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A inteligência artificial: Uma ferramenta em evolução
PublishNews, Fernando Tavares*, 31/07/2023
Fernando Tavares discorre sobre a evolução da inteligência artificial, suas limitações, e sobre como usá-la de forma ética

A inteligência artificial (talvez) não existe...

A Inteligência Artificial (IA) tem sido um tópico de destaque em muitas discussões, tanto no mundo dos negócios quanto na academia. No entanto, é importante destacar que os sistemas que atualmente rotulamos como IA não são, de fato, "inteligentes" no sentido humano. Estes são sistemas automatizados que executam tarefas pré-determinadas baseadas em condições ou comandos específicos, sem a capacidade de aprender ou pensar por si mesmos.

Ao discutir IA, muitas vezes estamos nos referindo a conceitos como automação e aprendizado de máquina. A terminologia 'IA' é usada de maneira bastante abrangente e pode englobar uma variedade de ciências, métodos, paradigmas, tecnologias, produtos e serviços. Um estudo de 2007 realizado por LEGG e Hutter ilustrou essa ambiguidade, apresentando 58 definições diferentes para "inteligência" e 18 para "artificial".

Na verdade, muitas empresas que afirmam utilizar IA estão, na realidade, utilizando a aprendizagem de máquina, um subcampo da IA. Os sistemas de aprendizagem de máquina são projetados para analisar e interpretar padrões em dados grandes e complexos, permitindo-lhes fazer previsões ou realizar tarefas específicas baseadas nesses padrões identificados.

Max Simkoff e Andy Mahdavi, em um artigo na Scientific American, argumentam que a verdadeira IA deverá ser capaz de determinar a solução ótima para um problema usando inteligência semelhante à humana, além de procurar tendências em dados e combinar informações de várias fontes para formular uma resposta lógica.

O filósofo Luciano Floridi sugere que a era atual da IA representa uma nova forma de agir, que pode ser bem-sucedida sem necessariamente ser "inteligente" no sentido humano. Neste contexto, o que chamamos de IA atualmente não é uma entidade consciente que entende ou "pensa", mas uma tecnologia avançada que pode processar e analisar informações de maneira eficaz.

Inteligência Artificial e Mercado Editorial

Ainda que não seja muito "inteligente", a IA atual já tem o potencial de transformar a indústria editorial de maneira significativa. Thad McIlroy, em seu artigo na Publishers Weekly, argumenta que a nova geração de IA (a IA generativa) é um divisor de águas para a indústria editorial. Ele acredita que todas as funções na publicação de livros comerciais hoje podem ser automatizadas com a ajuda da IA gerativa. Isso inclui desde a aquisição e edição de manuscritos até a produção, distribuição e publicidade de livros. A IA pode até ajudar na descoberta de novos livros, permitindo que os escritores identifiquem seu público ideal e que os leitores encontrem seu próximo livro perfeito.

No entanto, McIlroy também reconhece que a IA tem suas limitações. Ele sugere que, embora a IA possa automatizar muitas das funções na publicação de livros, ela não pode substituir o toque humano. Ele vê um futuro brilhante para as livrarias, que continuarão a ser fontes únicas de camaradagem e toque humano.

Enquanto nos preparamos para a era da IA na indústria editorial, devemos também nos preparar para os desafios que ela traz. Precisamos garantir que a IA seja usada de maneira ética e responsável. Precisamos garantir que ela não seja usada para prejudicar ou enganar as pessoas. E precisamos garantir que todos tenham acesso às oportunidades que a IA oferece.

Analfabetos em Inteligência Artificial

Dada essa realidade, é crucial que nos alfabetizemos em IA.

Tenho aprofundado esta ideia com amigos e colegas de trabalho, e em uma conversa informal com a Coordenadora da SciELO Books Amanda Ramalho, escutei a expressão "Analfabetos em IA", usada por ela. Além dos tantos analfabetismos que já temos, agora precisamos lidar também com este tipo de analfabetismo.

A expressão "analfabetos em IA" pode referir-se a indivíduos ou empresas que não têm conhecimento ou compreensão sobre Inteligência Artificial (IA). Isso pode incluir não entender o que é IA, como ela funciona, quais são suas aplicações e implicações, e como ela está sendo usada na sociedade atual.

Assim como o analfabetismo tradicional se refere à incapacidade de ler e escrever, o analfabetismo em IA se refere à falta de capacidade para entender e interagir efetivamente com tecnologias baseadas em IA.

Acredito fortemente que precisamos entender o que a IA realmente é, o que ela pode e não pode fazer, e como ela pode ser usada de maneira eficaz. A alfabetização em IA não é apenas para cientistas da computação ou engenheiros de software. É para todos nós. Como a IA está se tornando cada vez mais integrada em nossas vidas diárias, é importante que todos tenhamos uma compreensão básica dessa tecnologia.

