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Maureen Miranda no país dos editores
PublishNews, Leonardo Garzaro, 05/09/2023
Seria difícil explicar para meu amigo Sherif Bakr, que veio do Egito para o Rio, com escala em Doha, que eu não conseguiria ir até o Rio

Maureen Miranda, à direita, topou ir à Jornada Profissional de última hora | © Arquivo pessoal
Maureen Miranda, à direita, topou ir à Jornada Profissional de última hora | © Arquivo pessoal
Foi nos dias 30 e 31 de agosto que o Brazilian Publishers, braço de internacionalização da produção editorial brasileira da CBL, organizou a quarta edição da Jornada Profissional. Nos dois dias que antecedem a Bienal, editores de todo o mundo se encontram para negociar direitos, trocar novidades e fortalecer a amizade. Na parte da manhã, café da manhã com pão de queijo. Em seguida, duas palestras. O resto do dia seria dedicado às reuniões, os famosos matchmakings, agendados com antecedência.

Eu fui convidado e, claro, estava pronto para ir. Se já encarei quinze horas de voo para a feira de Sharjah, onze para a de Londres e toda sorte de escalas para chegar a Frankfurt, não deixaria de ir ao Rio de Janeiro. Os amigos editores me esperavam: com as reuniões agendadas, queriam é saber onde do Rio eu os levaria, ansiosos por serem apresentados às aventuras que só os nativos conhecem.

O problema era a última semana de agosto. Às vezes, a vida é um marasmo (ok, raramente). Mas, desta vez, tudo se concentrava na última semana do mês. Uma editora chinesa visitando São Paulo. Diversas reuniões on-line. Dois livros importantes a serem finalizados para lançamento em setembro. A lição de casa dos filhos. O novo livro a escrever. A coluna do PublishNews que estava atrasada. Uma invoice que o banco não encontrava. A migração de sistemas da editora. Tudo na última semana de agosto.

Bolei um plano, ainda assim. Como o preço da ponte aérea estava na estratosfera, imaginei trabalhar até às 17h do dia 29, pegar o ônibus para o Rio, dormir no mesmo hotel das reuniões, voltar no dia seguinte, no fim da tarde. Ainda que exausto, conseguiria. Pelo menos, daria uma passadinha, cumprimentaria os amigos, fecharia um negócio ou outro. Seria difícil explicar para meu amigo Sherif Bakr, que veio do Egito para o Rio, com escala em Doha, que eu não conseguiria ir até o Rio. Em relação ao Cairo, a ponte aérea é um pulo! Valia o mesmo para a Sandra Tamele, que comprou os direitos do meu primeiro livro para publicar em Moçambique. Três escalas para vir ao Brasil e eu não podia visitar o estado vizinho?! Pois é, não dava. Passei logo para o plano B, que era encontrar quem me representasse. E a melhor opção era a Maureen Miranda, atriz, autora da Rua do Sabão, e, sem dúvida, a pessoa mais simpática e comunicativa que jamais conheci.

Faltando cinco dias para as reuniões, enviei um áudio para a Maureen. Ela, de pronto, entendeu, topou e adorou. Me perguntou que roupa deveria usar, se um terninho ou vestes mais confortáveis. Eu respondi que ia sempre com roupa de domingo. Perguntou os objetivos da reunião, e eu expliquei que o principal era fazer sucesso. Ficou tudo acertado. Mandei fotos de cada um dos editores, explicando os negócios que tínhamos com eles, detalhei o funcionamento da reunião. Ela já estava praticamente lá, empolgadíssima.

