que foi de 4,62%. Os resultados são preocupantes e refletem a redução no número de leitores, aliada à falta de políticas públicas consistentes para incentivo à leitura, que tem afetado diretamente o setor. Precisamos avançar com iniciativas e mobilizações para reverter esse quadro e fomentar a leitura, essencial para o desenvolvimento educacional e cultural do país”, afirma, em nota.

O presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), Dante Cid, também se mostrou preocupado com os números. "Em um país com um índice de leitura já tão baixo, como demonstrado na Pesquisa Retratos da Leitura, é desalentador observar esta contínua queda nas vendas", comentou. "A combinação da queda em volume em Obras Gerais e Didáticos com o dramático declínio do CTP (que historicamente apresenta o preço médio mais elevado) resulta neste inquietante quadro. Anos atrás, em momentos de crescimento do PIB percebíamos ao menos uma relativa estabilidade nas vendas, mas nos últimos anos a queda ocorre mesmo em períodos de PIB positivo, ainda que os preços estejam em patamares historicamente baixos".

Subsetores

Analisando os subsetores, o de Obras Gerais é o que tem maior participação no faturamento do setor, 37%, seguido por Didáticos com 32%. Além disso, pela primeira vez, o faturamento das editoras de Religiosos tem participação maior do que o faturamento do subsetor de CTP, com 17% e 15%, respectivamente.

Na comparação de 2022 com 2023, o subsetor de Didáticos apresentou queda de 3% em termos reais nas vendas ao mercado. As editoras não conseguiram recuperar as perdas acumuladas desde o início da crise econômica e alcançaram o patamar mais baixo dos últimos 18 anos. Sendo assim, o subsetor acumula queda de 17% desde 2020, ano da pandemia da Covid-19. Analisando desde 2006, no início da série, a queda nas vendas ao mercado chega a 45%.

No entanto, o preço do livro sofreu uma ligeira alta de 0,4% em termos reais, o que impediu que a queda fosse ainda mais acentuada.

As vendas ao mercado do subsetor de Obras Gerais em 2023 tiveram desempenho em termos reais de -7%. É o recuo mais acentuado no subsetor desde 2018. No último ano, o preço médio de Obras Gerais sofreu aumento de 5,8%, o que vem sendo a alternativa encontrada para garantir o desempenho das editoras; por outro lado, o preço médio acumula queda real de 29% desde 2006. E o faturamento das editoras com as vendas ao mercado permanece distante daquele registrado em 2006, com perda acumulada de 40% em 18 anos.

O subsetor de Religiosos registrou nas vendas ao mercado em 2023 um recuo em termos reais próximo de zero, de -0,1%. O subsetor é o que apresenta menor redução em 18 anos, com queda no faturamento de editoras de 14% em termos reais. De 2006 a 2023, a queda acumulada é de 29% no preço médio real.

Por fim, o subsetor de CTP registrou em 2023 novamente queda acentuada em termos reais, com -10%. É o subsetor que apresentou o patamar mais baixo em 18 anos, com uma queda real de 61%. O CTP também encontra dificuldades para recuperar o preço dos produtos, que acumula perda real de 36%.

“As editoras de CTP foram as que mais sentiram a crise econômica. De 2014 a 2023, a queda em termos reais é de 66%. Apesar disso, é importante destacar que este mercado passa por uma intensa transformação, as editoras de CTP têm apostado cada vez mais na comercialização de conteúdo digital e os resultados alcançados são bastante positivos. Em 2023, pelo segundo ano consecutivo, as vendas de conteúdo digital foram capazes de segurar a queda nominal registrada com a comercialização de livros impressos. Quando somados os faturamentos, livros impressos e conteúdo digital, as editoras de CTP apresentam crescimento nominal de 3%. Ainda que isso signifique uma queda em termos reais, os resultados recentes apontam que esse mercado pode estar se estabilizando, embora essa estabilização esteja num patamar muito abaixo daquele registrado no início da série”, explica Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas econômicas e setoriais da Nielsen BookData.

Conteúdo Digital

Na Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, somando À La Carte e Outras Categorias, o crescimento real no faturamento das vendas das editoras foi de 158% nos últimos cinco anos. Em 2023, o crescimento real do faturamento das editoras com conteúdos digitais foi de 32,7% em relação ao ano anterior.

Na categoria À La Carte, ou seja, quando há a comercialização de uma unidade inteira de e-book ou audiobook, a evolução do faturamento das editoras apresentou um crescimento real de 78% nos últimos cinco anos. O crescimento foi registrado em função do volume vendido, dado que o preço mostra decréscimo de 27% em termos reais no mesmo período.

Já a categoria de “Outras Categorias” agrupa em um único segmento do levantamento as formas de comercialização Bibliotecas Virtuais, Assinaturas, Cursos Online e Plataformas Educacionais. Em 2023, “Outras Categorias” mostrou crescimento de 50%, em termos reais, em relação ao ano anterior. Dentro deste guarda-chuva, a subcategoria de Bibliotecas Virtuais apresentou um crescimento real de 52%, e 240% nos últimos cinco anos.

O mercado digital atualmente representa 8% do setor editorial.

Confira a íntegra das séries históricas das Pesquisas Produção e Vendas e Conteúdo Digital.

[04/07/2024 11:00:00]