A IA é uma ferramenta poderosa que tem o potencial de transformar muitos aspectos de nossas vidas. No entanto, como qualquer ferramenta, ela só é útil se soubermos como usá-la corretamente. A IA não é uma solução mágica para todos os nossos problemas. Ela não pode substituir o julgamento humano ou a tomada de decisões. Em vez disso, ela deve ser vista como uma ferramenta que pode nos ajudar a resolver problemas complexos e realizar tarefas de maneira mais eficiente.

A IA também tem suas limitações. Ela é tão boa quanto os dados que são alimentados nela. Se os dados forem tendenciosos ou imprecisos, a IA produzirá resultados tendenciosos ou imprecisos.

Ética e Inteligência Artificial

Dentro deste contexto, um tema que estou procurando aprofundar (sobre o qual voltaremos a falar) e que é muito importante, é o das consequências éticas no uso e na criação das ferramentas que fazem uso de inteligência artificial.

No artigo da Harvard Business Review, Um guia prático para construir IA ética, o autor Reid Blackman, argumenta que a ética em dados e IA é uma necessidade comercial e não uma curiosidade acadêmica. Ele sugere sete passos para as empresas construírem um programa de ética em dados e IA que seja personalizado, operacionalizado, escalável e sustentável. A IA, de fato, não apenas amplia as soluções, mas também os riscos.

No contexto da indústria editorial, existem diversas questões complexas que necessitam de atenção. Uma delas, por exemplo, é a utilização não autorizada de conteúdo protegido por direitos autorais para treinar modelos de Inteligência Artificial. Este é um problema que não só viola os direitos dos autores, mas também levanta questões éticas significativas sobre a propriedade e o uso de conteúdo intelectual na era digital.

A minha principal preocupação em relação à nossa capacidade de construir uma IA ética reside na nossa compreensão limitada da ética em nossas ações, empresas e negócios. Se lutamos para incorporar princípios éticos em nossas próprias práticas, como podemos esperar construir uma IA que seja intrinsecamente ética? Este é um desafio que precisamos enfrentar se quisermos garantir que a IA seja usada de maneira responsável e benéfica.

Aqui voltamos ao assunto anterior: conhecimento.

Para maximizar o potencial da Inteligência Artificial (IA), é essencial que tenhamos um conhecimento profundo dela - um processo que chamamos alfabetização em IA. Da mesma forma, a criação de uma IA ética requer um conhecimento sólido em ética. A ética, no entanto, não é uma questão de opinião pessoal ou preferência, mas sim um campo de estudo que exige aprendizado e compreensão. Devemos nos perguntar: quantos de nós tiveram a oportunidade de estudar ética de maneira formal em uma sala de aula/faculdade/etc? Quantos de nós buscaram ativamente o conhecimento neste campo através de leitura, cursos ou seminários? A resposta a estas perguntas pode lançar luz sobre a necessidade de uma maior educação em ética para melhorar nossa interação com a IA.

Concluindo sem concluir...

Enquanto nos preparamos para a era da IA, devemos também nos preparar para os desafios que ela traz. Precisamos garantir que a IA seja usada de maneira ética e responsável. Precisamos garantir que ela não seja usada para prejudicar ou enganar as pessoas. E precisamos garantir que todos tenham acesso às oportunidades que a IA oferece.

Em conclusão, a IA é uma ferramenta poderosa que tem o potencial de transformar muitos aspectos de nossas vidas. No entanto, para aproveitar ao máximo essa tecnologia, precisamos nos alfabetizar em IA e em ética!

Precisamos entender o que a IA realmente é, o que ela pode e não pode fazer, e como ela pode ser usada de maneira eficaz. Só então poderemos usar a IA para criar um futuro melhor para todos nós.


Referências

Analytics Insight. ‘AI Is Not Real’: How Intelligent is Artificial Intelligence? [s.l.], [s.d.]. Acesso em: 23/07/2023.

BLACKMAN, Reid. A Practical Guide to Building Ethical AI. Harvard Business Review, [s.l.], 2020. Acesso em: 23 jul. 2023.]

FLORIDI, Luciano. Etica dell'intelligenza artificial. Sviluppi, oportunità sfide. Milão: Raffaelo Cortina Editore, 2022.

LEGG, S.; HUTTER, M. A collection of definitions of intelligence. 2007. Acesso em: 27 jul. 2023.

McIlroy, T. AI Is About to Turn Book Publishing Upside-Down. Publishers Weekly, [s.l.], [s.d.]. Acesso em: 23/07/2023.

UNESCO. Ethics of Artificial Intelligence. [s.l.], [s.d.]. Acesso em: 23 jul. 2023.

Scientific American. AI Doesn't Actually Exist Yet. [s.l.], [s.d.]. Acesso em: 23/07/2023.


* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.

* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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