Preciso falar um pouco mais sobre a Maureen Miranda. Nos conhecemos por intermédio do Rogério Galindo, jornalista de primeira grandeza. Ela havia finalizado um livro, eu procurava autoras para publicar. Rogério nos apresentou. Marcamos de falar por telefone e a Maureen atendeu cantando. Assim mesmo. Eu disse "alô?" ela respondeu "Sou a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Romaaaaa". Continuei com "tudo bem?" e ela "Sou a sereia que dança, a destemida Iara, água e folha da Amazôniaaaaaa". Foi amizade à primeira vista! O resto foi publicar Cidade velha, seu primeiro livro, e me preparar para os próximos, que saem em breve. E também conhecer alguns de seus amigos, todos incríveis, prontos para atenderem as ligações cantando. Além de escrever e atuar, a Maureen é artista plástica: já assinou cinco dezenas de capas. Em abril do ano passado, ela me presenteou com uma pintura dos meus três filhos, as cabecinhas voltadas para o céu, observando o eclipse. A pintura hoje está na cabeceira da cama, ao lado da foto original.

No dia das reuniões, enquanto trabalhava freneticamente, passei a receber os áudios da Maureen. No primeiro, me pediu para confirmar o endereço. No segundo, para relembrar qual editor publicava o quê. Daí em diante, ela estava em casa. Contou que a nossa mesa era a mais bonita, cheia de livros, decorada com uma pirita, o mineral, e forrada com uma toalha que ela mesma costurou. Ao encontrar o Guido Indij, editor argentino, falaram dos livros da editora, do trabalho do Marco Lucchesi, da presença da literatura brasileira na Argentina, e logo evoluíram para o canabidiol medicinal e o interesse do Guido em investir nessa área na Argentina. Guido quis levar a pirita de presente; Maureen disse que não.

Com o Sherif Bakr, editor egípcio, a amizade foi imediata. Maureen ganhou de presente um papiro e um brinco. Sherif se interessou pelos nossos autores nacionais, confidenciou o interesse em avançar para livros infantojuvenis e ilustrados. Almoçaram juntos, combinaram de visitar alguns lugares do Rio. Tiraram fotos divertidas: na melhor delas, cada qual mostra sua meia. A dela era do Bob Esponja. A dele tinha flores e motivos natalinos. Segundo ambos, "a vida é muito curta para se usarem meias sem graça". Nasce mais uma amizade!

'A vida é muito curta para se usarem meias sem graça' | © Arquivo pessoal
'A vida é muito curta para se usarem meias sem graça' | © Arquivo pessoal
Em alguns momentos, com editores da Eslovênia, o idioma enroscava. Maureen explicava os personagens de seu conto Ramira, que narra uma cidade tomada por ratos, mas a editora não entendia. O jeito foi apelar. "Ratos? Rats? Mus, miš, myš? Mickey Mouse?" Pronto. Tudo esclarecido. Entre mímicas, uma palavra em cada idioma e as referências à Disney, deram um jeito. Ela ia me contando tudo. "Léo, ele não entendia de jeito nenhum o que era rato. Tentei em todos os idiomas. Só entendeu quando eu falei do Mickey!" Pelo que me explicou, ela havia conversado em oito idiomas, metade dos quais inventados!

No fim do dia, recebi as últimas mensagens. Estava exausta, e eu entendo: é preciso colocar muita energia nessas reuniões. Somado ao esforço de se explicar e entender em outro idioma, terminamos exaustos. Quando estou nas feiras no exterior, sempre durmo cedíssimo, vencido pelo cansaço. Antes de definitivamente descansar, a Maureen confidenciou "meu Deus, eu amei esse trabalho, amei as pessoas. Chorei duas vezes. Pode me mandar de novo. Quero vir sempre".

Maureen, eu sei! Ser editor é o melhor trabalho do mundo!

Leonardo Garzaro é escritor, editor e jornalista. Paulista, nascido em 1983, fundou diferentes editoras independentes e editou dezenas de livros. Seu primeiro romance, o infantojuvenil O sorriso do leão, teve os direitos vendidos para editoras de seis países, com traduções para o inglês, espanhol, turco e árabe. Alguns de seus contos foram publicados na premiada revista norte-americana Literal Latin Voices. É consultor de literatura brasileira das editoras Interzona, da Argentina; Arlequin Ediciones, do México; e Corredor Sur, do Equador. Lançou em 2022 O guardião de nomes, que foi elencado como um dos melhores romances de 2022 pelo Suplemento Literário Pernambuco.

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